De todas as noites de Natal que passei, nenhuma se assemelha à de 1993, enquanto militar do BTm4, na Matola, em missão na ONUMOZ. É um Natal que recordo pela vivência única de vários sentimentos; – noite de calor, fardado, em missão fora do país, com a família militar e a sorte de ter comigo a esposa e o filho de 3 anos.

Aquela noite tornou-se num momento marcante de forte união entre os militares portugueses, pois a maioria estava longe de casa e da família. A consoada teve um toque especial, com uma refeição reforçada e, antes, as mensagens dos familiares de cada um dos militares que ficaram, por carta, telefone ou via radiotelefone (rear link com o TM).

O calor não faz esquecer a data que na nossa terra é de frio; mesmo assim, a saudade pesa. Na Matola, na semana que antecedeu o Natal, colocou-se a árvore decorada e iluminada, montou-se o presépio com figuras africanas talhadas em sândalo e pau preto por moçambicanos. Aos militares disponíveis foi incumbida a missão de ornamentarem o aquartelamento, improvisando decorações natalícias e iluminando as zonas de passagem com luzes coloridas.


O ambiente de festa no aquartelamento combatia a solidão. A maioria dos militares, por diversas contingências operacionais, não foram, como eu, passar o Natal com a família a Portugal. Também, como eu, houve militares que tiveram a felicidade de ter consigo os seus entes mais próximos, no meu caso, a esposa e o filho, que vieram expressamente de Portugal para passar o Natal a terras moçambicanas.

Só um número reduzido de militares regressou a Portugal para passar a quadra em família. Aos que ficaram, por mais que tentassem ocupar a mente com tarefas, era-lhes impossível não pensar nos seus em Portugal. Naquele dia estava reunida a família do BTm4, os militares que ficaram e alguns dos seus familiares próximos, os convidados dos contingentes militares e Staff da ONUMOZ, os da missão militar portuguesa em Moçambique, os portugueses residentes em Maputo, o pessoal da Embaixada Portuguesa e também alguns moçambicanos amigos.

A noite estava linda, a temperatura rondava os 23 graus. A lua cheia, ao ser vista de um determinado ângulo, coincidente com a estrela da árvore de Natal, assemelhava-se à estrela-guia que encaminhou os Reis Magos até ao local de nascimento de Jesus. Na “sala de visitas” do Batalhão, onde iria decorrer a refeição, juntam-se os convidados cavaqueando entre si, aguardando o inico das festividades. Do lado esquerdo, a mesa comprida compõe-se para servir de apoio à distribuição do jantar. As restantes mesas coletivas estão cobertas com toalhas brancas decoradas com enfeites, e já com os pratos, os talheres, o pão, o vinho e a água, preparadas para servir os comensais. Na cozinha prepara-se o tradicional “bacalhau com todos”, sob a orientação do 1º Sargento Pedro.

Na tenda destinada à despensa estão dispostos, em mesas, os tabuleiros ornamentados e decorados com frutas tropicais, bolos sortidos, bolo-rei, filhoses e também o camarão, o caranguejo, frangos e leitão assado.

Depois de terem desejado as Boas Festas aos seus familiares em Portugal, os militares sentam-se à volta da televisão vendo as notícias no telejornal da RTP Internacional, enquanto outros convivem no FMT Bar (“falta metical bar”) bebendo um aperitivo servido pelo Cabo Vilas Boas que, com garbo, ao jeito de um barista das séries americanas servia os seus clientes, arranjando sempre um tempo para dar duas palavras em voz rouca ao freguês; – Sr. Silva, a sua conta já atingiu o milhão!, avisando para o avultado rol.

O Nuno Stone, a nossa mascote, filho do 2º Comandante, o saudoso Major Joaquim Stone, passarinhava de um lado para o outro de volta da rapaziada. Na tenda dos jogos, sem preocupações, os Capitães Baleizão e Fangueiro, defrontam-se num jogo de matraquilhos. Os nossos vizinhos, os militares do contingente japonês, vão chegando para privar connosco a noite de Natal. O “quartel” tornava-se numa espécie de conferência internacional de convívio; – o mundo à volta da mesa de Natal, com vasta representação de nacionalidades: de Portugal, do Japão, de Moçambique, do Uruguai, da Argentina, do Brasil, entre outras nações.

