Contribuição para a Elaboração da História das Transmissões Militares em Portugal
2-1 Situação das Transmissões no início da década de 60
Subtemas: Transmissões Permanentes na Metrópole / Transmissões Permanentes no Ultramar / Transmissões de Campanha / Evolução das Transmissões em Angola
Transmissões Permanentes na Metrópole
Com a entrada em funções do major Mário Pinto da Fonseca Leitão para sub-Director do STM, este serviço recebeu um grande impulso na modernização e melhoria dos seus sistemas.
Assim, procedeu-se à selecção, obtenção e montagem de novos equipamentos nas suas redes rádio para remodelação dos seus sistemas. Inicia-se em 1961, em Lisboa, o enterramento de cabo para substituição dos circuitos aéreos e a ligação por feixes hertzianos de Lisboa-Santarém-Tomar-Aveiro-Porto.
Em 1962 realiza-se a ligação por feixes hertzianos para Vendas Novas e Évora e faz-se a instalação da rede automática em Lisboa com uma central Stroger de 400 linhas no Batalhão de Telegrafistas, Sapadores, que viria a ser sucessivamente ampliada para 600 e para 1000.
Instala-se o Centro Receptor Ultramarino em Alcochete e o Centro Emissor Ultramarino na Encarnação.
Em 1963 estabelecem-se ligações por teleimpressor entre Lisboa, Tomar e Porto, a ligação a Mafra por feixes hertzianos, e as primeiras ligações entre Lisboa e Porto por fac-simile e telefotografia.
Transmissões Permanentes no Ultramar
As ligações entre a Metrópole e os Comandos militares ultramarinos, já tinham sido atribuídas à Armada, pelo despacho do MDN de 30 de Outubro de 1956, que desde logo instalaram as suas estações rádio-navais, cujas despesas foram partilhadas por verbas do Exército.
Pelo despacho de 7 de Fevereiro de 1958 do MDN, só as transmissões territoriais internas das Províncias competiam aos respectivos Ramos. No início desta década, as ligações internas existentes correspondiam, em material de campanha em instalação fixa, às estabelecidas entre os Comandos instalados e as suas forças destacadas.
Entretanto, e porque se previa que iriam surgir conflitos internos na sequência dos que começavam a varrer os territórios coloniais de outros países, os Comandos militares das Províncias Ultramarinas solicitavam que fossem estabelecidas redes rádio fiáveis cobrindo os pontos mais importantes dos seus territórios.
Assim, por despacho ministerial de 25 de Fevereiro de 1959 foi nomeado o major Costa Paiva, ao tempo sub-Director do STM, para se deslocar a Angola, Moçambique e Guiné, a fim de elaborar os estudos das redes a montar um sistema de transmissões permanentes. (1)
Esse estudo foi realizado e foi com base nele que vieram a ser organizados os Destacamentos que partiram para cada uma das Províncias para montarem as primeiras fases desses sistemas.
Transmissões de Campanha
Os equipamentos de Transmissões distribuídos às Unidades territoriais, à excepção daquelas que tinham encargos de sub-Unidades da 3.ª Divisão, era constituído por material inglês fornecido a Portugal a partir de 1946.
As Unidades e Sub-Unidades pertencentes à 3.ª Divisão, dispunham das suas dotações orgânicas de material americano, cuja logística (reabastecimento e manutenção de 3.º escalão) competia, como se disse, permanentemente ao BTm3.
No Ultramar, o material de transmissões existente era material inglês e neozelandês (ZC1).
2.2 Acontecimentos e factos relevantes da década de 60 – O Aprontamento
Subtemas: Criação de Unidades de Engenharia no Ultramar / Evolução da ligação interterritorial da Armada para o Exército / Envio do Destacamento do STM para Angola / Montagem dos Sistemas de Transmissões de Campanha em Angola / Montagem de uma oficina de base no Depósito Geral de Material de Transmissões / Procura de equipamentos adequados para àquele tipo de guerra / Criação do Comando das Transmissões de Angola e do Batalhão de Transmissões 361 / Destacamento do STM para Moçambique e Guiné
Criação de Unidades de Engenharia no Ultramar
Em 1960 foram criados os Batalhões de Engenharia de Angola, Moçambique e Guiné, em cada um dos quais figurava uma Companhia de TSF.
O seu comandante passou a acumular funções com a de Inspector de Engenharia e Transmissões que, do antecedente, já existia no QG onde chefiava igualmente o Serviço de Obras.
