Sobre a participação do BTm4 ao serviço da ONU na missão de paz ONUMOZ (1993-1994), existem várias histórias que fazem parte da memória coletiva dos que participaram nesta missão. A que se vai descrever seguidamente, está mais relacionada com os que viveram no aquartelamento da Matola, onde estavam instalados o comando do batalhão, a companhia de comando e serviços (CCS) e a companhia de transmissões 1 (CTm1).

O aquartelamento começou a ser estabelecido logo após a chegada a Moçambique em maio de 1993, A ONU destinou um terreno plano com aproximadamente 2/3 hectares para a localização do aquartelamento, onde apenas existia uma árvore. No início, foi um trabalho árduo a criação das infraestruturas para garantir condições básicas de higiene, alojamento, salubridade, alimentação, entre outras. Ao mesmo tempo, e concorrentemente, decorriam as tarefas e atividades relacionadas com a implementação do sistema de transmissões de apoio à estrutura militar da ONUMOZ, que era a missão principal de BTm4.

Passados 3 meses após a chegada, o aquartelamento já tinha definido mais ou menos a sua configuração base, com as áreas de alojamentos em tendas de campanha, cozinhas, refeitórios, sanitários, locais de banhos, zonas técnicas, área do comando, etc. Embora o melhoramento destas áreas fosse um processo contínuo nos meses seguintes, a configuração dos arruamentos e localizações manteve-se no geral pouco alterada.

Em África é muito comum surgirem subitamente e sem que nada o preveja, situações meteorológicas extremas, como a que aconteceu por alturas de julho, num dia agradável e solarengo, mas que inesperadamente da parte da tarde, surgiu uma tempestade com chuva torrencial e trovoadas fortes com elevadas descargas elétricas atmosféricas. Rapidamente foram desligadas todas as antenas para evitar danos irrecuperáveis nos rádios, feixes hertzianos e centrais telefónicas. Após esta intempérie o aquartelamento ficou completamente alagado.

No dia seguinte ao fazer a avaliação dos danos provocados pela tempestade, concluiu-se que o terreno por ter características argilosas tinha pouca capacidade para a drenagem das águas pluviais, e, também por aparentemente parecer plano, possivelmente não o era, haveria por ventura desníveis que facilitariam o acumular das águas em grandes charcos. O comandante de batalhão TCor Tm (Eng.º) Pinto de Castro lançou o desafio de tentar identificar o perfil do terreno, antes de solicitar o apoio da companhia de engenharia (contingente indiano) para nos ajudar na resolução deste problema.

Eu tinha tido alguns contactos com um engenheiro da Mota Engil que dirigia uma obra, não me recorda ao certo, mas talvez fosse a construção de uma estrada. Ainda me recordava dos conceitos e cálculos que tinha aprendido na cadeira de topografia na academia militar. Os cálculos utilizados para um levantamento topográfico baseiam-se em conceitos básicos de trigonometria (seno e cosseno de ângulos), o que não é muito complicado.


O que faltava era um teodolito, quando me encontrei com o tal engenheiro da Mota Engil pedi se me podia emprestar um teodolito para fazer o trabalho de campo do levantamento topográfico, ao que ele gentilmente acedeu. O teodolito é um equipamento ótico que permite medir ângulos horizontais e verticais para o cálculo de distâncias, direções e desnivelamentos entre dois pontos no terreno. Nos anos 90 ainda não existiam as tecnologias que existem hoje em dia, tais como equipamentos digitais, drones, sistemas GPS de geolocalização, pelo que todo o trabalho de cálculo, após as leituras feitas no terreno com o teodolito, era feito manualmente. Com o apoio de dois voluntários, que já não me recordo quem eram, mas que já tinham feito algum trabalho nesta área … meti mãos à obra.

Feito o trabalho de campo com a recolha dos dados obtidos pelas leituras do teodolito, e a transformação destes dados numa representação gráfica, obtém-se o que genericamente se designa por planta topográfica. Embora esta planta topográfica tenha sido obtida de certa forma por não profissionais nesta área, possivelmente, salvo um ou outro ajuste, não seria muito diferente da que se obteria com uma fotografia aérea do aquartelamento.

