Autor : Tenente-Coronel de Transmissões (Eng.) Pedro Monteiro Fernandes
Chefe do Departamento de Ciberdefesa e Segurança da Informação

O desenvolvimento do projeto relativo à capacidade de Ciberdefesa Tática do Exército (CD-DEPLOY – Deployable Cyber Defence, como definido no NATO Capability Codes and Capability Statements) para o escalão Brigada, que se encontra em curso com um horizonte temporal até 2026, apresenta vários desafios e opções. Esses requerem uma ampla reflexão que sustente uma melhor tomada de decisão, no que concerne ao modelo final a seguir.

Módulo Tático de Ciberdefesa

Em primeiro lugar importa frisar que este projeto se insere no Sistema de Informação e Comunicações Tático (SIC-T), e materializa a criação de um novo módulo, o qual se designou por Nó de Ciberdefesa (CyN). À semelhança dos restantes módulos SIC-T, o CyN será constituído por uma viatura com shelter. Esta integrará capacidades que permitam desenvolver operações de ciberdefesa sendo operada por pessoal com competências muito específicas com o objetivo de garantir a proteção do ciberespaço criado pelo SIC-T.

Deve ser garantido um perfeito alinhamento do desenvolvimento do módulo CyN com o restante projeto em que se insere, tendo, para atingir este objetivo, sido incluídos na equipa de projeto CD-DEPLOY militares da equipa do projeto SIC-T. A aquisição das duas shelter, já em curso, será efetuada por intermédio da NSPA – NATO Support and Procurement Agency.

Para reduzir a complexidade do CyN foi assumido em termos de conceito de emprego deste será sempre co-localizado com um Nó de Acesso (AN) no apoio a uma brigada, ou com um Centro de Comunicações de Batalhão ou Companhia (BCC ou CCC) se necessário no apoio a escalões inferiores. Nesta vertente, importa, pois, definir doutrina de emprego, que este módulo se levantando desde logo a questão da sua dependência orgânica.

O atual Módulo Tático CIRC – Computer Incident Response Capability (ModTatCIRC) orgânico do Batalhão de Transmissões, mas aprontado pela Direção de Comunicações e Sistemas de Informação (DCSI) em Lisboa. Este deverá ser transformado numa nova subunidade: o Módulo Tático de Ciberdefesa (ModTatCiber). Seguindo o racional de concentrar no Regimento de Transmissões (RTm) no Porto toda a componente Tática das Transmissões, esse Módulo deverá passar a encargo operacional do RTm.

Se em termos do vetor de desenvolvimento “Material” essa deslocalização parece não acarretar dificuldades acrescidas, já em termos de pessoal implica necessariamente maiores desafios, uma vez que a capacidade de Ciberdefesa tem vindo a ser edificada em Lisboa. Aliás, o atual ModTatCIRC é mantido à custa do atual Departamento de Ciberdefesa e Segurança da Informação da DCSI que garante, simultaneamente, o funcionamento do Núcleo CIRC do Exército, unidade do Sistema de Forças dedicada à ciberdefesa da componente fixa dos sistemas do Exército, isto é, do Sistema de Informação e Comunicações Operacional (SIC-Op). Nesse sentido será necessário dotar o RTm com militares qualificados na área da Ciberdefesa, recursos estes que são cada vez mais escassos no Exército.

Por outro lado, sendo a Ciberdefesa uma capacidade conjunta torna-se necessário garantir que este módulo esteja perfeitamente integrado quer em termos tecnológicos quer em termos doutrinários com o funcionamento do Comando de Operações de Ciberdefesa. A solução tecnológica que venha a ser adquirida para o CD-DEPLOY tem de ser perfeitamente integrável com as ferramentas em uso no restante universo da defesa.

Tendo em mente a tipologia das Operações no Ciberespaço (OpsCiber), conforme plasmada na publicação de doutrina militar conjunta aprovada recentemente (PDMC 3.20) não pode haver dúvidas sobre o que deve ser a capacidade CD-DEPLOY no Exército, por forma a evitar possíveis constrangimentos futuros.

Assim, este projeto pretende focar-se nos sistemas próprios das Forças Terrestres em Operações (o SIC-T), abrangendo essencialmente a condução de Medidas Defensivas Internas. Contudo, deverá estar preparado para conseguir desencadear algumas Ações de Resposta que permitam a continuidade das operações.

Operações no Ciberespaço

Realça-se, no entanto, que a capacidade de Informações, Vigilância e Reconhecimento no Ciberespaço terá de ser obtida por outros meios não estando nos objetivos do CD DEPLOY.

Em síntese, pode afirmar-se que são muitos os desafios com que se depara o desenvolvimento deste projeto, sendo que só uma visão holística abarcando eficazmente todos os vetores de desenvolvimento da capacidade, bem como a definição clara das prioridades poderá levar a bom porto este desiderato.

Fonte: A Mensagem, Boletim Informativo do Regimento de Transmissões, Ed. 2023, Porto

Síntese Biográfica do Autor


Oficial Eng.º de Transmissões. Concluiu, em 2006, a licenciatura em Engenharia Eletrotécnica Militar. Desempenhou funções: na Companhia de Transmissões da Brigada de Reacção Rápida, oficial de transmissões na Zona Militar da Madeira e Comando Operacional da Madeira. Participou nas Missões NATO na Força de Reacção Rápida da ISAF no Afeganistão em 2007/2008 e na Reserva Táctica do Comando da KFOR no Kosovo em 2010. Exerceu as funções de Chefe da Repartição de Guerra de Informação da Direção de Comunicações e Informação do Exército e actualmente é o Chefe da Repartição de Comunicações e Sistemas de Informação do Comando das Forças Terrestres.

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