Evolução da ligação interterritorial da Armada para o Exército
Apesar de estar determinado que as ligações interterritoriais seriam da exclusiva competência da Armada para o que haviam sido construídas, nas capitais dos respectivos territórios, excelentes estações radionavais que haviam sido comparticipadas pelo orçamento do Exército e, muito provavelmente, continuavam a ser comparticipadas nos seus custos de funcionamento.
A verdade é que, talvez porque a situação que se vivia era grave e dizia quase exclusivamente respeito ao Exército e a entrega do seu tráfego, todo de alta prioridade, poderia ocasionar burocracias indesejáveis, o sub-Director do STM, major Mário Leitão, desenvolveu enorme actividade para a valorização da ligação interterritorial pelo STM.
Assim, para melhorar as condições de emissão, mudou para a Ajuda, no mês de Junho de 1961, como solução de emergência, o emissor ultramarino. Porém logo em Outubro do mesmo ano o transferiu para terreno militar da Encarnação, anexo ao Laboratório Militar de Produtos Químicos e Farmacêuticos.
Por outro lado, para garantir uma ligação em duplex, permitindo a utilização de um canal de voz em radiotelefone, a recepção foi transferida para os terrenos militares de Alcochete anexos ao Campo de Tiro, em Abril de 1962.
Ficaram assim o Centro Emissor na Encarnação (CEU) e o Centro Receptor em Alcochete, sendo os seus sinais ligados ao BT, no seu Centro Nacional de Transmissões (CNT), através de cabo enterrado, no caso do Centro Emissor, CEU, e por feixes hertzianos no Centro Receptor.
Com esta montagem não só se permitia a fonia mas também o radioteleimpressor ambos em duplex.
Ao longo do ano de 1962 foram melhorando as instalações, quer as técnicas, quer as de apoio e, em 1963, já foi possível instalar um serviço de radiotelefone, não apenas para as ligações de altos responsáveis militares, mas até para as famílias dos militares que o solicitavam e marcavam data e hora do contacto.
Envio do Destacamento do Serviço de Telecomunicações Miltar para Angola
Em Maio de 1960, o sub-Director do STM, o major Mário Pinto da Fonseca Leitão, organizou no BT o Destacamento do STM para Angola sob comando do Capitão Francisco José Pinto Correia, com todo o pessoal e material previamente planeado para montar as estações de rádio que correspondiam à primeira fase de instalação do plano do Major Costa Paiva; as estações de Luanda, Malange, Nova Lisboa, Luso, Carmona, Tôto, S. António do Zaire, Cabinda, Dinge e Chiaca.
Este Destacamento, extraordinariamente bem concebido e estruturado sob a orientação do major Mário Leitão, partiu do UÍGE em conjunto com as primeiras forças de reforço que partiram para Angola, e que foram as primeiras quatro Companhias de Caçadores Especiais constituídas no País. O Destacamento do STM foi integrar-se no Batalhão de Engenharia constituindo a sua Companhia TSF.
O STM de Angola iniciou de pronto a instalação do seu sistema à base de equipamentos RCA, Marconi e Standard de 75 e 300 Watt, mas também incluiu a ligação à Metrópole, com um canal de serviço para a sua sede do STM no BT. Em breve, porém, esse canal de serviço, se transformou em ligação privilegiada para o normal encaminhamento do tráfego do Exército de Luanda para Lisboa.
Terminada a montagem da 1.ª fase para a qual fora previsto o seu material, o Capitão Pinto Correia tendo recebido na Companhia TSF, 160 AN/GRC-9, que haviam sido adquiridos pela Província como contrapartida de uma venda internacional de café, decidiu, dentro das suas possibilidades em pessoal, montar mais algumas estações com base nesses rádios e reforçar, as centrais existentes com material desse como equipamentos de emergência.
Em 1963 são conhecidas ligações radiotelefónicas e radiotelegráficas com Lisboa e, em 1964 é instalada em Luanda a rede telefónica automática do Comando-Chefe com os comandos subordinados.
Montagem dos Sistemas de Transmissões de Campanha em Angola
Em 15 de Março de 1961 eclodiu no Norte de Angola, o levantamento armado da UPA (União dos Povos de Angola) na sequência do levantamento de Fevereiro em Luanda de um movimento armado do MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) que atacou o quartel da Polícia móvel e a prisão de São Paulo.
