
Em 1993 e 1994, na missão ONUMOZ – Operação das Nações Unidas em Moçambique, desempenhava as funções de Sargento de Operações e Segurança do BTm4, Chefe do Rear Link para Lisboa e coadjuvava na Área das Relações Públicas, tinha o posto de 1.º Sargento.
A estrada Nacional n.º 1 é o fio condutor da uma aventura na qual se revela um cenário diversificado de paisagens naturais, pequenas aldeias em madeira e adobe, cobertas com capim e as pessoas. O movimento de pessoas, o comércio de subsistência e a afabilidade no trato com os militares portugueses. Esta é a história que conta a viagem de uma missão de 2500 quilómetros para recolher e escoltar uma Shelter, com Central Telefónica de Campanha.
Pela redução do dispositivo do contingente português do BTm 4, durante o período eleitoral de abril a outubro de 1994, houve necessidade de guarnecer o Southern Region Headquarters, na Matola, com uma central telefónica digital de campanha, disponível na CTm2 (Dondo – Beira). A missão decorreu no período de 7 a 11 de fevereiro de 1994, (2 dias para a ida e 2 para a volta e 1 dia de descanso), tendo como cenário principal a mítica Nacional 1, entre Maputo e Inchope e posteriormente a Estrada Nacional nº6, entre Inchope e o Dondo, numa jornada longa e desafiadora, atravessando diferentes paisagens e províncias de Moçambique.

Numa paragem para uma pequena refeição, o grupo de militares designado para a missão, da esquerda para a direita, SAj Rita Mendes, Sold Figueiredo, 1º Cabo Biscaia, Sold Ferreira, 1º Sarg Morais, Cap Chambel, Ten Fernandes e SAj Cóbé, o 1º Sarg Machado fotografou
Para a missão, o Comando do BTm4 designou um grupo de militares para a escolta e transporte, sob comando do então Capitão Dias Chambel, Oficial de Operações, que escolheu os restantes militares, de acordo com as funções técnicas que a missão exigia, nomeadamente, o Tenente Tm Silva Fernandes, Técnico de Eletrónica, o Sargento Ajudante Tm Rita Mendes, Técnico de Centrais, o Sargento Ajudante do Serviço de Material Carlos Santos, (Cóbé), especialista em Eletrónica de Material, o 1.º Sargento Tm Carlos Morais, Sargento de Operações e Segurança, o 1.º Sargento Borges Machado Serviço Material, especialista em Mecânica Auto, o 1.º Cabo Carlos Biscaia, Mecânico/Condutor, o Soldado Sérgio Ferreira, Socorrista e o Soldado Paulo Figueiredo, Condutor.
No deslocamento utilizaram-se duas viaturas, um Jeep 4×4 UMM, versátil para áreas de difícil acesso, e uma Mercedes UNIMOG 1300, com capacidade off-road, superando obstáculos mesmo transportando cargas pesadas. No regresso, ingressou a coluna mais uma viatura Mercedes UNIMOG 1300 com a Shelter da central telefónica P/TTC-101.
Dos limítrofes da Grande Cidade à paradisíaca praia do Tofo
Duas viaturas brancas, com as letras NU (Nações Unidas) sobressaindo nas portas e capô, arrancam da Matola, aquartelamento do BTm4, com destino à Praia do Tofo, onde se conclui a 1.ª etapa. O relógio ainda não marcava 6 horas, no dia 7 de fevereiro de 1994, e o céu exibia uma tonalidade azul-alaranjada, prenunciando um dia quente, apesar do ar ainda fresco da madrugada. A poeira fina levanta-se ao movimento dos primeiros carros e bicicletas que circulam nas estradas de terra batida que ligam à estrada principal.
A estrada que liga o acantonamento do BTm4 à entrada de Maputo, ainda sem muita circulação, começa a ganhar vida. Pequenos grupos de pessoas caminham nas bermas, algumas descalças, outras de alpercatas de borracha, transportando trouxas à cabeça ou empurrando carrinhos de mão carregados de mercadorias. As mulheres com as capulanas coloridas, carregam os filhos aninhados nas costas, equilibrando os cestos na cabeça com produtos agrícolas para vender nos mercados da cidade.
