
O contexto do ensino superior e da engenharia em 1959
Em 1959, a Engenharia era ainda considerada, em geral, um ramo científico menor quando comparada com as licenciaturas das Faculdades de Ciências. O Instituto Superior Técnico (IST) provinha do antigo Instituto Industrial e Comercial de Fontes Pereira de Melo e só adquirira estatuto universitário com as reformas de Duarte Pacheco. Passara então a integrar a Universidade Técnica de Lisboa, juntamente com o Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras e o Instituto Superior de Agronomia. A Universidade de Lisboa só viria a ser unificada muito mais tarde, com a extinção da Universidade Técnica.
O ensino superior militar mantinha uma ligação estreita à comunidade científica da Escola Politécnica e da Faculdade de Ciências. A Escola do Exército reorganizara recentemente o ensino das disciplinas de Matemática, Física e Química, antes ministradas nos cursos preparatórios das Faculdades de Ciências. Esta mudança constituiu um marco no ensino da engenharia militar, então dotado de maior reconhecimento científico do que o Técnico. Muitos professores catedráticos das Faculdades de Ciências eram oficiais de Engenharia.
A reorganização do ensino militar e a nova Arma de Transmissões
A Escola do Exército fora reorganizada segundo um modelo de ensino superior que previa licenciaturas de quatro anos para as Armas e cursos de Engenharia com sete anos. Nestes últimos, os primeiros quatro anos eram frequentados na Academia Militar — nova designação da Escola do Exército a partir de 1959 — e incluíam os preparatórios do Técnico. Seguiam-se três anos de Engenharia Electrotécnica no IST, em regime idêntico ao dos cursos civis.
A Portaria n.º 17 894, de 10 de agosto de 1960, reconhecia que as exigências da nova Arma de Transmissões justificavam o aproveitamento do curso de Engenharia Electrotécnica Militar para proporcionar aos futuros oficiais uma preparação técnica “mais profunda”, em resposta à crescente complexidade das Transmissões.
Esta decisão coincidia com o contexto militar da época.
A Academia Militar acabara de ser criada, em 1959, em substituição da Escola do Exército. O novo sistema passou a formar, entre outros, engenheiros electrotécnicos militares destinados à Arma de Transmissões. À semelhança das restantes especialidades de Engenharia Militar, os primeiros quatro anos decorriam na Academia e os restantes no IST. Procurava-se, assim, assegurar uma formação mais exigente aos engenheiros militares, em particular aos da Arma de Transmissões, que iriam operar em áreas tecnologicamente mais avançadas. A organização da nova Escola refletia, no contexto do país e da Defesa Nacional, uma clara procura de qualidade.
O meu percurso na Academia Militar
Em 1959, entrei para a Academia Militar com o objetivo de estudar Engenharia Electrotécnica, na área das correntes fracas, para a Força Aérea. Previam-se então desenvolvimentos importantes nos radares, nas interligações por micro-ondas e em novos sistemas de avionics.
No final do primeiro ano geral, escolhíamos o percurso a seguir: as Armas, a Força Aérea — para pilotos — ou o Curso Geral de Engenharia, que dava acesso às várias especialidades, incluindo as da Força Aérea.
Terminei o primeiro ano como terceiro classificado da Academia Militar e escolhi, sem dificuldade, o segundo ano geral de Engenharia.
Quando terminei o segundo ano geral de Engenharia, tinha de escolher a especialidade e contava ingressar no referido curso para a Força Aérea. Contudo, aconteceu algo inesperado: estávamos em 1961 e a guerra em Angola tinha começado. Nesse ano, não abriram vagas para a Força Aérea. Restava-me escolher Engenharia Electrotécnica no Serviço de Material ou na nova Arma de Transmissões, então em criação.
As opções: Serviço de Material ou Transmissões
O Serviço de Material era muito recente e abrangia as fábricas militares, os depósitos de material e a prestigiada Escola Electromecânica de Paço de Arcos, em associação com a Força Aérea. Até 1956, fora um serviço da Arma de Artilharia, onde existira uma especialidade de artilharia ligeira. A complexidade do armamento transportável exigia aos respetivos oficiais uma formação muito próxima da Engenharia Militar e com a mesma duração.
Esses oficiais de artilharia ligeira eram depois destacados para as fábricas militares, onde se especializavam como engenheiros industriais, embora não fossem reconhecidos pela Ordem dos Engenheiros. A cultura corporativa do Estado Novo discriminava estes técnicos industriais qualificados, tal como sucedia com os agentes técnicos, classes profissionais que incluíam pessoas de elevada competência.