Face a esses levantamentos iniciou-se a mobilização das Unidades de reforço que começaram a embarcar para Angola a meados de Abril, com um Comando de Sector e dois Batalhões de Caçadores, para, praticamente de 15 em 15 dias, e por vezes menos, desembarcar em Luanda um navio carregado de tropa, normalmente composta por dois Batalhões de Caçadores e Companhias de Cavalaria, Artilharia ou de Engenharia, tendo até Novembro chegado, ainda 2 Batalhões de Cavalaria.
A chegada das Unidades, apenas com o seu armamento individual e algum material pesado, incluindo viaturas, mas sem material de transmissões, constituiu um problema difícil de resolver, tendo valido, para as primeiras necessidades, os 160 AN/GRC-9 existentes em Angola.
A chegada de Unidades em catadupas e o seu envio para ocupar dispositivos distantes e sem o apoio, durante o percurso, por guarnições que não existiam ainda, sujeitas a emboscadas montadas e claramente preparadas, por quebras de segredo sobre os deslocamentos das colunas.
Nos postos administrativos do percurso, aos quais as colunas recorriam para, pelas suas redes rádio administrativas, equipadas com ZC1, fazerem chegar a Luanda dados, necessidades e dificuldades, forçaram a que se montasse um sistema de socorro por forma a tentar apoiá-las com a participação do sistema já existente do STM.
Já que se não podiam abrir as redes do STM ao tráfego dessas Unidades em movimento, procurou-se que as estações já instaladas do STM, à custa dos AN/GRC-9 de reserva e para emergência que lá tinham sido alocados, passassem a fazer escutas, umas às horas certas, outras às meias horas, em frequências e com indicativos de chamada previamente fixados, uma e um, por cada estação à escuta, para, após a devida autenticação, assim poderem encaminhar, pelo sistema do STM, o tráfego e os pedidos de socorro e emergências, durante os deslocamentos.
Às Unidades em deslocamento era fornecido um pequeno mapa com a localização das estações do STM e, para cada uma, o horário das escutas, a frequência em que a fariam e o indicativo de chamada.
À custa dos AN/GRC-9 sobrantes, dos 160 inicialmente disponíveis, procurou-se fazer dotações muito reduzidas às Unidades, solicitando-se para a Metrópole o envio urgente de mais material, o qual foi chegando em quantidades reduzidas.
Entretanto na Metrópole procurava-se afanosamente encontrar material para encaminhar para Angola, tendo já sido recebido muito material NATO e até material inglês, tal com P-21, P-19 e ZC-1.
Como resultado da experiência vivida no início da guerra de Angola, e principalmente por esta ter sido original, não havendo qualquer experiência anterior sobre este tipo de conflito, o Capitão Pereira Pinto escreveu em 1963 uns apontamentos policopiados, que designou por “Contribuição para o Estudo das Transmissões para a Guerra Subversiva” que foram entregues na Direcção da Arma de Transmissões para a sua apreciação e eventual difusão
Montagem de uma oficina de base no Depósito Geral de Material de Transmissões
Logo que se iniciaram os envios de tropas para o Ultramar, foi entendido que, em Lisboa, haveria que criar uma oficina de base para avaliar da operacionalidade do material a distribuir e servir de último escalão para recuperação do material incapacitado.
A montagem dessa oficina foi do encargo e orientação do major Mário Leitão e ficou instalada no DGMT em Linda-a-Velha, que, ao tempo, apenas tinha a valência de receber, armazenar, distribuir, abater e controlar as existências e cargas do material de Transmissões do Exército.
Procura de equipamentos adequados para àquele tipo de guerra
Logo que se iniciaram as operações e as Unidades foram sendo deslocadas para os seus dispositivos, se verificou que dos equipamentos transportados pelas tropas, ou enviado do Depósito Geral de Material de Transmissões, os únicos equipamentos que satisfaziam o emprego de tropas apeadas e em nomadização eram o AN/GRC-9, pela sua qualidade, potência e pela sua versatilidade de instalação, alimentação e transporte, mas tinha muito peso e não era operável a dorso, mas tinha muito pequeno alcance e com linha de vista.
Assim, solicitou-se à Direcção da Arma que fosse encontrado um equipamento operável a dorso e sem as limitações do PRC-10 e ainda um amplificador de potência para ligações em instalação fixa entre postos de Comando mais afastados.
Os amplificadores, que elevavam a potência para 50 Watt foram obtidos e fornecidos. Difícil era encontrar equipamentos para operações apeadas e operados a dorso.