Os chapas, pequenas carrinhas de transporte coletivo privativo, fazem o seu percurso, apinhados de passageiros que se seguram como podem, pendurados nas portas abertas. Em cada paragem, os cobradores gritam os destinos chamando por mais clientes, enquanto recebem os Meticais dos passageiros que chegam ao destino.
Os camiões carregados de madeira, lenha ou sacos de farinha e arroz avançam, deixando no ar rastos de poeira quando roçam as bermas. As viaturas ligeiras, em menor número, serpenteiam entre os buracos da estrada evitando os solavancos mais agressivos. As motorizadas, com dois passageiros, ou as bicicletas, seguem também os seus destinos. As pessoas fervilham procurando um meio para se deslocar em mais um dia de trabalho.
As viaturas brancas avançam enquanto a paisagem muda do ambiente urbano, para o cenário rural. O casario dá lugar aos campos de cultivo e ás pequenas casas de adobe cobertas de colmo. As crianças, descalças, correm pelos trilhos de terra, acenando com as mãos e gritando; “Portugal ONIMOZ”.
Ao longo da estrada, os cajueiros e mangueiras pintam as bermas de tons verde, enquanto, cabras e galinhas, junto ao casario disperso, procuram alimento. Com o aproximar de Marracuene, o rio Incomáti brilha ao longe, refletindo a luz da manhã. De quando em vez, aos fins de semana, militares portugueses atravessam aquele rio numa balsa para se direcionarem à praia da Macaneta, de areal selvagem, de mar agitado, mas quente. Ao almoço, num pequeno restaurante com esplanada em ramos de palmeira, degusta-se o caranguejo gigante.

exibe-se na região de Macia e Xai-Xai
Pouco passava das sete da manhã, a vila de Marracuene despertava a vida. O ritmo do mercado de rua pulsava de gente á medida que o sol subia no céu. O cheiro da terra quente e do carvão queimado marcava o “odor da manhã”. As pequenas machambas (hortas familiares) e algumas palmeiras, juntavam-se ás pequenas casas de tijolo e zinco e ás barracas de bebidas.
Perto de Chicumbane, a 20 quilómetros de Xai-Xai, a primeira paragem para o “mata bicho” reforçado, preparado pelo cozinheiro, o Cabo Adjunto Benjamim Simão, composto por pão com ovos mexidos e café, dentro de uma garrafa-termo, ainda quente.
Conforme o percurso avança para norte, atravessam-se as localidades de Macia e Xai-Xai, cujo rio Limpopo emerge como a principal referência geográfica. Ao redor dele, pequenas lavouras mostram a importância da agricultura de subsistência, com campos de mandioca, milho e arroz. Os pescadores, em pequenas canoas, lançam as redes.
Percorridos quase 400 quilómetros, passa-se Quissico com as suas lagoas rodeadas de palmeiral, faz-se uma paragem rápida para uma “bucha”. No horizonte o céu escurecia, antecipando uma chuvada, depois de um sol radiante, este contraste climático leva-nos à expressão usada pelo Rita Mendes; “Aqui o tempo vê-se no local!”
A viagem prossegue. O sol esconde-se, anunciando o final do dia e o princípio da noite. A vegetação torna-se mais densa com coqueiros e mangais espalhados ao longo da costa. Com o aproximar da cidade de Inhambane, por entre espaçados aglomerados de casas de colmo, surge o típico entreposto africano para paragem dos autocarros. Os viajantes saboreiam os petiscos, confecionados nos pequenos fogareiros que também torram amendoins e assam as pequenas galinhas à cafreal, picantes e barradas com uma mistura de especiarias e condimentos que lhe dão um gosto especial. O relógio marca oito horas, noite cerrada, ainda faltam meia dúzia de quilómetros para chegar ao local da pernoita.
No acampamento dos capacetes azuis Uruguaios, situado na estrada para a praia do Tofo, esperam pelos militares duas tendas e uma refeição quente. Ali chegados, a receção dos camaradas portugueses da secção de transmissões, em apoio ao Batalhão Uruguaio. Os militares uruguaios já tinham jantado, reservando um quinhão de puré de batata, diga-se batatas cozidas esmagadas, em acompanhamento do borrego grelhado e ananás da região para a sobremesa.

