
Artigo de 2003, revisão 2026
O progresso tecnológico contínuo e a crescente necessidade de comunicação exigem soluções técnicas adaptadas às necessidades militares. O aparecimento da comutação automática levou ao desenvolvimento de equipamentos com especificações próprias do meio militar, mais exigentes do que as utilizadas no setor civil.
A rede telefónica estratégica militar é um exemplo dessa importância: quando falha, pode comprometer a transmissão de ordens essenciais ao funcionamento da estrutura. No âmbito tático, os equipamentos devem permitir mudanças rápidas de posição, garantir fiabilidade na instalação e funcionar em diferentes condições ambientais.
Para responder a estas exigências, foram desenvolvidas, em colaboração com a indústria nacional, duas famílias de equipamentos para a comutação de circuitos em sistemas táticos: os comutadores de campanha P/TTC 101 e P/CD 132. Este documento apresenta as suas principais capacidades e aborda a continuidade do projeto de desenvolvimento iniciado na década de 1990.
1. Situação
A central de campanha P/TTC 101 encontra-se em funcionamento desde 1994, tendo o Exército adquirido sete (7). Estes tipos de comutador foram utilizados no quadro das Nações Unidas, nomeadamente no BTm4 (ONUMOZ/ Moçambique) e CTm 5 (UNAVEMIII/Angola), actualmente são utilizadas na TFOR (Timor) e SFOR (Bósnia) e a nível nacional.
Em 2001, este tipo de comutador foi objeto de uma reconversão de software e hardware, que corrigiu problemas de conceção e permitiu implementar novas funcionalidades.
O comutador digital de campanha P/CD 132 está em funcionamento desde 1998, contando atualmente com 37 equipamentos operacionais.

Central de campanha P/TTC 101

Comutador digital de campanha P/CD 132
A distribuição no Exército em Março de 2003 era a seguinte:


2. Potencialidades
Os sistemas de comutação existentes, baseados em tecnologia digital PCM/TDM ((Pulse-Code Modulation/Time-Divison Multiplexing), são compactos, robustos, fiáveis e fáceis de transportar e instalar.
O P/TTC 101 dispõe de 128 portas sem bloqueio, enquanto o P/CD 132 possui 64. A interligação de dois sistemas P/CD 132 permite aumentar a capacidade para 128 portas.
Dispõe de interfaces para a rede pública comutada: Telefone normalizado; Junções E&M e de lacete; Acesso básico RDIS (2B+D) e Acesso primário RDIS (30B+D). Dispões de interfaces específicos para a rede táctica do Exército: Junção digital de 1 Mbit/s para o FM200; Junções digitais de 1 a 2 Mbit/s; Interface multifuncional para telefones de campanha.
A P/TTC 101 permite para além das características anteriores a duplicação da capacidade bem como de órgãos centrais, levando a uma redundância de órgãos a vários níveis.
Os sistemas de comutação existentes utilizam tecnologia digital PCM/TDM e caracterizam-se pela robustez, fiabilidade, dimensão reduzida e facilidade de transporte e instalação.
O P/TTC 101 dispõe de 128 portas sem bloqueio, enquanto o P/CD 132 possui 64. A interligação de duas unidades P/CD 132 aumenta a capacidade para 128 portas.
Os sistemas incluem interfaces para a rede pública comutada, nomeadamente telefones normalizados, junções E&M e de lacete, acesso básico RDIS (2B+D) e acesso primário RDIS (30B+D). Para a rede tática do Exército, disponibilizam uma junção digital de 1 Mbit/s para o FM200, junções digitais de 1 e 2 Mbit/s e uma interface multifuncional para telefones de campanha.
Além destas características, o P/TTC 101 permite duplicar a capacidade e os órgãos centrais, assegurando redundância em vários níveis.
3. Normas
Além de cumprirem as normas ambientais aplicáveis a equipamentos militares desta natureza, os sistemas táticos de comutação obedecem ao STANAG 4578, edição 1, de julho de 2000, cuja ratificação por Portugal se encontra em curso. Portugal está também a avaliar a ratificação da edição 2 desta norma, publicada em julho de 2002.
4. Descrição/funcionalidade dos módulos
Os comutadores Tácticos existentes tem uma estrutura modular configurável dependente das necessidades. Os módulos são os seguintes:
Alimentação
- FAP ( Fonte de alimentação Primária)
- FAS II (Fonte de alimentação secundária)
- FAS (Fonte de alimentação secundária) Só utilizada na P/TTC 101
Controlo
- ATSI (Advanced Time Slot Interchanger)
- CMC (Controlador de Módulo central)
- CMP (Controlador de Módulo Periférico). Só utilizada na P/TTC 101
- MEM (Memória) Só utilizada na P/TTC 101
Interface
- CMI (Controlador de Módulo de Interface)
- TRANSF (Módulo de Transferência)
- TGATT (Placa “Tone Generator e Attendant”)
- MULTIF (Placa Multifuncional)
- E & M (Placa de Junção “Ear and Mouth”)
- E & M /Rádio (Placa E & M /Rádio)
- JD/PRI 2 (Junção digital ou acesso Primário 2Mbps)
- JD/PRI 1 (Junção digital ou acesso Primário 1Mbps)
- BRI (Placa de “Basic Rate Interface” 6S+2U)
- ISU (Placa “Integrated Services Digital Network” (ISDN) “Signaling Unit”)
O módulo FAP fornece uma tensão de 48 V CC a partir de uma alimentação entre 90 e 264 V CA ou entre 24 e 36 V CC. O módulo FAS II converte os 48 V CC nas tensões de −48 V, +5 V, +8 V, −8 V e −70 V.
O módulo CMC processa as chamadas, gere as funcionalidades do sistema e executa operações de manutenção e reconfiguração. Além disso, controla as redes de sinalização, comutação e relógio.
O módulo ATSI realiza a comutação e o ajuste de ganho entre os intervalos de tempo PCM, processa chamadas de conferência através da soma desses intervalos e gera o relógio do sistema.
O módulo CMI regula e distribui a alimentação às placas de interface sob o seu controlo, identifica-as e comunica essa informação ao CMC. Além disso, gere os detetores de tons MF e controla as placas de interface sem microprocessador.
O módulo TGATT disponibiliza uma interface de áudio e uma interface série RS-422 para ligar o terminal do operador ou uma impressora. Além disso, assegura o controlo do terminal do operador.
Módulo MULTIF implementa 8 interfaces para terminais analógicos. Faz a conversão digital /analógico e analógico / digital para interligação aos buses de PCM do comutador.
Módulo BRI permite a ligação de 6 interfaces S mais 2 tipo U. Ligação à rede publica RDIS em pontos de referência T (configuração ponto a ponto).
Módulo PRI implementa a junção digital a 2,048 Mbit/s com sinalização em canal comum e protocolo RDIS, 30 canais de dados (30B+D). Modularidade de um circuito por carta.
O módulo ISU controla a sinalização, processando os níveis 2 e 3 do protocolo RDIS para o acesso primário das placas BRI. Não possui ligações externas e suporta quatro canais por placa.
O módulo JD1Mbps disponibiliza 14 canais a 1 024 kbit/s e assegura a transmissão e a receção de sinais AMI com codificação NRZ, compatíveis com o equipamento P/IRL 101.
O módulo JD2Mbps disponibiliza uma interface conforme à norma G.703, com capacidade para 30 canais de voz. Permite recuperar o sinal de relógio para sincronizar o sistema com a rede e inclui uma interface para cabo coaxial.
O módulo TRANSF disponibiliza quatro circuitos de transferência em caso de falha de energia, permite interligar duas unidades P/CD 132 e inclui um circuito para abertura da memória do CMC.
O módulo E&M disponibiliza uma interface de áudio configurável a dois ou quatro fios, com sinalização E&M e capacidade de indicar e detetar alarmes remotamente.
O módulo E&M/Rádio disponibiliza quatro interfaces de emissão/receção e suporta ligações em modo semidúplex ou dúplex integral. Deteta o sinal de voz proveniente da interface E&M e gera o sinal PTT correspondente; deteta também o sinal de squelch recebido do rádio e sinaliza-o na interface E&M.
5. Configurações dos comutadores
Apresenta-se nas figuras seguintes configurações possíveis para os Comutadores, salientando-se que esta configuração poderá ser alterada de acordo com as necessidades.