Em consequência foi nomeada uma equipa técnica, constituída pelos tenente-coronéis Costa Paiva, na altura a chefiar a Repartição de Material da DATm e Spencer Vieira da Academia Militar, os quais percorreram o mercado e indústria europeia, tendo apenas encontrado um desenvolvimento, já na fase de teste de protótipo no Reino Unido, na firma British Communication Corportaion (BCC), cujas características condiziam com o que desejávamos.
Entretanto, porque tal equipamento não iria estar prontamente disponível, pois haveria ainda muitos testes e produção de pré-séries, a BCC propôs que se adquirisse um número limitado de equipamentos HF-156, desenvolvido e utilizado pelos ingleses em ambiente semelhante, na guerra subversiva do Quénia, conhecida pela Guerra dos Mau-Mau.
Este equipamento, muito pesado, mas operável a dorso, criava, todavia, um desequilíbrio considerável ao transportador, além de que, quando houvesse que saltar da viatura, a queda com ele às costas criar-lhe-ia problemas sérios. Tinha ainda um defeito nas baterias de chumbo, pois vertiam electrólito, pondo em perigo a sua operacionalidade.
Fez-se a distribuição e foram sendo utilizados com as limitações indicadas.
Entretanto, tendo sido feitos os testes de uma pré-série já muito avançada, com bons resultados, a equipa de técnicos foi de opinião que fosse adquirida a licença de fabrico em Portugal pela Standard Eléctrica, para haver garantia de que tal fabrico poderia ser acompanhado e, além disso, a fábrica estaria em Portugal para acompanhamento do seu comportamento e introdução de correcções e de ajustamentos.
Assim foi decidido e, então, foi solicitado à Standard Eléctrica que produzisse o equipamento tal como o do protótipo testado, ao qual foi dada a designação CHP-1 e teria uma potência de 2 Watt e, ainda, procurasse fazer uma amplificação de potência para 20 Watt, passível ainda de ser transportado e operável a dorso, ao qual se atribuiu a designação DHS-1.
Infelizmente estes equipamentos em que se tinham depositado tantas esperanças, vieram a revelar-se como um fracasso, mais pelo DHS-1 do que pelo CHP-1, apresentando, tal como o HF-156, a mesma falta de estanquicidade do electrólito.
Apesar destes defeitos, em 1970 em Moçambique foi com este material, alimentado em emergência por séries-paralelo de pilhas de 1,5 Volt, que se dotaram as sub-unidades da operação NÓ GORDIO, que foi a maior operação realizada em África pelo Exército português, por ainda não terem chegado a Moçambique os Racal TR-28 que vieram a resolver o problema das características desejáveis para equipamentos operados a dorso. E não se registaram problemas de falta de ligação.
Entretanto, ao longo da década, o Exército português foi adquirindo e dotou as suas unidades do Ultramar, com material de ligação terra-ar THC 736, posteriormente substituído por um equipamento idêntico construído também sob licença pela Standard Eléctrica, e que saiu muito bom, o AVP-1.
Adquiriu ainda equipamentos de 100 Watt, RF-301, Marconi H-4000, e também o RACAL TR-15L, IRET PRC-236 para montagem veiculares, etc.
Criação do Comando das Transmissões de Angola e do Batalhão de Transmissões 361
Em Novembro desse ano chegou um oficial superior, major Guilherme Castro Neves, para comandar as Transmissões, mais um Pelotão de Manutenção e Reabastecimento de Transmissões (PelManReab) e algum pessoal administrativo.
Com a Companhia TSF do Batalhão de Engenharia, mais o PelManReab e os outros elementos recém chegados, constituiu-se o Batalhão de Transmissões n.º 361 que se instalou na parte posterior do Batalhão de Engenharia, aproveitando-se daquele batalhão uma parte de um edifício para instalar o PelManReab, ocupando a metade posterior de dois edifícios de casernas do Depósito de Material de Guerra de Angola e apenas construindo dois edifícios, sendo um deles pré-fabricado de alumínio para o Comandante e outro, com cobertura em estrutura metálica, para refeitório cozinha e sala do soldado.
Este Batalhão, passou a constituir uma Unidade de Guarnição comandada pelo major Guilherme Castro Neves, que desempenhava no QG as funções de Comandante das Transmissões da Região Militar de Angola, mantinha-se permanentemente no Comando das Transmissões e delegava, para a conduta corrente da Unidade no seu segundo-Comandante, Capitão Pereira Pinto.