A fraca luminosidade das lâmpadas, alimentadas pelo gerador, e o cansaço da jornada indicou o sentido da tenda onde se estendeu o colchão insuflável, o saco cama e a estrutura de suporte à rede mosquiteira. O leito estava armado, foi tiro e queda como se diz na gíria popular. Ainda não havia tempo para o ressono quando o Rita Mendes dá um salto e diz; – “iiih c— da mana, passou-me um rato pela boca!” O restante pessoal, como se de uma emboscada se tratasse, reage saltando da tarimba, ligando as lanternas e com punhal em riste. A um canto olhando para nós estava um bicharoco, tipo roedor, de olhos reluzentes, hipnotizado com os focos de luz que lhe apontámos. O CóBé levanta-se e, num pinote, prega um pontapé no roedor que, em jeito de bola, saí disparada em direção à baliza fazendo golo. Longe deste cenário, o bicho atinge a sentinela; – “Oh, ¿qué pasa? ¿Qué es esto?”, a malta disparou numa risada. A sentinela confusa, ainda hoje, pensa que lhe atiramos com uma fronha ou alguma casca de fruta enrolada num pano. Para acabar o dia, nova gargalhada com a figura do socorrista Ferreira, de lenço na cabeça com quatro nós nas pontas, em jeito de barrete tapa orelhas; -“É para proteger as orelhas dos ratos!” – esclareceu muito sério.
Da pintura naturalista rumando à fábrica da Lusalite, sem esquecer a padaria
A noite foi breve, mas deu para repousar. O sol tendia a aparecer, eram cinco e meia, tempo de alvorada e preparação da 2,ª etapa da missão. As silhuetas dos elementos instalados no acampamento tornavam-se visíveis. As guaritas erguidas pelos toros de palmeiras emparedadas de sacos de serapilheira cheios de areia, com cobertura em ramos de palmeiras, protegem a sentinela. Num ponto estratégico, junto ao Posto de Comando, está instalada a secção portuguesa das transmissões, constituída por dois Sargentos, assumindo o mais graduado o Comando, e quatro Praças.
Depois do abastecimento das viaturas e dos tradicionais agradecimentos pelo acolhimento, a viagem recomeça para a travessia da província de Sofala, apresentando o primeiro estímulo de contornar a baía de Inhambane até Maxixe, cidade vizinha e principal ponto de ligação com o resto do país. Para a travessia direta da baia, a população serve-se de pequenos barcos que fazem a ligação, de 4 quilómetros, em um quarto de hora. A rota do Grupo segue por estrada, num percurso de 50 quilómetros, até à última grande cidade antes do rio Save [1].
Do alto da estrada, contempla-se a vegetação costeira que se funde com a vegetação de sapal, cujas raízes longas e retorcidas desenham formas estranhas na lama à beira-mar. As garças e outras aves costeiras pousadas, imóveis, são também elementos da paisagem. Observar a baía de Inhambane da estrada era como assistir a uma pintura em movimento. O cenário, apesar de quotidiano para os locais, marca a memória para quem o vê pela primeira vez. Se houvesse tempo, Inhambane, a Terra de Boa Gente, era um local a visitar!
Depois de Maxixe, a estrada apresenta troços muito degradados, evidenciando os impactos do conflito armado entre as forças da Frelimo e da Renamo. Mais adiante, cruzamo-nos com uma patrulha do UruBatt (Batalhão Uruguaio), junto ao rio Furvela a escassos 7 quilómetros de Morrumbene.
Este rio de pequena dimensão atravessa uma zona rural, “correndo” para o Oceano Índico, através de um estuário que se abre a um ecossistema costeiro de influência das marés. As crianças brincam nas margens. As mulheres lavam a roupa e os homens abrem canais com enxadas para regar as pequenas culturas. As aldeias vão ladeando a estrada. Num pequeno entreposto para-se para vestir os coletes à prova de bala, colocar os capacetes e municiar as armas. O Grupo passa a estar em estado de alerta!
No decurso da viagem, na localidade de Pambarra, uma placa assinala os 18 quilómetros de estrada batida até Vilanculos, povoação costeira do Oceano Índico de praias de rara beleza natural. Esta vila piscatória era a porta de entrada para o arquipélago de Bazaruto, por via marítima, em barcos tradicionais, ou por via aérea desde um pequeno aeródromo. Introduziu-se este parágrafo porque alguns camaradas do BTm 4, durante as suas férias ou nas “compensatory time off”, gozavam os merecidos dias de descanso naquelas ilhas.
