
E ANIVERSÁRIO DO CENTRO DE TRANSMISSÕES DO EXÉRCITO
(17SET26)
MENSAGEM DO DIRETOR HONORÁRIO DA ARMA DE TRANSMISSÕES
TENENTE-GENERAL PAULO VIEGAS NUNES
Oficiais, Sargentos, Praças e Funcionários Civis da Arma de Transmissões,
No dia em que se assinala o Dia da Arma de Transmissões, o Exército celebra também o aniversário do seu Centro de Transmissões, numa cerimónia que une tradição e legado, compromisso e espírito de missão, inovação e construção do futuro.
As raízes da Arma de Transmissões remontam a 1810, à criação do Corpo Telegráfico, a primeira unidade de Transmissões do Exército Português, sediada na Penha de França. Sucederam-lhe o Serviço Telegráfico Militar, constituído em 1911, e o Serviço de Telecomunicações Militares, criado em 1951, que ficou instalado no Quartel de Sapadores.
Neste percurso centenário, corre uma linha ininterrupta de afirmação de competência, dedicação e serviço, que convergiu na criação formal da Arma de Transmissões, em 1970, por separação da Arma de Engenharia.
O Quartel de Sapadores, a “Casa das Transmissões” para múltiplas gerações, afirmou-se como elemento central e aglutinador das tradições da Arma. Aqui se forjaram, de forma intemporal, fortes laços de camaradagem e amizades para a vida.
Através de sucessivas transformações orgânicas e funcionais, a Arma de Transmissões assumiu um papel cada vez mais relevante, tanto no apoio de Comunicações e Sistemas de Informação (CSI), de natureza estrutural (fixa) e conjuntural (móvel), como na condução das operações, garantindo a segurança e a resiliência dos sistemas de Comando e Controlo (C2) e a superioridade de informação do Exército.
No novo ambiente operacional, a atuação das Forças Terrestres assentará, cada vez mais, numa Força centrada em rede, operacionalmente credível, tecnologicamente avançada, ágil e flexível, com utilização intensiva da informação, do conhecimento e da Inteligência Artificial (IA). Estas áreas tecnológicas emergentes possuem um poder disruptivo que excede o contexto tradicional do apoio à decisão, alargando-se aos próprios sistemas de armas e às plataformas autónomas e robotizadas. A disponibilidade e a fiabilidade das CSI que equipam as Forças Terrestres constituem, por isso, um verdadeiro “centro de gravidade” do seu sucesso operacional.
Num mundo em rede e de matriz digital, o moderno campo de batalha, perspetivado numa visão multidomínio, exige ainda a articulação de capacidades cinéticas com efeitos não cinéticos. No espetro eletromagnético e no ciberespaço, a Guerra Eletrónica (GE) e a Ciberdefesa são cada vez mais decisivas para o êxito das operações.
Em ambientes fortemente contestados, marcados pelo emprego massivo de drones e de sistemas autónomos, todas as componentes da Força têm de garantir a proteção do espetro onde opera o seu Comando e Controlo. Não está em causa apenas a sua sobrevivência, mas a sua própria relevância operacional. A Arma de Transmissões reforça assim a sua missão de apoio e, sobretudo, a de vetor de combate.
Nesta estrutura coesa, a Direção de Comunicações e Informação (DCI) garante a coerência global da área CSI, da Gestão da Informação e do Conhecimento, da GE, da Guerra de Informação e da Ciberdefesa, alinhando o planeamento integrado com a visão estratégica do Exército.
Sinal deste compromisso e espírito de missão, a atividade operacional da Arma é intensa e contínua, materializada pela atuação sinérgica do Regimento de Transmissões (RT), das Companhias de Transmissões das Brigadas, do Centro de Transmissões do Exército (CTE) e do Centro de Guerra de Informação e Ciberespaço (CGIC).
Só no último ano, foram empenhados 176 militares de Transmissões em missões internacionais: na missão da União Europeia de Assistência Militar a Moçambique; no aprontamento do EU Battlegroup da União Europeia, sob comando nacional no 1.º semestre de 2026; na missão das Nações Unidas na República Centro-Africana; e, no âmbito da NATO, na proteção do flanco leste, na Eslováquia e na Roménia.
Merece igual destaque a capacidade de resposta das nossas Unidades na sustentação das redes do Comando das Forças Terrestres e no Apoio Militar a Emergências Civis. Salienta-se, entre outros, o apoio às populações atingidas pela depressão Kristin, com o reforço de comunicações, através de terminais Starlink, e o fornecimento de energia a famílias isoladas. Esta constitui uma expressão concreta da prontidão e do espírito de missão de todos quantos servem o Exército na Arma de Transmissões.