O Btm361, além de integrar o Destacamento do STM, passou a dispor de pessoal com que guarnecia equipas a destacar para satisfação de necessidades operacionais e, como Unidade de guarnição da Província, realizava escola de recrutas de radiotelegrafistas, de pessoal de TPF e de Centro de Mensagens.
Destacamento do STM para Moçambique e Guiné
Em 1961 foi preparado, como fora o destinado a Angola, o Destacamento do STM para Moçambique, que foi comandado pelo Capitão Manuel Adelino Pires Afonso o qual procedeu à montagem das suas redes já estudadas em Lisboa e da Estação de Lourenço Marques com centro receptor e centro emissor.
Em 1962 igualmente foi preparado e enviado o Destacamento do STM para a Guiné sob o comando do Capitão Amadeu Garcia dos Santos que, da mesma forma, instalou as estações previstas no estudo do Major Costa Paiva.
Logo que instalado em Bissau, o Destacamento estabeleceu uma rede rádio ligando o Comando Militar aos seus Sectores subordinados mais às ilhas de S. Vicente e do Sal e a rede telefónica de Bissau.
Em 1963 instala uma rede de feixes hertzianos ligando Bissau aos comandos subordinados.
Qualquer destes Destacamentos, tal como sucedera já com o de Angola, foram preparados com o maior cuidado e pormenor no BT pelo Major Mário Leitão, ao tempo sub Director do STM.
Todos estes Destacamentos do STM, mais o que posteriormente será enviado para Timor sob comando do Capitão Freitas Lopes, desempenharam, nas Províncias para onde foram enviados, como que as organizações pioneiras de Transmissões do Comando e, na maioria dos casos, como o terá sido o caso de Moçambique, durante algum tempo, e nos da Guiné e de Timor, constitui mesmo a base autónoma das Transmissões ao serviço dos respectivos comandos militares, apenas com o reforço de um Destacamento de Manutenção e Reabastecimento sob a direcção dos Comandos de Transmissões.
2-3 Acontecimentos e factos relevantes da década de 60 – A Consolidação
Subtemas: Actividades das Transmissões na Metrópole / Actividades de Guerra Electrónica / Evolução das Transmissões em Moçambique / Evolução das Transmissões na Guiné
Actividades das Transmissões na Metrópole
Regressado de uma comissão como comandante de Sector em Angola, foi colocado na Direcção da Arma de Transmissões, como inspector, o Brigadeiro Henrique Santos Paiva que, desde tenente de Engenharia estivera afastado das Transmissões.
Actuou como Inspector aos Centros de Instrução de Tm, da Engenharia e das outras Armas e, em 1965, rendeu o então General Sá Viana Rebelo que foi colocado como Vice-Chefe do EME.
O Brigadeiro Santos Paiva passou a desenvolver uma intensíssima actividade para dar corpo à Arma, nomeando equipas para estudar as orgânicas de cada Unidade que iriam constituir a Arma, a fim de, face às necessidades orgânicas, deduzir os quadros de efectivos a prever.
Pela primeira vez no Exército, se considerou que os oficiais oriundos de sargento deveriam continuar integrados na Arma constituindo um quadro técnico próprio.
Assim, os oficiais oriundos de sargentos das especialidades ligadas à exploração dos meios, constituem o quadro de Exploração, deixando, pois, como do antecedente (e continuou a ser na Engenharia), de passarem a pertencer ao Quadro dos Serviços Gerais do Exército.
Por outro lado, fez a luta, e conseguiu vencê-la, de recuperar para as Transmissões, os mecânicos radiomontadores e, bem assim, os oficiais oriundos dessa especialidade que estavam no Serviço de Material. Estes, com os mecânicos de material Telefónico e de Teleimpressor, passariam a constituir o Quadro de Manutenção da Arma de Transmissões.
Em Junho de 1965 criou o Depósito Geral do Material de Transmissões, (DL 46.374, 1965) com missões reajustadas e na dependência da Direcção da Arma de Transmissões, colocando lá, pela 1.ª vez, oficiais do quadro de engenheiros, quer no comando, quer nas suas divisões internas.
Criou o Regimento de Transmissões no Porto (OE 3, 1965) em substituição da anterior Regimento de Engenharia 2 no qual apenas havia organicamente um Batalhão de Transmissões, e nele integrou o BTm3, que continuava em Tancos, no Casal do Pote (OE 7, 1966) (3).