Já tinha ponderado sair da Academia Militar, mas essa possibilidade não existia. A guerra em África aumentara a necessidade de oficiais e, a partir de 1961, o número de candidatos à Academia Militar reduziu-se drasticamente. Além disso, o nosso estatuto legal de voluntários para o Exército determinava que só poderíamos sair depois de cumprir o serviço militar obrigatório, incluindo uma comissão de dois anos no Ultramar.
Perante as perspetivas de desenvolvimento que as exigências do curso faziam antever, escolhi a Arma de Transmissões. Passei, assim, para o terceiro ano da Academia Militar, já nas instalações da Gomes Freire, integrado no primeiro curso dos célebres “14 magníficos”.
Engenharia, prestígio e exigência académica
Na escolha da especialidade, havia uma preferência clara pela Arma de Engenharia, isto é, pela formação em engenharia de construção civil. Tratava-se de uma corporação prestigiada, com créditos acumulados ao longo de muitos anos, ligada à formação da Faculdade de Ciências de Lisboa e muito respeitada pela comunidade científica da época.
A Engenharia Electrotécnica, em particular na área das correntes fracas, era uma novidade associada às novas tecnologias da eletrónica e das comunicações. Era também o curso mais difícil do Técnico: ao contrário das outras especialidades, mantinha disciplinas de natureza muito científica até ao sexto ano, o que provocava reprovações já no final do curso.
Por isso, os alunos com classificações mais elevadas da incorporação de 1959 escolheram a Arma de Engenharia e figuravam entre os melhores estudantes do Técnico. Já na Engenharia Electrotécnica havia um conjunto significativo de alunos com classificações inferiores.
Assim se compreende que, em 1966, apenas cinco dos catorze tenham concluído o sexto ano do IST. Sete terminaram no ano seguinte e dois acabaram por não ingressar na Arma de Transmissões, abandonando o Exército. Um oportuno post do Major-General Bento Soares — “Criação do Curso de Transmissões na Academia Militar” —, um dos cinco acima referidos, relata em detalhe todo o processo de iniciação dos engenheiros electrotécnicos na Arma de Transmissões.
O quarto ano e a formação dos “14 magníficos”
Antes da passagem para o Técnico ocorreu outro facto que considero relevante na formação dos “14 magníficos”, o primeiro curso de engenheiros electrotécnicos da futura Arma de Transmissões. Com o desenrolar da guerra colonial, aumentou a necessidade de oficiais e os cursos das Armas foram reduzidos a três anos.
Quando terminámos o terceiro ano da Academia Militar, faltavam-nos ainda três disciplinas dos preparatórios de Engenharia:
- Cálculo Numérico Mecânico e Gráfico, semestral;
- Probabilidades, Erros e Estatística, semestral;
- Sociologia, anual.
O plano de estudos incluía ainda várias disciplinas de natureza militar, comuns a todas as Armas, que não chegaram a funcionar por falta de alunos. Na componente militar existia uma disciplina anual especializada em material de transmissões, que complementava uma disciplina de telecomunicações já lecionada no terceiro ano. Ambas se somavam ao plano dos preparatórios do Técnico, mas não eram suficientes para preencher a carga letiva do quarto ano.
Neste contexto, a Academia Militar teve de ocupar os tempos letivos com outras atividades. O curso de Transmissões recebeu, por isso, um número significativo de aulas de equitação e de aplicação militar. As Transmissões eram uma atividade nova, a Arma encontrava-se em constituição e não foi possível encontrar uma alternativa mais adequada às necessidades da formação.
Os “14 magníficos” tornaram-se bem conhecidos na Academia Militar. Eram um grupo de cadetes bem-dispostos, que circulava pelas instalações da Gomes Freire, normalmente de bota alta ou fato de combate. Essa vivência foi, sem dúvida, um forte fator de união e deixou marcas para o resto das nossas vidas.
Terá também marcado o início da nossa Arma, deixando tradições e contributos, incluindo sugestões no domínio da heráldica e o cerimonial de passagem de testemunho ao curso seguinte, que ainda hoje se realiza no chamado “Jantar do Bastão”.
Reflexão final
Passaram 60 anos. As Forças Armadas, e o Exército em particular, não foram bem tratadas pelos novos poderes instituídos. A guerra colonial e o período posterior ao 25 de Abril deixaram marcas que se vão apagando. Está na hora de reafirmar o prestígio e o respeito de que o Exército sempre beneficiou.
A Engenharia Militar foi sempre prestigiada no meio civil. As Transmissões constituem, afinal, um ramo especializado dessa Engenharia, nascido da evolução tecnológica e das necessidades da sociedade moderna.