É meio dia, estão calcorreados 420 quilómetros, o Grupo atravessa a ponte sobre o rio Save, a principal via de ligação rodoviária que liga a região sul á região centro de Moçambique. Esta infraestrutura por ser vital para o transporte de pessoas, mercadorias, bens alimentares e serviços está protegida por uma força do UruBatt, com um checkpoint ativo.

engenheiro Edgar Cardoso, autor entre outras da
Ponte da Arrábida (Porto),
liga as províncias de Inhambane e Sofala
O pavimento da estrada melhora, imprime-se mais velocidade e a província de Sofala é atravessada em duas horas e meia até ao Chibamo, última localidade desta província.
Mais uma ponte, agora sobre o rio Buzi que nos leva á província de Manica. A estrada, durante 40 quilómetros, transforma-se num único buraco, com crateras que “engolem” camiões, obrigando as viaturas a circular nas bermas, abrindo uma via de terra. Entre os resquícios do alcatrão, a estrada é interrompida por socalcos, de berma a berma, lembrando as barreiras preparadas para as emboscadas. Neste cenário, reduziu-se a velocidade, quase parando, possibilitando ver bandos de galinhas-de-angola, macacos simango e macacos de cara preta e alguns oribis (espécie de cabrito do mato).
A viagem avança por longos trechos de terreno seco e árido, com retas intermináveis e poucas áreas de sombra. De quando em vez, surgem postos de controlo da Polícia moçambicana devido ao histórico de instabilidade na região. Depois de um calor imenso e alguma humidade, o céu pouco nublado transforma-se numa nuvem escura, iniciando precipitação abundante, de curta duração e estranhamente localizada.
A fome aperta, novo alto ao deslocamento, em Goonda, para abastecer o que houvesse necessidade, essencialmente fruta. De compras feitas, avança-se na procura de um local calmo para a refeição. Quando se preparava a “mesa” alguém anotou a falta de pão fresco para juntar ao repasto. Vai daí, saí o jeep com os 1º Sargentos Carlos Morais e Borges Machado em direção ao entreposto para comprar o alimento fundamental na dieta portuguesa. Ali chegados, procuram a “padaria”, uma cubata feita em barro e coberta de folhas de palmeira. No exterior, num balcão, um lençol branco tapava vários pães malcozinhados comprados na totalidade pelos dois militares portugueses.
Enquanto procediam ao pagamento, os militares trocaram algumas palavras de circunstância com o padeiro: – “Caro amigo, como é que faz o pão?” A resposta estava nas traseiras da ”padaria”, um forno feito em barro de estrutura tosca, com uma pequena chaminé, onde no meio da brasa a massa de pão cozinhava. Até aí a informação não trazia nada de novo, o pior foi a pergunta que veio a seguir: – “Mas espere, com a escassez de água, de onde vem a água para amassar o pão?” Como que a dizer que tinha solução para tudo, o padeiro aponta para dois bidons metálicos, com capacidade de 200 litros; – “Apanha-se a água da chuva que caí nestes bidons!”, esclareceu. Os dois militares olharam um para o outro, cada um com outra questão, optaram por se calar.
Ao chegar ao jeep, o Machado assegurou que não comeria o pão. Retorquindo-lhe o Morais de que aquele episódio que tinham presenciado teria de morrer ali, caso contrário ninguém comeriam o pão. Chegados junto do restante pessoal, o Morais foi o primeiro comer o pão, achando-o delicioso para acompanhar a feijoada à transmontana e a merendinha, ambos os alimentos componentes da ração de combate. Os restantes militares, todos comeram o pão com satisfação, exceto o Machado. Para confortar o estomago, juntou-se o café solúvel feito com água engarrafada fervida, no copo do cantil, numa pequena fogueira.

O dia ia longo e ainda faltam 180 quilómetros até ao Dondo. Em Inchope fez-se outra paragem. A localidade situa-se num importante entroncamento rodoviário que liga a EN1 à EN6 (Estrada Nacional nº 6). Este cruzamento, desde sempre, assumiu um papel estratégico nas movimentações de pessoas e mercadorias de sul para norte e de leste para o ocidente, direcionado aos países vizinhos de Moçambique.
