
Autor : Capitão Tm (Eng.) João Félix
Técnico de Sistemas na Equipa Apoio em Engenharia para o Projeto SIC-T;
desde março de 2025 é o Chefe da Equipa
A Direção de Comunicações e Informação através da sua Equipa de Apoio em Engenharia do Projeto Sistema de Informação e Comunicações – Tático (EP SIC-T) participou no exercício Golfinho 23 que decorreu na Zona Militar da Madeira, (ZMM).
Numa situação de catástrofe ou acidente grave, pode ser necessário o apoio do Exército no âmbito do Apoio Militar de Emergência, assim como no apoio de tarefas e ações no âmbito da proteção civil. Este exercício teve como finalidade testar a capacidade do Comando da ZMM na vertente de Comando e Controlo (C2) no apoio de uma operação de resposta a catástrofe.
O objetivo principal das Transmissões neste exercício, foi demonstrar as reais capacidades dos seus equipamentos e sistemas em apoio de C2, nos vários cenários de catástrofe criados no decorrer do Exercício GOLFINHO 23, validando assim o conceito desenvolvido para a implementação do projeto da Lei de Programação Militar (LPM) “Defesa Imediata dos Arquipélagos”.

Figura 1 – Arquitetura Rede – Defesa Imediata dos Arquipélagos
O sistema da figura 1 é composto pelo ICC-401, da empresa EID, onde são ligados os equipamentos rádio, podendo estes ser analógicos ou digitais. Este intercomunicador foi conectado a um router/ switch que permite o acesso dos vários componentes dos sistemas de C2 aos rádios, assim como permite o acesso das várias tipologias de redes rádio intervenientes, interligando a componente operacional e tática, estendendo a capacidade de ambas.
Este projeto prevê a aquisição de meios idênticos aos do projeto de sistemas de combate do soldado (SCS), da componente C4I. Os meios rádios são o HR5000 (Rádio de Baixos Escalões – RBE) e o TWH 104 (Rádio Individual – RInd).
O Exército possui uma grande quantidade de equipamentos rádio da família PRC-425, com tecnologia da década de 80 do século passado, na ZMM. É principalmente com recurso a este tipo de rádio, que a ZMM desenvolve as suas ações e garante a capacidade de comunicações das suas forças para as missões que lhes estão atribuídas. De forma a rentabilizar os meios existentes foi desenhada uma solução que permite a interoperabilidade em fonia desta família de rádios analógicos com o RInd, RBE e P/PRC-525 (em modo seguro) rádios utilizados pelo Exército e que têm a capacidade de transmissão de dados em modo seguro.
Foi também integrado no ICC-401 o rádio Sepura SRG3900, utilizado pela SIRESP para a sua rede TETRA, interligando assim as capacidades da Proteção Civil com as capacidades que o Exército dispôs no terreno.
Os meios adquiridos no âmbito das aquisições para a capacidade do SCS permitem formar equipas. Estas equipas trabalham com uma topologia onde está presente um chefe de equipa equipado com Terminais de Dados Robustecidos (TDR), que tem instalado o Dismounted Soldier System (DSS), que é o software de C2 para baixos escalões em implementação no Exército.
Com recurso a estes meios, os seus utilizadores conseguem visualizar em tempo real as posições dos elementos da sua equipa, assim como os elementos das várias equipas que estiverem em operações naquele cenário. Com estes sistemas, o Exército consegue apoiar com militares projetados no terreno, mantendo uma Situational Awareness dos seus meios humanos assim como partilhar esta informação com as várias entidades intervenientes, ou que necessitam de ter acesso a esta informação.
Num mundo cada vez mais digital, a capacidade de fonia continua a ser um elemento primário e fundamental neste tipo de apoios. A possibilidade de interligar os vários tipos e tecnologias de meios rádio das entidades que concorrem para prestar apoio em situação de catástrofe, permitindo a integração de voz entre todas elas, com o acréscimo de ter disponível uma Situational Awareness através de visualização dos meios no terreno em sistema de C2, é uma mais valia essencial em apoios desta natureza.

Zonas de sombra SIRESP na ZMM
A ZMM tem algumas zonas sombra onde não existe cobertura de rede SIRESP, nem outro tipo de comunicações alternativas. Neste exercício foram simulados vários incidentes onde foi necessário o emprego da solução em cima descrita, de modo a estender a capacidade de comunicações até ao local onde era necessário.
Como exemplo, na Ponta de São Lourenço não é possível comunicar para o Regimento de Guarnição n.º3 (RG3) ou para a Unidade de Apoio da ZMM (UnAp/ZMM). Neste cenário, foi simulado um incidente neste local, Ponta de São Lourenço, onde, como já descrito, não existe cobertura de rede. Neste caso foi instalado uma cabina de comunicações modular (Shelter) com os meios integradores e várias redes rádio, num local com bom acesso a comunicações Militares e SIRESP, que fez a ponte entre as equipas que executaram as operações de resgate (simuladas), que possuíam meios de comunicações e C2.
Foi possível às entidades seguirem em tempo real a condução das tarefas necessárias durante a execução do resgate. No Centro de Operações Terrestres, instalado na UnAp/ZMM, assim como no RG3, foi possível visualizar o desenrolar de todos os acontecimentos através do Battefield Managment System (BMS), que recebia os dados do DSS das equipas, ao mesmo tempo que ouviram todas as comunicações efetuadas por fonia, utilizando os meios rádios ao dispor.
Conforme se pode ver na figura em baixo, foi utilizado um dos repetidores existentes da família do PRC-425 instalado na ZMM, no Pico do Areeiro.