Relativamente ao objetivo inicial que era o de avaliar o terreno do ponto de vista altimétrico, ou seja, diferenças de nível no terreno suscetíveis de criar zonas de charcos na presença de chuvas abundantes, verificou-se que o desnível entre o ponto de cota mais alto e o mais baixo era mais ou menos de 1 metro, foram identificadas algumas áreas no terreno que poderiam alagar e criar charcos. Esta informação foi passada à companhia de engenharia que nos apoiou na organização do terreno do aquartelamento. Os dados altimétricos por terem pouca variação não estão representados graficamente na planta topográfica.

Com a feitura desta planta, e, como já existia um elevado número de acontecimentos que caracterizavam esta ou aquela situação com o pessoal, algumas engraçadas, bem como locais com alguma simbologia, surgiu a ideia desta planta servir de base para criar uma toponímia que descrevesse todos aqueles locais.

Os primeiros-sargentos Carlos Morais e Paulo Alves conheciam como poucos as características do pessoal, os episódios e eventos caricatos que aconteceram, bem como o significado dos vários locais do aquartelamento. Foi com estes dois camaradas que se revelavam excelentes guionistas, que me reuni uma tarde que acabou por se prolongar noite dentro numa longa maratona, para atribuir nomes e significados aos locais, o que resultou nesta planta toponímica.

Aqui estão alguns exemplos de locais com os respetivos nomes e significados, isto tem mais significado para os que viveram naquela época neste aquartelamento, que irão certamente recordar com saudade e um sorriso nos lábios.

Colégio Moderno

Escola criada para acolher as crianças que viviam nas redondezas, onde recebiam aulas com “professores” voluntários entre os militares do batalhão, complementado com uma refeição após o término das aulas.


Palácio das Necessidades e a Rua Projetada ao Palácio

Como o próprio nome indica referencia o local onde se situavam as “zonas sanitárias”. Estas instalações no início tinham condições muito rudimentares, com o andar dos tempos as condições foram substancialmente melhoradas.


Largo do Estado de Xoke

Local simbólico do início do aquartelamento. A área atribuída ao batalhão para instalar o aquartelamento era um terreno com cerca de 2/3 hectares onde apenas existia uma árvore, este foi o local onde se situava essa árvore, daí a referência ao sentimento generalizado do pessoal, tendo em vista o trabalho árduo que se antecipava para os próximos tempos na construção do aquartelamento.


Tavares Pobre

Referência a um famoso e muito elegante restaurante de Lisboa. Era uma aproximação ainda muito primitiva do que se poderia designar como messe de oficiais, messe de sargentos e refeitório das praças. Estas instalações que foram progressivamente melhoradas, eram partilhadas pelo pessoal do batalhão e pelos militares do contingente japonês que se adaptaram muito bem aos sabores da nossa alimentação.


Rua da Estereofonia

Nesta rua situavam-se as tendas de campanha (alojamentos) de dois distintos oficiais, cujos nomes por delicadeza não refiro aqui, e que pela noite dentro emitiam uma “ruidosa sinfonia” estereofónica que vulgarmente se designa por ressonar.


Caixas Multibanco

Vários locais dispersos pelo aquartelamento onde se situavam os urinóis, preservavam alguma privacidade aos utentes com as cercaduras em vime, bem como garantias de salubridade dentro das condições existentes. Havia uma certa semelhança com as caixas multibanco, dai o nome que lhe foi atribuído.


Lista completa da toponímia do aquartelamento, conhecida como o “Roteiro Descritivo da Matola City

Sítio do Deportado: Em homenagem ao cabo controlador, e á sua espinhosa missão “de porteiro” e de guarda dos agentes da autoridade.

Colégio Moderno: Instituição de ensino, guardiã e embaixadora da secular cultura lusa.

Rua, do Come e Bebe: Itinerário obrigatório dos bons garfos e ilustres visitantes desta cidade “à beira pó” plantada.