Configuração base do comutador P/CD 132

Configuração da P/TTC 101
6. O Integrador Radio Linha P/IRL 101
É um subsistema destinado a estabelecer a interligação de comutadores Digitais de campanha a equipamentos de rádio FHz (FM200). Constituído por dois Módulos, a fonte de Alimentação e a interface IFM200

Aspecto do IRL 101
7. O Apoio Logístico/Manutenção
No Destacamento da EMEL em Linda-a-Velha foram efectuados desde 1998, altura em que foi criado uma área de manutenção nestes equipamentos os seguintes trabalhos:
- Instalação da P/TTC 101 em Cabines T102 para TIMOR e na EPT
- Instalação da P/CD 132 em cabine para KFOR
- Realizadas 19 Verificações Técnicas, 35 Verificações Operacionais, cada qual com um conjunto de equipamentos e 98 Ordens de Trabalho.

Área da Manutenção de Comutadores
Cada ordem de trabalho corresponde a uma reparação, concentrando-se a maioria das intervenções nos módulos MULTIF. A reparação de alguns módulos e componentes dos comutadores não é atualmente possível devido à falta de equipamentos de teste.
Contudo, a sua aquisição não se justifica, tendo em conta o custo e a reduzida utilização prevista. Caso venha a ser implementada a manutenção dos comutadores TAGID das centrais estratégicas, deverá ser avaliada a viabilidade de adquirir esses equipamentos.
8. Novos desafios
Com a evolução tecnológica constante que existe na área da electrónica e programação, existe a necessidade de continuar na implementação de novas facilidades nesta área. Por tal facto existe a possibilidade de implementar novas funções e capacidades nos sistemas de comutação de circuitos de campanha nomeadamente:
- Implementar um Módulo para Interfaces DECT, possibilitando assim ligações a telefones sem fios;
- Desenvolver Centrais de Transito, possibilitando a ligação de vários acessos Primários sem bloqueamento;
- Implementar um interface específico para a Artilharia, possibilitando chamadas de conferência;
- Implementar um Sistema de Gestão.
Quanto ao primeiro ponto a sua implementação é de elevado custo, por tal facto ainda se torna rentável a utilização de equipamentos do meio civil interligados com os sistemas de comutação Tácticos.
Quanto ao segundo e terceiro ponto poderá ser desenvolvido caso exista necessidade.
Quanto ao quarto ponto, seria importante o seu desenvolvimento e aplicação de modo a permitir: a realização de uma manutenção preventiva; a execução da Telemanutenção; e a substituição dos terminais de vídeo VT100 de custo elevado que actualmente estão em uso.
Como seria a arquitectura do sistema?
Tendo como exemplo a situação da ligação Portugal-Timor como se encontra na figura seguinte:

Esquema de ligação Portugal Timor
Poderia ser criada uma arquitectura de solução Distribuída ou Centralizada, conforme a situação táctica, ponderando as respectivas vantagens e desvantagens que cada uma poderia ter.
Na solução Centralizada o órgão do subsistema de Gestão, Operação e Manutenção era concentrado num ponto (RTm ou noutro local da Rede SICOM).
Numa solução distribuída cada órgão de Gestão poderia realizar a gestão remotamente dos outros locais de gestão.
Quais as funcionalidades?
As funcionalidades do sistema de Gestão permitiria realizar a gestão de avarias, performance, manutenção, configurações e de segurança dos sistemas de comutação.
A gestão de avarias permitiria a:
- Supervisão das infra-estruturas com modelo hierárquico da rede
- Indicação do estado de funcionamento
- Recuperação/atendimento de alarmes
- Realizar o Histórico de Alarmes
- Implementação do serviço de piquete
- Implementação do registo de falhas
A gestão de performances permitiria fornecer dados que permitam avaliar a utilização dos recursos da rede e a qualidade do serviço, com vista ao seu replaneamento ou à sua reconfiguração.
A gestão de manutenção permitiria:
- Gestão de Contratos
- Movimentos de Armazéns
- Processamento de Registos de Falhas
- Intervenções
- Assistências
- Programação de Intervenções
A gestão de configurações permitiria:
- Configuração dos equipamentos da rede e das entidades necessárias ao funcionamento das diversas aplicações de gestão contidas no Sistema de Gestão, Operação e Manutenção;
- Acesso remoto à parametrização de equipamentos. A partir dos Terminais de Operação seria possível abrir sessões de parametrização remota de equipamentos. No entanto este acesso estaria condicionado através dos perfis de operação.
A gestão de segurança permitiria:
- A configuração de perfis de operação possibilita a definição das acções permitidas a um dado perfil, delimitando assim as acções que podem ser realizadas pelos operadores;
- O acesso ao sistema de gestão, operação e manutenção teria dois níveis de protecção: o primeiro, em que o operador tem de ser criado no sistema (no servidor de gestão e nos terminais de operação de cada centro de gestão), e o segundo em que ao operador é atribuído um perfil que define os acessos a funções de gestão a realizar sobre os equipamentos da rede.
Integração num sistema de gestão abrangente
Um sistema de gestão desta natureza deverá integrar-se numa plataforma mais abrangente, capaz de interligar os diversos equipamentos de comunicações da rede. Os trabalhos do Grupo de Projeto SIC-T já apontavam para esta abordagem, enquadrando os equipamentos de comutação num sistema único de gestão.
Esta plataforma incluiria a gestão de contas e de segurança, de acordo com os princípios de INFOSEC, bem como a gestão de chaves e frequências. Deste modo, seria possível administrar, a partir de um único ponto, todos os sistemas de comunicações, recorrendo a um protocolo normalizado assente em SNMP.
Antes de concretizar esta integração, deverá ser revista a arquitetura dos sistemas de comutação de circuitos, nomeadamente através da criação de uma Unidade de Gestão Local (UGL) associada a cada sistema. Numa primeira fase, esta unidade poderá ser implementada num computador pessoal, com as seguintes funções: consulta e verificação de alarmes; parametrização local; envio de alarmes para outros centros de gestão.
Desenvolvimento proposto
A solução deverá aproveitar as capacidades já existentes no segmento estratégico, onde se encontram implementadas a gestão de falhas dos PABX e a parametrização das UGL. O desenvolvimento deverá acrescentar o Carregamento da Base de Dados e a monitorização do estado de funcionamento dos sistemas de comutação, adaptando posteriormente estas capacidades aos sistemas de comutação táticos.
Numa primeira fase transformar a unidade monitora actual que utiliza terminais VT 100 para algo com capacidade de implementar as funcionalidades de gestão mencionadas anteriormente. Nesta fase poderia ser utilizado um computador portátil implementando assim a ULG. Numa segunda fase, implementar as características militares necessárias integrando o sistema na unidade de comutação
As centrais e os comutadores de campanha constituem produtos de conceção nacional amplamente aceites pelos utilizadores, destacando-se pela fiabilidade e pela capacidade de interoperar com sistemas internacionais.
Contudo, é necessário investir na aquisição de sobressalentes, sobretudo módulos internos, e continuar a desenvolver novas funcionalidades que acompanhem a evolução tecnológica. Embora a comutação de pacotes esteja progressivamente a substituir a comutação de circuitos, estes equipamentos mantêm um papel relevante nas comunicações e não devem ser desvalorizados.
FONTE: Jornada Técnica da Arma de Transmissões,
Escola Prática de Transmissões, 25 de março de 2003
Síntese Biográfica em 2003
O Capitão de Tm (Eng.) António Jarmela concluiu o Curso de Ciências Militares na especialidade de Transmissões na Academia Militar em Outubro de 94 e a licenciatura de Engenharia Electrónica e de Computadores pelo Instituto Superior Técnico em Janeiro de 1997. Frequentou os cursos de comutadores digitais de campanha na EID, operação e manutenção de Feixes Hertzianos na Marconi Italiana. Frequentou acções de formação no âmbito de sistemas GPIB, DECT e Modulação Digital sistemas de videoconferência.
Em 2003 desempenhava funções no Grupo de Estudos e Projectos, em Linda-a-Velha, e fazia parte do grupo de projecto SIC-T. Em acumulação de funções, ministrava a cadeira de Telecomunicações na Escola Superior Politécnica do Exército.