Conduziu com a CHERET um debate para clarificação das suas missões pois elas colidiam com as missões primárias da Arma de Transmissões no seu específico combate da Guerra Electrónica (GE) (AHM, 1/397/3/7, s.d.)
Actividades de Guerra Electrónica
Dentro desta linha, e para lançar mais fortemente as actividades de GE, a Direcção da Arma mandou a Anzio, para tirar um curso de GE, o Capitão Amadeu Garcia dos Santos, colocado no BT, já esta Unidade com funções de Escola Prática.
Posteriormente enviou o mesmo Capitão Garcia dos Santos estagiar numa unidade de GE belga, a 44.ª Companhia, estágio em que se integrava um exercício de 8 dias na Alemanha.
No regresso o capitão Garcia dos Santos propôs, e foi criado no BT, um Centro de Instrução de GE (CIGE), onde, com o auxílio de um excelente oficial miliciano lá existente, o Tenente Inácio, se promoveram cursos de preparação de oficiais, sargentos e praças para guarnecerem uma Unidade de GE, que efectivamente se veio a constituir como um Destacamento de escalão Companhia, sob o seu comando.
Também foram produzidos textos de grande qualidade para apoio da instrução.
Entretanto, o Capitão Garcia dos Santos foi propondo a aquisição de viaturas, materiais de instalação como grupos geradores, receptores e radiogoniómetros, os quais lhe foram obtidos e passou a utilizar os AN/GRC-38 de 500Watt, lá existentes por fazerem parte das ligações do corpo de Exército em manobras com a 3.ª Divisão, como empasteladores.
Passado pouco tempo foi realizado um exercício luso-espanhol de Postos de Comando (CPX), designado por EXERCÍCIO SALADO, onde o Destacamento de GE interveio com assinalável êxito.
Em 1967, o Brigadeiro Santos Paiva foi promovido a General e foi colocado como representante militar português na NATO, tendo sido substituído, na DATm pelo Brigadeiro Câncio Martins.
Evolução das Transmissões em Angola
O comandante das transmissões e do Batalhão, que era o Major Castro Neves foi rendido pelo Ten. Coronel Sales Grade que, por seu turno, foi substituído pelo Ten. Coronel Mário Pinto da Fonseca Leitão, o qual desenvolveu intensa actividade para melhorar, quer as instalações do Batalhão quer as ligações, tendo até lançado várias ligações do STM por feixes hertzianos monovia a partir de Luanda.
O Tem.Coronel Mário Leitão foi rendido pelo Ten.Coronel Ávila de Melo que, por sua vez, o foi pelo Ten.Coronel Reinas, que viria, depois de 1970, a ser substituído pelo Ten.Coronel Sanches da Gama para finalmente ser rendido pelo Coronel Pires Afonso, pois, o Batalhão de Transmissões 361, que fora criado em 1962, transformara-se entretanto no Agrupamento de Transmissões n.º 1.
Evolução das Transmissões em Moçambique
Enquanto em Angola, logo desde 1961, foi criado um Batalhão de Transmissões, em Moçambique, manteve-se como uma Companhia TSF do Batalhão de Engenharia sediado em Lourenço Marques.
Assim, o Capitão Pires Afonso foi rendido pelo Capitão Oliveira Simões, que viria a ser rendido pelo Capitão Pinto de Abreu que viria a ser, por sua vez, rendido, pelo Capitão Mateus da Silva.
Desde 1966 foi criado um Comando de Transmissões para o que foi nomeado o Ten. Coronel Aranda que foi transferido para a sede do Comando da Região Militar em Nampula, levando como adjunto o Major Sacadura Botte Corte Real e o Capitão Ferreira Correia.
Em 1968 foi nomeado o Ten. Coronel Ivan Serra e Costa como Comandante das Transmissões, tendo como adjunto o Major Francisco Pinto Correia e, o mesmo Comandante das Transmissões, acumularia funções com a de comandante de um Batalhão de Transmissões a organizar em Lourenço Marques a ser transferido para Nampula logo que lá completado o aquartelamento.
Para organizar o Batalhão, que seria designado por Batalhão de Transmissões n.º 2, foi mobilizado o Major Pereira Pinto, que efectivamente organizou o Batalhão à custa dos elementos presentes, nomeadamente os do Destacamento do STM, elementos destacados, e instalou-o em dependências do Batalhão de Engenharia de Lourenço Marques.