Pela relevância económica do local para o País várias organizações implementaram neste local a suas atividades. A polícia moçambicana estabeleceu um posto de controlo para verificação das movimentações de pessoas e viaturas. Também a componente militar da ONU tinha aqui um check point, do contingente militar Italiano na ONUMOZ, e um acantonamento militar para o desarmamento, desmobilização e a reintegração de ex-combatentes na sociedade. Por outro lado, as ONGs (Organizações Não Governamentais) coordenavam, a partir desta vila, vários programas de assistência humanitária, reabilitação de infraestruturas e apoio agrícola.
A população pelo que se conseguiu indagar, nas breves conversas durante a paragem, integrava um grande número de deslocados em retorno às zonas de origem ou acompanhando os ex-combatentes em reintegração. O processo de paz trazia sinais de esperança, mas a população vivia a incerteza económica e de insegurança, ainda havia o risco de minas e emboscadas.
A marcha continuou para os últimos 100 quilómetros, pela EN6, uma estrada degradada e de difícil progressão. Á medida que se aproximam do Dondo a paisagem muda novamente, muita vegetação costeira e o rio Púngoè serpenteando o terreno. A jornada termina pouco passava das sete horas com a chegada ao Campo da Lusalite [2], onde se aquartelavam 79 militares da Companhia de Transmissões nº 2, comandada pelo Capitão José Rodrigues, e um pelotão japonês, com a missão de Controlo de Movimentos no Porto e no Aeroporto da Cidade da Beira. A base militar adaptada de uma estrutura industrial, fruto do engenho e arte dos militares portugueses, era constituída por uma zona de alojamento assente em tendas 16 P e em barracões convertidos em camarata, refeitório, espaços de lazer, campo de futebol salão e instalações operacionais de apoio á Companhia.
O descanso e a vista à Cidade da Beira
O dia seguinte, 9 de fevereiro, foi de descanso e de visita á cidade da Beira, cuja distância do Dondo é aproximadamente 35 quilómetros. Conforme a viatura se aproxima da urbe, o trânsito na EN6 torna-se mais movimentado, camiões de carga, autocarros, chapas e pessoas que se avolumam junto á via.
Na Beira, a segunda cidade de Moçambique, com caraterísticas de litoral, de ruas largas agitadas e algum trânsito. O cheiro a mar anuncia a proximidade do porto. Vivia-se um período de grande importância histórica marcado pelo fim do conflito armado, recuperando a normalidade. A presença da missão da ONU e a preparação das primeiras eleições democráticas do país cimentava a confiança dos moçambicanos na paz. Os edifícios de arquitetura colonial, expõem sinais de recuperação após os danos da guerra. Apesar degradadas, nota-se algum esforço na reparação de vias, serviços públicos e edifícios, sobretudo aqueles relacionados com atividades portuárias e comerciais.
O movimento urbano é intenso com as bicicletas a dominar as ruas. Os mercados de rua fervilham com a oferta de produtos agrícolas, vestuário e utensílios domésticos. O “pau”, como o pessoal designava o artesanato em madeira, também tinha mercado próprio. Naquele espaço comercializam-se as pulseiras e os fios em pedras semipreciosas de malaquite, de olho de tigre, de ágata, turmalina etc, ou outras pequenas esculturas em pedra de sabão.
O Porto da Beira com a atividade em crescimento, continuava, segundo nos fora dito, a ser um dos maiores e estratégicos portos da África Austral, fundamental para as exportações e importações do Zimbabué, Malawi e do próprio país. A Marginal, junto à costa, era uma área de lazer com alguns hotéis e bares, ainda com limitações devido à insegurança, mas frequentada por expatriados e funcionários da ONU.

A Estação Ferroviária da Beira, concebida por arquitetos portugueses, foi inaugurada em 1 de outubro de 1969, sendo uma infraestrutura ampla de linhas modernas. O edifício representa um símbolo arquitetónico nacional e um marco histórico, como nos foi dito no local por um moçambicano. Na gare, um comboio prepara-se para partir com vagões de mercadorias e carvão e com duas carruagens de passageiros destinados à fronteira com o Zimbabwe.
