
Testemunho solicitado pelo General Garcia dos Santos, Presidente da Comissão de História das Transmissões Militares.
A minha ligação ao Movimento das Forças Armadas (MFA) iniciou-se após um telefonema do então Capitão Luís Macedo, da Arma de Engenharia, do meu curso do Colégio Militar e da Academia Militar. Nesse contacto, explicou-me resumidamente do que se tratava e convocou-me para uma reunião no sábado seguinte, 24 de novembro de 1973, com ponto de encontro no Restaurante Galeto, na Avenida da República-Lisboa. Já anteriormente tínhamos discutido a questão das “ultrapassagens” resultantes do Dec-Lei 353/73, que, embora não afetassem as Engenharias, nos levaram à solidariedade com as outras Armas e, como muitos outros, também entreguei o meu requerimento de demissão, embora desconheça o destino desses documentos.
Do Galeto, juntamente com outros tenentes e capitães do nosso tempo, seguimos para um edifício por trás da Colónia Balnear do Século, em S. Pedro do Estoril, junto à Marginal. Julgo que esta foi a segunda reunião alargada do Movimento no continente, depois da realizada no Monte de Alcáçovas. Esta reunião foi decisiva para a mudança de rumo do Movimento dos Capitães, destacando-se a intervenção do Tenente-Coronel Luís Banazol que estava para seguir com o seu Batalhão para a Guiné e que declarou que ele e os seus homens estavam disponíveis para um movimento militar para o derrube do regime.
Ambiente de Conspiração e Medidas de Segurança
Lembro-me aliás de um episódio pitoresco durante esta reunião: estando toda a gente a fumar, as janelas da sala do 1.º andar, onde estávamos, foram abertas. O Capitão Rosado da Luz, de Artilharia, também do meu curso, que estava sentado no parapeito de uma janela ao fundo da sala, a dada altura deu um grito, calámo-nos todos e ele disse – “é só para vos avisar para falarem mais baixo porque estão aqui uns “chuis” a tirar as matrículas dos nossos carros e a ouvirem o que nós dizemos“. Houve alguma excitação, apareceram logo algumas armas, mas houve também logo quem acalmasse os ânimos. Na realidade, quando a reunião acabou, apenas estava uma viatura da polícia no cruzamento com a marginal e dois guardas a ajudarem-nos a entrar no sentido de Lisboa …
Estive presente nesta reunião (julgo por isso ter sido o primeiro oficial de Transmissões a “aderir” no Continente, mas não posso ter a certeza) e, posteriormente, numa outra, já em Angola, onde cheguei no dia 4 de Janeiro de 1974. Com autorização do Comandante da Escola Prática de Transmissões, Lisboa (Coronel de Transmissões (Eng,º) Corte-Real, que não esteve presente), fiz na sala de oficiais uma exposição sobre a reunião a que fora, a que assistiram os oficiais da Escola e alguns outros que frequentavam o curso de Transmissões (Tm) das Armas (lembro-me do Tenente Marques Júnior, por exemplo) e onde se discutiu o âmbito do movimento.
Como tinha ficado prevista uma reunião em Óbidos uma semana depois, acordámos que seria dessa vez o Capitão Alcide de Oliveira, o mais antigo dos capitães presentes, a representar-nos. Também transportei para Angola, para entregar aos representantes do Movimento, uma pasta com documentação vária que me foi entregue uns dias antes pelo Capitão Diniz de Almeida (também do meu curso) junto à Escola Prática de Transmissões, onde me encontrava colocado (apanhou-me junto ao muro lateral e conduziu sempre por ali fora enquanto falávamos, havendo uma pistola, que me disse ter bala na câmara, que escorregava para a frente e para trás debaixo do meu banco … ).
O 25 de Abril em Angola
Não participei na preparação do 25 de Abril devido à minha colocação em Angola. No dia da Revolução, encontrava-me em Malanje, para onde fora em viatura militar para montagem de umas antenas. Recordo-me que no quartel se soube à tarde que se tinha dado o 25 de Abril, por informação recebida do Bispo de Malanje!
