Autor : Aluno n,º 200 (AM-IST 59/66)
Major General João Afonso Bento Soares

Tradições e Heráldica para a nova Arma de Transmissões

Os 14 cadetes que, na Academia Militar (Gomes Freire), integraram o primeiro Curso de Transmissões viriam a tornar-se, como referido na 1.ª parte, os primeiros oficiais engenheiros eletrotécnicos da futura Arma de Transmissões. Contudo, a Arma ainda não estava oficialmente criada e permaneciam por definir vários aspetos essenciais, nomeadamente os de natureza heráldica.

Emblema e carcelas

Quanto ao emblema, mais tarde conhecido como «aranhiço», foi-nos apresentada uma proposta baseada numa «estrela de Estado-Maior com raios». O curso pioneiro conseguiu, porém, que fosse adotado o castelo com raios, em reconhecimento da origem da nova Arma na Engenharia.

Foi igualmente necessário definir as carcelas a usar nas golas do Uniforme n.º 1 — então com o dólmen fechado — por ocasião da promoção a alferes-alunos, no ano letivo de 1963/64, e da subsequente ida para o Instituto Superior Técnico (IST). Elaborámos o respetivo desenho, que foi aprovado e pode ver-se na minha foto acima. O modelo tinha de ser distinto de todos os já existentes para as restantes Armas, Serviços e para o Corpo de Estado-Maior.

A Passagem de Testemunho e o Bastão

Num contexto de afirmação e criação de tradições, os alunos do curso pioneiro, durante o 4.º ano e antes de seguirem como oficiais-alunos para o IST, idealizaram um cerimonial de Passagem de Testemunho ao curso seguinte, culminando num convívio gastronómico. O testemunho ganhou forma num BASTÃO, fabricado nas oficinas da Academia Militar, em Gomes Freire, e entregue ao chefe do curso seguinte. Durante a cerimónia, cada novo aluno recebia do padrinho a aranha — o emblema —, cabendo esse papel ao cadete com o mesmo número de curso, com as adaptações necessárias quando os cursos não tinham igual número de alunos

O Bastão era oco e continha um papiro enrolado com as assinaturas dos 14 alunos do primeiro curso, consagrando simbolicamente a passagem de testemunho.

Este genuíno Cerimonial da Passagem de Testemunho terá evoluído para os atuais e agradáveis Jantares de Curso, denominados «Jantar do Bastão». Em determinado momento, porém, alguém passou a designá-los por «Jantar do Cetro». Essa alteração não deve ser acolhida: além de adulterar o nome original, constitui uma incorreção semântica. Embora o cetro seja um tipo de bastão, é um símbolo específico da realeza, a par da coroa e do manto. Já o bastão pertence especificamente à tradição militar, como demonstra, por exemplo, o Bastão de Marechal.

No “Jantar do Bastão” de 2003, que se concretizou sob a forma de “Almoço” a 13DEZ2003 na EPT, então sita na cidade do Porto, pedi a palavra na altura das alocuções e fiz uma breve resenha do que ora deixo dito, terminando os meus dizeres com o Soneto “O Bastão” (que pedi fosse anexado ao Livro de Actas) e que, a seguir, transcrevo:

O BASTÃO

Aluno nº 200 (AM-IST 59/66)

Gomes Freire, 4.º Ano – Transmissões
Já os vejo findando a Academia…
São catorze, não faltam ilusões
Na construção da Arma dia a dia.

Cedo intentaram inventar o Grito
Tornado paradigma da missão;
Implantaram seus nomes por escrito
Em papiro contido num Bastão,

Que é simples, de formato original:
Visava ser prova testemunhal
A outorgar à nova geração.

Por isso aquele que na mão o tome
Não curará de lhe alterar o nome
Porque haverá de honrar a tradição.

Também mais Também, mais tarde, se ensaiou um “Grito” para a Arma, em que o Cruz Fernande (do curso seguinte ao nosso) foi o autor, conforme relata no seu artigo “Como nasceu o Grito da Arma de Transmissões” publicado no nosso website.

O processo da criação da Divisa a adoptar no Brasão da Arma de TM, foi trabalhado bastante mais tarde na DAT, tendo sido solicitadas sugestões às Unidades e órgãos de Tm do Continente e do Ultramar, através da sua Nota nº 8123 de 12OUT1968. As sugestões recebidas das Unidades e de alguns oficiais colocados na DAT foram as abaixo indicadas:


Do Comando de Transmissões da Guiné (onde então me encontrava colocado, chefiando o Destacamento do STM):

• Para a Ligação Sempre Prontos
• Por Montes e Vales Nunca Antes Ultrapassados
• Não Haverá Obstáculo que Impeça a Ligação
• Ligar Para Comandar
• Nossa Missão é a Ligação
• Todos Ligaremos Para a Victória
• Para Quem São Pequenos Campo e Monte
• Invisíveis, Mas Sempre Presentes

Do Comando de Transmissões de Angola:

• Super Et Ubique
• Primus Inter Pares

De Oficiais da Direcção da Arma de Transmissões

Ten. Santa Rita:

• Ad Futuram Memoriam Et Probationem
• De Potentia Ad Actum
• Ego Sum Qui Sum
• Que Vos Sustenta e Nos Espaços Guia
• O Pensamento Que Transcende o Espaço
• Só Por Puro Engenho e Por Ciência (Lusíadas v. 17)
• Honor Et Sapientia

Ten. Marques:

• Mais Depressa, Melhor e Mais Além
• Longe, Rápido e Melhor
• Mais Longe, Mais Depressa e Melhor
• Unidos Pelo Éter
• Rápidos, Perfeitos, Seguros
• Ondas do Mar, Pégasos dos Homens
• Fazendo do Longe Perto, Lutaremos
• Quando, Como e Onde Necessários
• Todos Por Nós Unidos
• Ligando Terra, Mar e Ar
• Se Mais Longe Fora, Lá Chegáramos
• Unindo Lutaremos

Alferes Alfredo Reyes:

• Rapidez – Fidelidade – Segurança

Ten. Hamilton Alexandre:

• Segurança – Rapidez – Discrição

Cor. Galvão:

• Pelo Comando e Pelas Tropas
• Pela Vitória do Comando ou Pelo Sucesso do Comando
• Pela Ligação A Victória ou Victória Pela Ligação
• Ligação Segura, Victória Certa
• Pela Victória das Armas
• Construindo o Sucesso ou A Chave do Sucesso
• Os Elos da Victória
• Crente do Seu Valor ou Ciente do Seu Valor
• A Ligação Trabalha Pela Victória ou Fomentando a Victória
• Ligação Segura, Comando Victorioso
• Serve o Comando Pelo Combate e Pela Ligação
• Combate o Inimigo e Serve o Comando
• No Combate e na Ligação
• Pela Arma e Pelo Serviço

Inspirado ou não em alguma das sugestões recebidas, o Director da Arma de Transmissões comunicou ao Gabinete de Heráldica do Exército, pela Nota n.º 9216 de 2DEZ1968, a decisão relativamente à Divisa a ser adoptada para o Brasão da Arma de Transmissões:

“POR ENGENHO E CIÊNCIA”

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