Autor : 1.º Sargento Aman/ Radiotelegrafista Joaquim Martins Dias

Será que alguém sabe como se realizou o 1.º contacto entre o CTE do Exército/Lisboa e o BTm4/ONUMOZ?

Eu sou Radioamador desde outubro de 1975 e o meu indicativo de chamada português é CT4KO.

Eu e o Major Técnico de Manutenção de Transmissões Moura Pequeno (indicativo de chamada Português CT4RM), fizemos parte do Escalão Avançado do BTm4 (o famoso “Voo do Condor”), e ficamos instalados no Hotel Turismo, Maputo.

Cartão de Radioamador do Joaquim Martins Dias
BTm4/ONUMOZ, Moçambique

Primeiros Contactos e Contexto Operacional

Iniciamos as comunicações internas do BTm4 em 24 de abril de 1993, no 7,º andar do Hotel Rovuma, que servia de Quartel-General da United Nations Operations in Mozambique (ONUMOZ), tendo sido destacada uma equipa para Inhambane, junto de uma unidade do Uruguai, para testarmos e mantermos as comunicações entre as duas estações, até á chegada e instalação do BTm4.

Nesta altura, o serviço prestado pela Empresa Nacional de Telecomunicações de Moçambique era débil e para se conseguir uma chamada telefónica era débil, para se conseguir uma chamada telefónica, estávamos agarrados ao telefone 4 ou 5 horas, situação que causava imensos transtornos. Por isso, durante o tempo em que permaneci em Maputo, obtive as respetivas licenças de Rádio Amador, para mim (C91AI e C98AI) e para o Major Pequeno (C91AJ).

Montagem do Sistema “Rear Link” com um sistema de Radio Amador

Após a chegada do BTm4 a Moçambique e da instalação do Comando na Matola (cidade a cerca de 40 Km de Maputo), o escalão avançado que estava em Maputo, transferiu-se para as instalações do Batalhão, sendo então necessário estabelecer o contacto com o Regimento de Transmissões (RTm), unidade do Centro de Transmissões do Exército (CTE), em Lisboa.

Nesta altura, na minha humilde opinião, deparo-me com a maior lacuna da organização de uma operação desta envergadura, isto é, no levantamento do BTm4 não se lembraram de incluir no quadro orgânico de material várias antenas de alto ganho para longa distância, pelo menos uma para cada companhia; apenas existia a minha antena, tendo sido com ela que se realizou essa comunicação com o CTE (o quadro orgânico contemplava antenas dipolo G5RV).

Para o efeito, solicitei autorização ao Comandante do BTm4, o Tenente-Coronel de Transmissões (Eng.) Pinto de Castro, para montar o meu sistema de Rádio Amador na Shelter do Rear Link, ao lado do equipamento militar, tendo sido autorizada esta pretensão.

Montei então a minha antena direcional Explorer 14 e o meu equipamento rádio FT 890, dentro da referida Shelter; de seguida realizei uma chamada rádio na banda Amador para Portugal, tendo-me respondido um colega Radio Amador da Figueira da Foz. Pedi-lhe que ligasse ao Oficial de Dia do RTm, para que fosse ao CTE e sintonizasse o equipamento de ondas curtas (HF) na frequência 14.200 MHz atribuída aos Amadores.

Aguardei a chamada, via rádio, do operador do CTE e, quando estabelecemos o contacto, combinámos a frequência do espectro onde passaríamos a trabalhar, tendo por mim sido escolhida a frequência 13.990 MHz por apresentar menor interferência naquele.

A partir dessa altura, as comunicações de voz diárias do BTm4 com o CTE, em Lisboa, passaram a ser feitas através da Shelter do Rear Link com o meu equipamento (antena e Rádio), permitindo também efetuar as chamadas telefónicas oficiais e particulares para Portugal estabelecendo a interligação do canal rádio com a rede telefónica militar e civil. Note-se que o equipamento de HF, 1.ª serie dos P/VRC 301, do BTm4, não reunia as condições necessárias para se integrar com o equipamento do CTE, efetuando chamadas telefónicas em HALF DUPLEX [1].

Por esta via foram, também, transmitidos/recebidos o tráfego de mensagens designadamente os Relatórios de Situação (SITREP’s) diários, via RATT (Radio Teletype), utilizando os Modem Philips e os teleimpressores electrónicos Siemens T1000Z,

Um mês depois, a pedido do Sargento-Ajudante Marques do BTm4, Chefe do Centro de Comunicações do QG da ONUMOZ, instalado no Hotel Rovuma, em Maputo, e autorizada pelo Tenente-Coronel Pinto Castro, a minha antena foi desmontada e instalada no referido QG onde era necessária uma antena de médio e longo alcance para efetuar as comunicações com os Centros de Comunicações das nossas subunidades em Nampula, na Beira e no Chimoio, tendo ali trabalhado quase 2 anos.

Cartão de Radioamador do Joaquim Martins Dias
Cooperação Técnico-Militar, Nacala, Moçambique

Alguns meses depois, foi implementado o sistema HALF DUPLEX na nova série de rádios militares P/VRC 301. A partir desse momento, o Rear Link do BTm4 passou a fazer uso da antena do contingente japonês, utilizada por eles apenas uma vez ao ano (no dia do Japão). Trata-se de uma antena logarítmica com 10 elementos, capaz de operar nas frequências de 10.000 a 30.000 MHz, permitindo comunicação eficiente com Centro de Comunicações do Exército e com o Depósito-Geral de Material de Transmissões, unidade responsável pela sustentação logística

No contexto do radioamadorismo, foram realizadas comunicações com diferentes partes do mundo, incluindo observadores destacados no Deserto do Saara. Durante o período em Moçambique (BTm4 e Cooperação Técnico-Militar, em Nacala), foram estabelecidas aproximadamente 40.000 conexões, envolvendo radioamadores provenientes de diversas regiões globais.

Joaquim Martins Dias

1º Sargento Aman/ Radiotelegrafista


” Indicativos Usados “


PORTUGAL:

  • CT4KO

MOÇAMBIQUE:

  • C91AI, MAPUTO
  • C98AI, BAZARUTO
  • C94AI, NACALA 1995/96

ANGOLA:

  • D2AI, 1997/98 (Destacamento Sanitário n.º 7/MONUA)

Outros cartões de Radioamador do Joaquim Martins Dias:


Bazaruto, Moçambique


CTM, Nacala, Moçambique


Dest. Sanitário nº 7, Angola


[1] É a caraterística de um sistema de comunicação que permite a transmissão de voz e dados em ambos os sentidos, mas não simultaneamente; em alternativa ao Half Duplex, utiliza duas frequências distintas, uma para emissão e a outra para receção.

Síntese Biográfica:


Primeiro-Sargento QA/radiotelegrafista, incorporado em 1970 e serviu em Moçambique na 32.ª Companhia de Comandos. Em 1976, no Regimento de Comandos foi operador rádio do Comandante, Major Jaime Neves, participou no 25 de Novembros e manteve-se como operador rádio do Comando durante 8 anos, acumulando as funções de instrutor da Especialidade de Transmissões. Serviu na Academia Militar durante 18 anos, chefiou na Sede a secção de transmissões, posteriormente, a chefia da secção de transmissões e transportes na Amadora. No BTm4, foi operador do Rear Link (Moçambique/Portugal), participou na Cooperação Técnica Militar em Nacala e na Operação MONUA em Angola, onde chefiou a Secção de Transmissões do Destacamento Sanitário 7.

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