Locais utilizados no exercício
O centro de operações foi operacionalizado na UnAp/ZMM e foi instalado na shelter (Ponta de São Lourenço) a solução integradora e os diversos rádios/antenas, na posição graficada na figura 3. Ligou-se um checkpoint com dados móveis (simulação de um terminal satélite), que permitiu a injeção de dados na Rede de Dados do Exército (RDE). Instalou-se um terminal com o BMS que permitiu a integração dos dados (posições GPS, mensagens, CHAT, etc.) com o BMS que se encontrava no Posto de Comando;
O RG3 teve acesso às comunicações voz via PRC-525 e/ou PRC-425, pois foram utilizadas comunicações em frequência fixa, devido ao repetidor utilizado. A UnAp acedeu às comunicações via rádio e dispunha de um computador com o BMS. Esta solução possibilitou o acesso das posições dos militares que se encontravam a prestar apoio na Ponta de São Lourenço. Todas as comunicações militares estavam integradas na rede SIRESP.

Visualização do BMS com a “Comon Operational Picture” (COP)
No decorrer do Exercício Golfinho23 existiram outros incidentes, onde havia “linha de vista” do ponto de vista rádio para o PC, ou seja, as comunicações eram diretas sem recurso a repetidor. Neste caso a voz e os dados eram partilhados via meios rádio (PRC-525 e/ou RDE).
Concluindo: este sistema vai permitir integrar comunicações militares dos meios já existentes no Exército, assim como de meios em aquisição, com outros sistemas de comando, controlo e coordenação de comunicações para emergências e segurança, nomeadamente, da rede rádio do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP), assim como da Rede Integrada de Telecomunicações de Emergência dos Açores (RITERAA), ou outras, assumindo-se como uma solução de comunicações de muita flexibilidade e com potencial emprego em operações e tarefas de natureza variada.

Interior da Shelter
FONTE: Texto publicado em “A Mensagem 2024” – Boletim informativo do Regimento de Transmissões. Porto.
O exercício em questão recebeu ampla cobertura pela comunicação social da Região Autónoma da Madeira. A CHT considerou pertinente compartilhar com os seus leitores algumas das notícias divulgadas:
2023-09-26, Jornal da Madeira: Zona Militar da Madeira inicia hoje fase académica do Exercício Golfinho 23
A Zona Militar a Madeira inicia hoje a fase académica do Exercício Golfinho 23, no Museu Casa da Luz, onde diversas entidades irão apresentar as diversas perspectivas relativas a um incidente sismológico na RAM. Este incidente servirá de base para o cenário do exercício que se realizará entre 10 e 13 de outubro.
2023-10-12: Diário de Notícias da Madeira: Exercício ‘Golfinho 23’ simula cenário sismológico na Madeira
Está a decorrer, desde o dia 10 de Outubro, o exercício militar ‘Golfinho 23’, que pretende simular um cenário sismológico na Madeira. A apresentação do exercício e dos módulos de intervenção prescritos acontece amanhã, sexta-feira, pelas 11 horas, na Quinta do Santo da Serra.
“Este plano visa estabelecer a forma de colaboração da ZMM em apoio a ações de proteção civil, designadamente em tarefas relacionadas com a satisfação das necessidades básicas e a melhoria da qualidade de vida das populações, na Região Autónoma da Madeira, de acordo com as solicitações dos órgãos competentes, nos termos da legislação em vigor”, explica nota à imprensa,
Este exercício, para além das unidades da ZMM, conta com o apoio de outras unidades do Exército, nomeadamente a Zona Militar dos Açores, a Direção de Comunicações e Informação, o Regimento de Engenharia 1 e o Regimento de Apoio Militar de Emergência. A estes juntam-se ainda a Águas e Resíduos da Madeira, o Laboratório Regional de Engenharia Civil, o Serviço Municipal de Proteção Civil de Machico e os respetivos Bombeiros Municipais, o Instituto Português do Mar e Atmosfera, o Serviço Regional de Proteção Civil e o Comando Operacional da Madeira.
2023-10-12: Diário de Notícias da Madeira: Exército cancela exercício ‘Golfinho’ e passa para situação real devido ao incêndio
A Zona Militar da Madeira activou a Força de Tarefa de Apoio Militar de Emergência em virtude do grande incêndio que atingiu os concelhos da Calheta e Porto Moniz.
Segundo explicou o oficial de operações da FTAME, Tenente-Coronel Madeira Costa, foi mantido o posto de comando que tinha organizado para o comando e controlo do exercício Golfinho e redireccionados os meios que estavam alocados ao exercício, um suposto sismo, que passou para uma situação real de incêndios na zona Oeste da ilha da Madeira.
Disse ainda que estão envolvidos nesta operação cerca de 20 militares, ao nível do comando e controlo. “Neste momento temos no terreno duas equipas de vigilância nas regiões da Ribeira Brava e Ponta do Sol e estamos a efectuar o transporte dos bombeiros que vieram do continente para a ilha da Madeira”, referiu, adiantando que os bombeiros vão ficar alojados no regimento