Rua da Estereofonia: Rua onde se localiza um auditório de condições acústicas ímpares (e ressonantes) cenário dos mais belos recitais e outros cantos gregorianos.

Rua do Drástico: Em homenagem aos que no seu profundo sono perturbado as medidas drásticas evocaram.

Rua da Associação Amizade Miséria Fixa: Em homenagem á salutar rivalidade entre dois dos mais importantes clãs deste burgo.

Rua da Amargura: Rua dos infelizes, amargurados, almeidas e capelão.

Rua da Chlca: Em homenagem à primata mascote deste Batalhão, e às suas incontinências intestinais.

Rua 6 de Maio: Data histórica, que será eternamente recordada, como o dia do lançamento da primeira barraca em terras do “pó-lama”.

Rua TaKlyoshl: Rua cuja projeção se orienta na lápide com o mesmo nome.

Rua da 3° Idade: Em homenagem aos menos jovens deste Batalhão, que apesar de tudo muitas atividades têm para a sua idade.

Campo de Trebllnka: Local de purificação do corpo sem gás e com banho “Tchék”, onde a ONU se põe a nu.

Av. do Pé Descalço: Itinerário obrigatório de passagem dos vespertinos “sebadolas”, em marcha de “passerelle” com indumentária romana.

Terreiro do Controle de qualidade: Local onde se implementam as mais rigorosas medidas de controle e “acexo” (exceto para o seu único controlador), sempre em prol da defesa do consumidor.

Largo da FACIM: Certame aberto ao público em dias de ilustres visitas.

Feira de Amostra de Contentores e Irónicos Macacos

Largo do Estado de “Xoke”: Local do primeiro impacto entre uma Matola por desbravar e um Batalhão de bravura.

Tavares Pobre: Local de Ultra-repasto, rico em animação, em certas noites frequentado por gente alcoolicamente bem-disposta e nipónicos em vias de se latinizarem.

FMT Bar: Bar peculiar pelas suas atraentes condições de crédito, e, famoso pela qualidade de serviço prestado pelo seu rouco taberneiro.

Estrada do “Tó-clismo”: Local de passagem com pá, e, “mal-cheirosamente” minado por montes de poia de difícil contorno.

Rotunda da Manutenção: Em homenagem a alguns “paranóicos” e outros que em jardineiros se esforçaram para visitas contemplarem.

Largo das Secas: Praça publica onde se recomendam entre outras coisas, a “latexização” do corpo, o cumprimento dos horários dos chapas, o bom relacionamento com a população locai fixa/móvel, etc.

Parada do CIOEC: Justo reconhecimento ao estoicismo dos que da lei do pó nos libertaram.

Centenas de Infelizes Obrigados a Espalhar Cascalho

Catacumba do Sousa: Recinto gimno-desportivo onde o protagonista exercita saltos mortais á frente com salda de maca.

Corredor da Matola: Tal como italianos dominam o corredor da Beira, uruguaios guardam o corredor do Limpopo, nós Portugueses criámos o corredor da Matola (justa homenagem ao seu ilustre arquiteto que com o seu nome o delimitou).

Av. do Covil: Trilho solitário que o lobo percorre deixando à sua passagem um rasto fumegante.

Beco do Bobby: Local onde se “sekiu-sekiu diexa” para todo o mundo, incluindo América Itália, Amadora e Chamusca.

Terreiro do Tarrafal: Local da frigideira de campanha onde se estrelam operadores.

Terreiro da Virgem: Em homenagem às virgens deste Pais (local em extinção).

Palácio das Necessidades: Local de envio de Sitreps e Faxs para as mais variáveis entidades.

Rua Projetada ao Palácio: Rua de fácil identificação olfativa sobretudo com vento de norte.

Av. do “Pólama”: Artéria-barómetro para as estações do ano.

Av. Nippon: Em homenagem a germinação luso-nipónica e ao sol nascente.

: Sistema interbancário (levantamentos indisponíveis) onde o utente utilizando o seu cartão pessoal e intransmissível, efetua operações de depósito de our(ina), dentro da maior privacidade (proteção tanto de “mirones” como de carteiristas).

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