Curiosamente, na véspera da minha partida de Luanda para Malanje, recebi um estranho telefonema da minha mulher a informar-me que a mulher do Luís Macedo iria lá dormir a casa na noite de 24 para 25. Achei estranho, mas estupidamente na altura não entendi o que ela me “estava a dizer”.
Regresso e Novas Missões
Ao regressar da Comissão especial no Agrupamento de Transmissões de Angola, em Agosto de 1974, tinha à minha espera no aeroporto militar de Lisboa o Capitão de Engenharia da Força Aérea António Filipe Tribolet, meu amigo de Tancos e do Colégio Militar, que me comunicou que me tinha proposto para a Comissão de Extinção da PIDE (Polícia Internacional e da Defesa do Estado), onde ele próprio se encontrava, e onde me apresentei em 28 de Setembro, depois das férias, no dia da manifestação da “manioria silenciosa”.
Em Dezembro, na sequência de uma conversa que tivéramos, e em que eu lhe manifestara o meu desconforto pelo que lá se passava, o então Major José Saraiva Mendes convidou-me, em nome do presidente da Radio Televisão Portuguesa (RTP), o então Major Ramalho Eanes, para integrar a equipa militar que iria dirigir a RTP.

A equipa militar que dirigiu a RTP, menos o presidente e um dos vogais, num almoço de trabalho com membros do Conselho da Revolução. Da esquerda para a direita, rodando à volta da mesa: Ten Cardeira, Cap Canavilhas, Engº Sousa Gomes (administrador da RTP, o único civil), Cap Pinto Castro, Ten Geraldes, Cap Vasco Lourenço, Maj Saraiva Mendes, Cap Sousa e Castro e Cap Roque.
Ali exerci funções de chefia dos Meios Operacionais e depois da Divisão de Exploração, saindo aquando da entrada do Capitão Tomás Rosa para presidente, a meu pedido. Nas mesmas circunstâncias, entraram também os Capitães Simões Roque e Pinto de Castro.
Tempo do PREC e o golpe do 25 de Novembro na RTP
Durante a minha passagem pela RTP, participei em diversas reuniões, políticas e militares, incluindo encontros com a comissão de trabalhadores, com o COPCON (Comando Operacional do Continente), por causa das “tropelias” da Escola Prática de Administração Militar na RTP e das frequentes ocupações militares das instalações a que procediam, participei em algumas das reuniões gerais militares que então tiveram lugar (Manutenção Militar, etc.). Acompanhei o Presidente da RTP, Tenente-Coronel Ramalho Eanes durante a tarde do dia 11 de Março, em vários contactos externos, numa altura em que foi acusado de conhecimento prévio do “golpe”.
No 25 de Novembro, como militar da Arma de Transmissões, estava a prestar serviço na RTP. Fui detido por algumas horas, juntamente com o então Presidente, Major Manuel Pedroso Marques e os então directores de Programas e de Informação, Tenente de Administração Militar Manuel Geraldes e Tenente Cardeira, no gabinete deste último, por ordem do Capitão Durant Clemente, com sentinelas à porta.
O que aconteceu foi o seguinte: na sequência do que tinha combinado uns dias antes, em reunião no EMGFA com os então Tenentes-Coronéis Pimentel, Garcia dos Santos e Ramalho Eanes, no caso de os estúdios da RTP em Lisboa serem ocupados pelos golpistas, a minha missão era garantir que uma equipa técnica assegurasse uma emissão alternativa da RTP, com recurso a um carro de exteriores equipada com Feixes Hertzianos, meios que eu chefiava, que permitisse intervenções em directo. Ficou estabelecido que eu os enviaria para o Palácio de Belém, às ordens do Presidente da República, General Costa Gomes, com alternativa para Monsanto.
Quando percebi o desenrolar dos acontecimentos, apressei-me a mandar seguir um Carro para Belém (a garagem era no antigo Estádio do Sporting, portanto fora das instalações do Lumiar) e mandei reunir no pátio uma equipa de exteriores. O Capitão Clemente, ao passar pela viatura TP-21 onde alguns trabalhadores já se encontravam, perguntou-lhes para onde iam, responderam que iam para Belém por ordem minha, e foi quando se lembrou da nossa existência e me deteve, no meu gabinete, mandando-me para o gabinete onde já se encontravam os outros três referidos militares. Após algumas horas, e porque continuamente exigimos a libertação, mandou-nos sair, com a obrigatoriedade de sob palavra de honra abandonarmos as instalações.