O serviço foi reduzido ao mínimo para que todos os militares pudessem consoar de acordo com os respetivos turnos. Chegados à hora do inico da consoada, o Comandante TCor Pinto de Castro teceu algumas palavras de agradecimento aos convidados pela prestigiosa companhia que proporcionavam aos militares portugueses naquela quadra. O jantar lá se iniciou com as pessoas em fila, recolhendo, na mesa de apoio, o bacalhau, as batatas, o grão, as couves, e o ovo cozido, levando os comes para as respetivas mesas. Nesta azáfama do recolhe e leva, passou-se um episódio engraçado: quando a minha mulher poisou o prato e levantou-se para apanhar um guardanapo, uma criança com sensivelmente 2 anos, filho de um dos militares, vai direito ao prato e, de garfo em riste, espeta-o no ovo e, em três tempos, devora-o. A risada foi generalizada!


Após o jantar, as pessoas dirigiram-se ao terreiro junto ao presépio para, em pé, assistirem à tradicional Missa do Galo celebrada, pelo Coronel Vilela, capelão destacado pelo Exército para conforto e assistência espiritual dos militares, encaminhando a mensagem para aquele ato de que “Uma estrela brilha no horizonte”. Envergando os paramentos de cor branca, iniciou a celebração católica do nascimento de Jesus Cristo, em ambiente de alegria, com o cântico “Silent night, holy night”, interpretado a quatro vozes por militares do contingente japonês.

A Missa de Natal segue de acordo com o simbolismo específico da quadra. As leituras bíblicas relatam o nascimento de Jesus Cristo, em Belém, e servem para enquadrar a homilia no ambiente da missão com enfoque sobre a esperança na paz e da luz que o nascimento de Cristo traz ao mundo. A celebração da Eucaristia termina com a bênção solene de Natal, tendo os presentes entoado o cântico natalício “Noite Feliz”, distribuindo o capelão cumprimentos pelos presentes que seguiam para a área do refeitório para uma pequena ceia de convívio.


A ceia foi servida com as diversas iguarias recordando as mesas fartas portuguesas: uma canjinha de frango, mariscos (camarão e sapateira), leitão e frango assado, diversas frutas tropicais e doces. No final da refeição, para surpresa de todos, o Comando do Batalhão distribuiu prendas pelos filhos dos militares que estavam presentes. Posteriormente, alguns dos militares dirigidos pelo saudoso Cravinho entoaram músicas tradicionais de Natal e cânticos alentejanos; “Eu ouvi um passarinho”, “Castelo de Beja” e “Vamos lá saindo”, animando musicalmente o convívio.

O Natal de 1993 foi passado de forma muito peculiar. Hoje, em 2025, ainda o relembro, ocupando a memória com tudo aquilo que a distância tentou silenciar naquele ano e que, com o passar do tempo, não se esquece; nomeadamente a amizade e a camaradagem fraterna dos militares do BTm4 em missão na ONUMOZ.

4 comentários em “Natal de 1993 na Matola. Entre o Calor de África e a Saudade da Família

  1. Morais (Chefe dos bobys), Obrigado pela partilha. Só ficou por contar o episódio da árvore de Natal que antes era uma bananeira, que foi trocada por um pinheiro e que voltou a ser uma bananeira já em Janeiro de 1994 com o forte empenho do SChf Sousa e do seu adjunto que tratava dos jardins e da palha dos telhados (do qual já não me lembro do nome).
    Um abraço

    1. Meu caro Baleizão (Chefe dos Curandeiros, vulgarmente conhecidos radiomontadores);
      Esse episódio que relata não me lembrei dele. Efetivamente, o objetivo destes textos é fazer recordar as nossas vivências e, posteriormente, acrescentarmos mais alguma informação. Os episódios da vida são dinâmicos e depende do ponto de vista e das vivências de cada um Já dizia o povo e com razão “quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”.
      Um abraço de amizade

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