Após 14 anos de um esforço militar intenso em África, o reequipamento do Exército Português — particularmente no domínio dos meios de comunicações de campanha — tornou-se uma necessidade imperiosa. Perante este cenário, a Direção da Arma de Transmissões (DAT) avaliou, entre 1977 e 1978, a capacidade da indústria nacional para responder às exigências de reequipamento do Exército nas áreas da eletrónica e das telecomunicações.
Esta avaliação diagnóstica revelou lacunas estruturais graves no país: os organismos estatais competentes careciam de medidas concretas de inovação, falhando na obtenção e difusão de know-how, na formação profissional e na partilha de informação tecnológica de suporte ao tecido industrial. Adicionalmente, verificava-se uma ausência crónica de políticas de investimento em inovação nas indústrias de equipamentos eletrónicos e de comunicações.
Ciente da urgência de inverter este panorama, a DAT identificou a janela de oportunidade ideal para romper com as práticas tradicionais de reequipamento e alterar o referencial logístico dos sistemas de comunicações de campanha, historicamente adquiridos junto de fabricantes estrangeiros.
A DAT lançou, então, um conjunto de iniciativas estruturantes com um triplo objetivo: criar competências nacionais em formação profissional, disseminar o know-how tecnológico em processos de eletrónica e garantir o reequipamento das forças operacionais do Exército, privilegiando, sempre que possível, a indústria nacional.
Para facilitar esta ligação essencial entre as Forças Armadas e as comunidades civis interessadas no desenvolvimento de uma indústria eletrónica portuguesa, foram implementadas medidas de natureza orgânica. Formalizaram-se, assim, quatro instrumentos cooperativos assentes num espírito de colaboração interdisciplinar:
- Julho de 1978: Celebração de um protocolo de cooperação entre os Chefes de Estado-Maior dos três Ramos das Forças Armadas e a ANIMEE (Associação Portuguesa das Empresas do Sector Eléctrico e Electrónico), visando potenciar a incorporação de componentes elétricos e eletrónicos nacionais nos fluxos de aprovisionamento e reequipamento das Forças Armadas;
- Ainda em 1978: Assinatura de um protocolo focado na formação profissional de jovens, que envolveu os Chefes de Estado-Maior da Armada, do Exército e da Força Aérea, o Ministério do Trabalho e o Ministério da Investigação Científica. Em 1981, este projeto já se encontrava materializado no setor da metalomecânica e em fase de preparação para o domínio da eletrónica;
- 24 de Abril de 1981: Publicação, em Diário da República II Série, de um despacho conjunto assinado pelo Chefe do Estado-Maior do Exército, General Amadeu Garcia dos Santos, e pelo Ministro da Indústria e Energia, Eng. Ricardo Bayão Horta. Este documento aprovou e executou um Convénio de cooperação focado na Investigação e Desenvolvimento (I&D), na formação de quadros e técnicos, e na garantia mútua da qualidade de produtos;
- 2 de Março de 1983: Celebração do Acordo de Cooperação entre a Direção da Arma de Transmissões e o Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial (LNETI), enquadrado no Convénio anterior. O acordo visava o intercâmbio de quadros técnicos para que o país pudesse suprir internamente as necessidades de equipamentos da Defesa Nacional e incrementar a capacidade da Indústria Eletrónica Portuguesa.
Ao adotar uma estratégia de aquisição evolutiva de competências, produtos e serviços, a Arma de Transmissões conseguiu, durante a década de 1980 e o início de 1990, reequipar a componente operacional do Exército Português com um sistema tático de comunicações robusto.
A grande maioria destes equipamentos foi concebida e fabricada pela indústria nacional, ficando a sua sustentação logística centralizada no seio das Transmissões. Todo este processo assentou numa gestão desburocratizada, sustentada no mérito e competência dos seus técnicos.
Para consolidar a captação do saber-fazer, a Arma promoveu três eixos de ação principais:
- Criação de um centro nacional de formação profissional em eletrónica na Escola Militar de Electromecânica (Paço de Arcos), que contou com o apoio do IEFP (Instituto do Emprego e Formação Profissional) e do Estado-Maior-General das Forças Armadas.
- Aquisição e implementação de novas tecnologias inovadoras e inéditas em Portugal à época, tais como técnicas de soldadura e dessoldadura em eletrónica, reparação de circuitos impressos, e o fabrico de circuitos impressos com furo metalizado e de circuitos híbridos.
- O estímulo ao desenvolvimento e fabrico, por parte da indústria nacional, dos equipamentos necessários ao sistema de comunicações de campanha do sistema de forças do Exército.
