Contribuição para a Elaboração da História das Transmissões Militares em Portugal.

Unidades e Órgãos de Transmissões/ Órgãos de Transmissões Permanentes e Sistemas de Transmissões instalados / Transmissões de Campanha e seu emprego em Exercício e Manobras: Pessoal, Material e Logística / Vultos relevantes

Unidades e Órgãos de Transmissões

Todas as Unidades e Órgãos com missões ligadas às Transmissões, pertenciam à Arma de Engenharia. As Unidades de Transmissões existentes eram as seguintes:

  • Batalhão de Telegrafistas (BT), situado no quartel dos Quatro Caminhos em Lisboa, desde 1937. (DL 28.401, 1937)
  • Um Batalhão de Transmissões integrado no Regimento de Engenharia 2 em Lisboa, no quartel da Pontinha desde 1947 (OE, 1947)
  • Um Batalhão de Transmissões integrado no Regimento de Engenharia 1 no Porto no quartel de S. Braz desde 1947. (idem)
  • Um Batalhão de Transmissões integrado na Escola Práctica de Engenharia (EPE) desde 1947. (idem)

A Unidade com o encargo de ministrar os cursos e estágios de Transmissões aos quadros da Arma de Engenharia e de formar os quadros de complemento de Tm passara a ser a EPE a partir de 1946, data em que foi extinta a Escola de Transmissões, inicialmente no quartel da Penha de França, e sucessivamente na Ajuda, no Pavilhão de Exposições do Parque Eduardo VII, e finalmente por alguns meses, no próprio BT.

O Órgão com o encargo de armazenamento e fornecimento do material TM era a 2.ª Secção do Depósito Geral de Engenharia, situada em Linda-a-Velha no quartel do Carrascal desde 1947. (OE, 1947)

Órgão de Transmissões Permanente e Sistemas de Transmissões instalados

As Transmissões de carácter permanente eram da responsabilidade do Serviço Telegráfico Militar o qual, desde 9 de Janeiro de 1901, passara para a Arma de Engenharia, ficara a cargo da Companhia de Telegrafistas de Praça sediada no quartel dos Quatro Caminhos e na dependência directa do Inspecção dos Telégrafos Militares, por seu turno dependente da Direcção Geral do Serviço de Engenharia. (OE, 1901)

A Companhia de Telegrafistas de Praça, deu origem a um Regimento de Transmissões que veio a ser substituído pelo Batalhão de Telegrafistas em 1937, o qual manteve, sob sua responsabilidade, aquele Serviço.

Sistemas de Transmissões instalados

Havia uma rede telefónica aérea em fio de cobre instalada em Lisboa ligando o Estado Maior do Exército, o Ministério do Exército, o Quartel-General e todas as Unidades da guarnição de Lisboa.

Havia ainda redes internas nos Quartéis-Generais e Unidades das Regiões Militares operadas por pessoal do Serviço Telegráfico Militar.

Havia em cada QG e Comando de Unidade, uma estação rádio a trabalhar em grafia articuladas em redes cujas estações directoras se situavam no BT e no quartel da Ajuda. As guarnições, quer as das estações rádio, quer, quando era o caso, das centrais telefónicas, eram chefiadas por um sargento radiotelegrafista e pertenciam ao Serviço Telegráfico Militar.

Transmissões de Campanha e emprego em exercício e manobras

O pessoal de Transmissões pertencia todos à Arma de Engenharia. Os oficiais do quadro permanente eram oficiais da Arma de Engenharia que, como todos os restantes oficiais da Arma, após terem recebido na Escola do Exército, formação técnica como engenheiros civis e uma limitada formação sobre telecomunicações e electrónica, eram, na EPE, colocados no tirocínio e em funções de transmissões, para satisfação das necessidades previstas pela DAE ou porque manifestaram desejo de se orientarem para tais actividades.

Contudo, tal orientação não era vinculativa, pois, de acordo com ulteriores necessidades de colocação de pessoal, ou por virtude de mobilizações para o Ultramar, os mesmos oficiais poderiam transitar para outras actividades ligadas a especializações da Arma de Engenharia, tais como Pontoneiros, Sapadores, Mineiros, Caminhos de Ferro, Obras (como engenheiros civis), etc.

Os sargentos do Quadro Permanente provinham da carreira ascensional, desde praças, mas esses, sim, enquanto sargentos, sempre ligados às transmissões e, até, à sua especialidade para que haviam sido preparados como praças.

Todavia, mesmo esses, quando concorriam para o seu acesso a oficiais, deixavam de estar ligados às transmissões e passavam a desempenhar funções burocráticas em qualquer Organismo ou Unidade de qualquer Arma ou Serviço, como oficiais do Quadro dos Serviços Auxiliares do Exército (QSAE).