Para além das escolas de recrutas das especialidades de Transmissões da Província e das instruções de preparação operacional ao pessoal de transmissões das Unidades de qualquer Arma, que fizessem escala em Lourenço Marques, os quais iriam juntar-se às suas Unidades por transporte aéreo, o BTm2 desempenhava uma missão de apoio logístico de rectaguarda.
Por tal facto, em 1969, o 2.º comandante – no exercício efectivo de comando – foi recolhendo elementos de informação logística quer dos que corriam na cadeia logística de Transmissões de que o BTm2 fazia parte, quer pelo contacto que mantinha com os elementos das comissões liquidatárias de todas as Unidades e Comandos que permaneciam em Lourenço Marques largos meses depois das suas unidades terem regressado à Metrópole, reuniu num caderno de apontamentos tais elementos e formulou as suas propostas relativamente ao caso das Transmissões, designando-o por ”Contribuição para o Estudo da Logística das Transmissões para a Região Militar de Moçambique” que encaminhou para o Comando das Transmissões.
O Ten. Coronel Ivan Serra e Costa foi rendido em Maio de 1970 pelo Ten. Coronel João do Rio Carvalho Frazão no Comando das Transmissões, tendo o Major Garrido Batista como adjunto e o Major Francisco Oliveira Simões como Comando do BTm2 que, na altura, se encontrava em transferência para Nampula.
Evolução das Transmissões na Guiné
Na Guiné, para além do Destacamento do STM para lá enviado em 1962, só foi para lá mobilizado, para se integrar no Comando Militar, o Capitão Marques Esgalhado em 1963 e também um Destacamento de Manutenção e Reabastecimento sob a sua directa orientação. Todavia, o Destacamento do STM que tinha ainda responsabilidade das ligações a Cabo Verde e entre o arquipélago, não estava na dependência do Comando das Transmissões.
O Capitão Esgalhado foi substituído pelo Major Sanches da Gama e este pelo Major Pires Afonso.
Entretanto foi enviada para a Guiné uma Companhia Independente de Transmissões sob o Comando do Capitão Góis Ferreira e, só depois, à custa da reunião desses diferentes orgãos e unidades viria a ser criado, depois de 1970, o Agrupamento de Transmissões da Guiné, que veio a ser comandado pelo Major Oliveira Pinto e pelo Major Mateus da Silva.
A Guiné com a maior parte do território plano e as suas distâncias entre Unidades muito pequenas em linha recta, foi o local ideal para que os equipamentos de FM, os de baixa potência de AM e os feixes hertzianos pudessem ser empregues com êxito.
Assim foi possível fazer redes radiotelefónicas na Província, com uma antena muito elevada em Bissau, o que até permitia que, de um PRC-10 ou de um IRET montado num jipe no meio do mato e junto à Bolama, se falasse para a família na sua casa na Metrópole.
Poder-se-á, pois, dizer que na Guiné não surgiram dificuldades de transmissões comparáveis aos dos outros dois teatros de operações, mas terá sido aquele que mais prontamente foi dotado com material mais moderno e onde prontamente se substituíram os equipamentos que menos bem satisfaziam, indo tais equipamentos para Moçambique, como foi o caso dos CHP-1 e DHS.
2-4 Vultos relevantes na década de 60
Dentre os inúmeros elementos que realizaram magnífico trabalho em prol das Transmissões, e que vão sendo salientados ao longo da referência dos trabalhos que realizaram, há dois que merecem um relevo especial:
- Brigadeiro Henrique dos Santos Paiva, pela sua acção decisiva na criação e estruturação da Arma pela forma como conduziu os trabalhos que permitiram determinar os quadros de efectivos e, bem assim, a estrutura em quadros específicos bem como os critérios para o preenchimento das vagas que iriam surgir com a criação da Arma.
- Coronel Mário Pinto da Fonseca Leitão, importante referência das Transmissões pelo impulso que deu ao STM estruturando-o, equipando-o e lançando os seus sistemas de cobertura nacional fazendo a viragem tecnológica para umas transmissões modernas e evoluídas. Teve também importante acção nas Transmissões de campanha, quer comandando-as em Angola, quer, como chefe da Repartição de Material, dotando-as com excelentes equipamentos e promovendo a melhoria do respectivo apoio logístico.

BTm 361 cerca de 1966, Luanda