Logo que desci a rampa, telefonei de uma cabina instalada no café em frente ao chefe do núcleo dos operadores de câmara (Hélder Duarte, mais tarde realizador da RTP) a quem disse que precisava que ele convocasse telefonicamente pessoas de confiança para assegurarem a emissão do carro de exteriores e para se dirigirem a Belém. Quando pouco depois lá cheguei, já ele, como alguns outros, lá se encontravam e depois de me identificar ao portão todos fomos autorizados a entrar. Pouco depois, como é sabido, a emissão foi transferida para o Porto, por ordem do Capitão Águas Gonçalves, então membro da Direcção, que se encontrava na sede, na Lapa, mas a região de Lisboa só passou a ver essa emissão após o Capitão Tm (Eng.º) Tavares Coutinho (Relato da Ocupação de Monsanto no Golpe de 25 Novembro: Memórias e Episódios), acompanhado pelos Comandos, ter forçado o técnico de serviço no emissor de Monsanto a proceder à comutação. Procedeu-se à leitura de vários comunicados da Presidência (um dos quais até fui eu que o tive que ler) a partir de Belém, do carro de exteriores.
Outro episódio relevante foi a apreensão de uma pasta com documentos da célula do Partido Comunista na RTP, a que o então Tenente-Coronel Eanes atribuiu importância, pelo menos na altura disse-me que, juntamente com a saída do carro de exteriores, isso “tinha equivalido a mais uma “Companhia de Comandos“. Na sequência dos acontecimentos do 25 de Novembro, só autorizámos nos primeiros dias a entrada nas instalações a um número restrito de trabalhadores. Acontece que ao segundo ou terceiro dia eu fui avisado por uma das telefonistas de que ouvira uma conversa em que um trabalhador pedira a uma senhora da secção de montagem de filmes para ir ao seu armário retirar uns documentos comprometedores.
Chamei um agente da Polícia de Segurança Pública que guardava as instalações, bem como o Tenente Geraldes para me acompanhar, como testemunha, e arrombei o armário, de onde tirei uma pasta de documentos que verifiquei serem da célula do Partido Comunista na RTP que realmente continha actas e planos tácticos e postos de observação nos topos dos edifícios em redor, que permitiram ao General Eanes, anos mais tarde, afirmar que estava convicto de que o Partido Comunista não tivera participação activa no ocorrido no 25 de Novembro, mas que pelo menos uma sua célula tivera.
Aliás, ele deu-lhe uma importância tal que, quando lhe comuniquei telefonicamente o que tinha na minha posse me aconselhou a dirigir-me de imediato à sede da RTP na Lapa para guardar os documentos no cofre e para aguardar uma Secção dos Comandos que me iriam escoltar até à Amadora, o que efectivamente veio a acontecer.
Fase Final e Reflexão
Após a saída da RTP, fui colocado na Divisão de Informação, Relações Públicas e Assuntos Civis do EMGFA, para chefiar a equipa de Rádio e TV, tendo participado na selecção do pessoal e material, na construção dos respectivos estúdios e na aquisição de um carro de exteriores, que visava inicialmente, entre outras missões, a capacidade de as Forças Armadas puderem intervir nas emissões da RTP, caso se viesse a verificar uma situação de grave crise nacional.

O autor, Coronel Canavilhas, no interior do carro de exteriores do Estado-Maior-General das Forças Armadas
Meu General Garcia dos Santos a mais não chega já a minha memória. Mas deste período que agora me obrigou a recordar e que eu vivi intensamente, guardo alguma saudade. Ficou-me sobretudo na memória o que de bom vivemos, o entusiasmo, a entrega da nossa juventude e o muito que apesar de tudo Portugal evoluiu, em especial por causa de pessoas como o meu General.
Não sei se este meu relato, talvez ainda por cima demasiado coloquial, é o que pretendia, mas contém o principal da minha história pessoal do 25A e este é o meu estilo de escrever.
Com muita consideração e amizade,
Um abraço do
José Manuel Canavilhas, Coronel Eng.º de Transmissões (reformado)