No plano do treino e da experimentação, o CGIC organizou o exercício Ciber Perseu e participou em exercícios nacionais e internacionais de referência, entre os quais o Locked Shields e o Cyber Coalition, aprofundando a interoperabilidade com parceiros nacionais e aliados. A sua ação tem sido determinante para reforçar a resiliência e a confiança nos sistemas digitais do Exército.
No domínio da GE, o RT prosseguiu a consolidação da capacidade recentemente reedificada, com o emprego, pela primeira vez, de um Módulo de Apoio de Combate no Teatro de Operações da Roménia, passo determinante da afirmação desta capacidade em ambiente multinacional. Enquanto Polo de Formação da Escola das Armas, ministrou ainda 70 cursos, apoiado pelas Academias Cisco e Microsoft, esforço de especial relevância num domínio marcado pela rápida evolução tecnológica.
O CTE, que hoje celebra o seu aniversário, é um núcleo de excelência tecnológica, cuja missão vai muito além da operação de sistemas: abrange a investigação, o desenvolvimento e a integração de soluções inovadoras que mantêm o Exército na vanguarda tecnológica.
No último ano, O CTE assegurou a continuidade dos serviços digitais que suportam toda a atividade do Exército e participou nos exercícios de interoperabilidade CWIX, no âmbito da Federated Mission Networking. Na modernização, assumiu responsabilidades relevantes no desenvolvimento da MAF e na implementação do Projeto SIC-T, na expansão do SICAVE, na evolução das infraestruturas de virtualização e segurança e no Arquivo Digital do Exército.
As Unidades da Arma constituem hoje um verdadeiro “motor da transformação digital” do Exército, da modernização do seu C2 e dos programas estruturantes da componente C4I da “Força Terrestre 2045”, assegurando a coerência técnica dos projetos em curso.
Destes, salienta-se, a título de exemplo, o contributo para a Estratégia de Inteligência Artificial do Exército, aprovada em fevereiro de 2026, de que resultou o “Afonso”, o primeiro modelo privado de IA generativa do Exército, instalado na sua própria rede, com elevados níveis de segurança, soberania e controlo dos dados. Também aqui, alicerçando o futuro, na vanguarda, avançamos!
Este desempenho, tem sido assegurado apesar da crescente pressão externa sobre muitos dos recursos humanos mais qualificados do Exército, cuja retenção constitui um dos desafios mais exigentes que a Arma de Transmissões hoje enfrenta.
Neste ponto, em particular, importa alterar o foco dos meios e dos processos para as pessoas. Nenhum sistema se sustenta sozinho. Por detrás de cada antena instalada, ligação estabelecida, rede protegida, ou ciberataque defendido com sucesso, está um militar de Transmissões que cumpriu, muitas vezes sem testemunhas e sem aplauso, a sua missão. É esse o traço mais marcante da nossa Arma: a competência exercida com engenho, ciência, discrição e eficácia.
Ao Oficial que planeia os sistemas, ao Sargento que forma e enquadra as equipas, ao Praça que opera e mantém os equipamentos, ao trabalhador civil que assegura a continuidade do serviço, dirijo hoje uma palavra de profundo reconhecimento, que sei ser também partilhado por todo o Exército.
Permitam-me, por fim, uma palavra sobre a revitalização do Quartel de Sapadores. A crescente dependência da informação, a centralidade da Ciberdefesa e da IA e a necessidade de integração digital de capacidades, exigem organizações cada vez mais colaborativas, inovadoras e orientadas para o conhecimento.
A concentração, neste espaço, da DCI e dos Centros de Transmissões e de Guerra de Informação e Ciberespaço cria condições favoráveis para reforçar a cooperação e aproximar áreas, hoje essenciais à transformação do Exército.
Sem prejuízo das responsabilidades próprias de cada Entidade, é esta a visão de um futuro Campus das Transmissões, entendido não como uma nova estrutura orgânica, mas como um ecossistema de competências, conhecimento e inovação, que poderá afirmar o Quartel de Sapadores como polo de excelência e constituir um legado para as próximas gerações.
Para além de um presente de grande empenhamento operacional, que exige forte compromisso individual e permanente consistência coletiva, aos quadros da Arma de Transmissões exige-se também a capacidade para perspetivar, com visão e pragmatismo, um futuro mobilizador, que já hoje se faz presente.
Há mais de dois séculos que os militares das Transmissões asseguram a entrega da mensagem ao seu destinatário. Mudaram os meios, do telégrafo ótico à rede digital; permanece intacto o compromisso e a prontidão para servir.
Na senda desta tradição, exorto todos os militares de Transmissões a continuarem a cumprir a sua missão, com orgulho e com o brilhantismo que os identifica, fazendo jus ao seu lema “Por Engenho e Ciência”, em prol da Arma de Transmissões, do Exército e de Portugal!