Isoladas, estas ações poderiam parecer, a um olhar menos atento, respostas pontuais a problemas circunstanciais. Contudo, elas integraram uma verdadeira política de inovação tecnológica, promovida pelas Transmissões nas décadas de 80 e 90, perfeitamente alinhada com a estratégia de I&D nacional, que as Forças Armadas seguiam para o seu reequipamento.
Partindo do princípio de que “a inovação não deve ser considerada e discutida como um fim, mas sim como um meio de alcançar outros objectivos“, as nossas Forças Armadas demonstraram possuir um valioso potencial humano de engenheiros e técnicos militares motivados para modernizar sistemas, assegurar a sua sustentabilidade e alavancar o desenvolvimento do país. Imbuídos deste “espírito inovador”, os militares das Transmissões protagonizaram as memórias partilhadas nos relatos históricos que se seguem.
Estes relatos baseiam-se fundamentalmente nos testemunhos de duas figuras centrais desta jornada: o tenente-general Avelino Pereira Pinto, Diretor da Arma de Transmissões entre 1975 e final de 1983 e principal arquiteto da política dos sistemas de comunicações táticos; e o tenente-coronel Rodrigo Rosas Leitão, pilar técnico da maioria destas histórias. em próximos “episódios/postes”.
Este trabalho de reconstrução histórica recorreu ainda aos textos e apresentações das Semanas da Arma de Transmissões. Implementados pelo major-general António Pedroso de Lima a partir de 1980, estes eventos anuais tinham como propósito valorizar as capacidades dos jovens oficiais. Constituíram-se como momentos privilegiados de reflexão sobre os múltiplos processos de inovação simultâneos, que viriam a dotar o Exército de capacidades de comunicações de campanha credíveis, fiáveis e sustentáveis.
Os episódios serão apresentados neste site das Transmissões Militares na primeira pessoa pelos próprios narradores-protagonistas ou detalhados por executantes através de memórias técnicas e atas das Semanas da Arma. Para facilitar a leitura e identificação dos autores, as páginas incluem uma barra vertical colorida na margem direita, servindo cada cor como referência visual de autoria.
A história de cada uma das iniciativas ajuda a compreender o sucesso da estratégia seguida pelas Transmissões: focar os esforços em “fazer o conhecimento produtivo” e encontrar soluções através de uma colaboração inter e multidisciplinar. Este esforço coletivo estabeleceu uma linguagem comum e gerou, no seio do Exército, um forte impulso (momentum) de desenvolvimento tecnológico e inovação de processos.
Cada artigo (poste) contará a história de um “milestone desta Grande Aventura”
1977 A 1983 – O PRIMEIRO RÁDIO MILITAR PORTÁTIL CONCEBIDO E FABRICADO POR PORTUGUESES
1972 A 1982 – INOVAR O CONCEITO DE CADEIA LOGÍSTICA PARA OS SISTEMAS DE COMUNICAÇÕES TÁCTICOS
1978 A 1983 – NOVO CICLO NA FORMAÇÃO PROFISSIONAL DE TÉCNICOS EM PORTUGAL
1978 A 1981 – APRENDIZAGEM DE REPARAÇÃO DE MÓDULOS ELECTRÓNICOS DA NOVA GERAÇÃO
1978 A 1986 – OS SISTEMAS DE FEIXES HERTZIANOS SÃO NECESSÁRIOS PARA A CAMPANHA, MAS NÃO SOMOS CAPAZES DE OS REPARAR. QUE FAZER?
1978 A 1983 – CONCEPÇÃO E DESENVOLVIMENTO DE CENTROS DE TRANSMISSÕES MÓVEIS
1979 A 1982 – CONTRIBUIR PARA O DESENVOLVIMENTO NACIONAL: GANHAR KNOW-HOW
1981 A 1989 – CRIAÇÃO EM PORTUGAL DE UM LABORATÓRIO PARA FABRICAÇÃO DE CIRCUITOS INTEGRADOS HÍBRIDOS
1986 A 1987 – DESENVOLVIMENTO E FABRICO NACIONAL DO SISTEMA DE INTERCOMUNICAÇÃO PARA VIATURAS BLINDADAS
1988 – ANO DE MEDIDAS POLÍTICAS DE INVESTIMENTO NACIONAL EM INOVAÇÃO PARA A DEFESA
1991 – ADMIRAÇÃO NA FEIRA INTERNACIONAL DE DEFESA NA GRÉCIA: PORTUGAL APRESENTOU O “HAND HELD” MILITAR MAIS PEQUENO NA FEIRA, COM UM CIRCUITO HÍBRIDO E UM MICROPROCESSADOR!
ANOS 90 – ENTRADA DAS COMUNICAÇÕES TÁCTICAS NA TECNOLOGIA DIGITAL

Assinatura do Acordo de Cooperação entre a Direcção da Arma de Transmissões, TenGen Pereira Pinto
e o Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial, Professor Veiga Simão