As praças e o pessoal do Quadro de Complemento adquiriam uma especialidade na recruta ou curso de formação, e essas especialidades eram de facto vinculativas.

O pessoal radio montador pertencia igualmente à Arma de Engenharia, era formado, inicialmente na Escola de Transmissões e depois na Escola Práctica de Engenharia.

Em novembro de 1948, na sequência de um Decreto-Lei, o Instituto dos Pupilos do Exército alterou o plano de estudos passando a formar técnicos e onde passaram a ser preparados radio montadores altamente qualificados e com uma cultura geral equivalente ao 2.º ciclo dos liceus, embora sem que tal equivalência lhes viesse a ser garantida no seu currículo. (DL 37.136, 1948)

Estes mecânicos radio montadores, que foram prejudicados em relação às suas perspetivas, legítimas de virem a ser engenheiros-técnicos, com que haviam entrado para os Pupilos, constituíram um escol de técnicos de alta valia de que beneficiaram as Transmissões, sem os quais dificilmente poderiam ter respondido ao desafio da criação, em tempo record, das Transmissões da Divisão NATO, e até a própria RTP que começava a instalar a sua rede de retransmissores pelo país, e para onde se orientaram alguns destes técnicos.

Esses técnicos foram preparados, no seu último ano de curso do Instituto Militar dos Pupilos do Exército com o Curso de Sargentos Milicianos e foram integrados, a partir de 1953 nas fileiras, como 2.º sargentos. Por felicidade houve concursos para 1.º sargento pouco depois, pelo que, alguns deles, foram promovidos com pouco mais de um ano a 1.º sargento.

Igualmente viriam na altura própria para guarnecerem e lançarem o funcionamento, como monitores, da Escola Militar Electromecânica que fora criada em 1952 e que viria a ser o fonte-manancial da formação dos radiomontadores do Exército e da Aeronáutica, mas, como consequência, e por passagem à disponibilidade das praças lá formadas, da técnica de radiomontagem em todo o País.

Material de Transmissões

Os equipamentos de transmissões existentes nas transmissões de caracter permanente, para além do que fora projectado e instalado pelo próprio pessoal do Serviço Telegráfico, e de algum material telefónico projectado e construído nas Oficinas Gerais de Material de Engenharia, era constituído por equipamentos fixos Marconi e RCA.

Material de campanha disponível, era eminentemente de procedência inglesa pelo que se refere a rádios, e alemão e sueco, quando de TPF.

Logística das Transmissões

Como já se referiu, o Órgão que geria, armazenava e fornecia material de transmissões era a 2.ª Secção do Depósito Geral de Material de Engenharia, instalada em Linda a Velha.

Pelo que se refere à manutenção, cada Unidade de Transmissões dispunha de uma oficina onde executava, para si própria e para unidades locais, até um 3.º escalão de manutenção. O 3.º escalão, em geral, e o 4.º escalão, seriam realizados pelas Oficinas Gerais de Material de Engenharia de Belém.

Vultos relevantes na década de 50

Dentre numerosos homens que se salientaram pela sua devoção às Transmissões, impõem-se salientar os seguintes:

  • Maj. Virgílio Ferreira Quaresma, mais tarde Comandante do Batalhão de Telegrafistas, que se notabilizou pelo projecto e montagem de equipamentos de rádio para as ligações às Unidades, tendo feito escola entre os radiomontadores do Serviço Telegráfico.
  • Ten. Coronéis João Alegria dos Santos Calado, Flávio dos Santos e Jorge Cesar Oom, todos mais tarde generais e Directores da Arma de Engenharia, o último dos quais professor da Politécnica e da Escola do Exército.
  • Ten. Luís da Câmara Pina, mais tarde General Chefe do Estado Maior do Exército, que escreveu, como sua tese para o Curso do Estado Maior, o livro “A TSF e as Transmissões” que constitui ainda hoje um notável documento técnico-táctico do início das Transmissões.
  • Maj. Brito Aranha que, para além de ter sido um militar de grande craveira, licenciou-se na Escola Politécnica de Paris e no Instituto Superior Técnico em electrotecnia, foi professor da Escola de Transmissões, da Escola do Exército e do Instituto Superior Técnico, e teve a abnegação e a humildade de escrever um livro destinado aos soldados e sargentes de Transmissões, para os auxiliar na sua preparação para os concursos, tendo a preocupação de não se limitar às matérias técnicas, mas também às matérias gerais como Topografia, escrituração etc., com o título de “Manual do Telegrafista da Praça”.