O Quartel-General da Região Centro da ONUMOZ localiza-se numa vivenda no bairro Macuti, bairro histórico da Beira com moradias isoladas, construído no tempo colonial como zona habitacional de luxo. O Centro de Comunicações, guarnecido pelos militares portugueses, estabelece a ligação do Comando da Central Region às Unidades subordinadas e ao escalão superior.

O regresso à estrada, o furo, e a terra de boa gente
Com um quarto de hora passado das seis horas da manhã, o Grupo coloca-se em marcha de regresso, agora com mais uma viatura Mercedes Unimog 1300, com a Cabine T101 – Central Telefónica de Campanha. Para o regresso, o Comando do Grupo foi transferido para o Tenente Fernandes. O Capitão Chambel, por ordem do Comandante do BTm4, permaneceu mais uns dias no Dondo.
Os últimos 200 quilómetros foram um teste á paciência e á atenção dos condutores da coluna, pela irregularidade do asfalto, ora rachado, ora engolido por crateras de terra vermelha. Em menos de nada, as viaturas afundam-se no traçado deixado por outros veículos.
Com quase duas horas de viagem, o calor torna-se abrasador em plena região inabitável. No jeep, conduzido pelo 1º Sargento Machado, sentiu-se um estouro seguido de uma vibração irregular no volante, obrigando a uma paragem forçada. A jante batia no chão. O pneu traseiro esquerdo tinha um furo. As restantes viaturas, em coluna, estacionam também na estrada deserta. Com a paragem dos motores, a trilha sonora dos motores dá lugar ao zumbido insistente das cigarras e ao canto dos pássaros e, de vez em quando, ao som longínquo de um motor, abafado pela vegetação. Estacionar para lá da berma não seria uma boa opção. O pensamento recorda as placas vermelhas, “Perigo Minas!”, vistas alguns quilómetros antes. As três viaturas estacionam um terço na berma e dois terços na estrada, a operação da troca do pneu tem de ser rápida e seguir caminho. O 1º Cabo Biscaia deita logo mãos ao pneu vazio, enquanto o 1º Sargento Machado retira a roda suplente.
Passados alguns minutos e sem que se desse por isso, surge em cena um pequenote que, afastado alguns metros, com olhos curiosos, observa aquela ação. Disse chamar-se Zito, um dos militares dá-lhe um pacote de bolachas da ração de combate. Agradeceu e saiu de cena assim como entrou, por entre a vegetação. E os militares a pensar nas minas! Como planeado a operação é rápida e alguns minutos depois a coluna está “on the roud”.

A estirada continua e após 260 quilómetros, passada a localidade de Muxungué, numa zona de mato, mais uma paragem para “petiscar” do farnel que os camaradas da CTm2 prepararam. Aproveita-se a paragem para fazer algumas fotos porque a restante viagem foi mais em andamento do que em paragem. Inhambane espera os portugueses.
Chegados ao acampamento Uruguaio, o relógio marca seis da tarde. No Tofo, o dia está na fase decrescente, com o pôr do sol a ocorrer. Arrumou-se o equipamento e o armamento nas instalações da secção de transmissões da CTm1, comandada pelo 1º Sargento Rui Silva que acompanhou o Grupo na breve visita a Inhambane. Preparou-se o UNIMOG para se fazer ao caminho da cidade, com o mar à vista e a brisa do Oceano Índico. A baía de Inhambane abre-se como se posasse para um quadro a óleo representando a serenidade, a tons amarelados do pôr do sol e azuis do mar.
Os barcos tradicionais, os dhaus, com velas triangulares recortadas contra o céu, deslizam lentamente sobre as águas calmas, no regresso da pescaria. A luz incide obliquamente sobre a água, refletindo os barcos como pinceladas impressionistas. A viagem do Tofo para Inhambane, no final da tarde, torna-se numa experiência marcada por simplicidade, beleza natural e de um romantismo resistente às modernizações.

Ao entrar em Inhambane, os edificados de traços coloniais, bem preservados, dão ao centro histórico um ar poético e melancólico. Junto ao porto, o ritmo da vida aparenta serenidade. As pessoas locais, hospitaleiros, passeiam pela marginal e cumprimentam à passagem pelos militares. A visita desenvolve-se num tom relaxante depois de vários quilómetros passados na estrada.
Para culminar o dia e perante alguma instabilidade da rede elétrica, o repasto é num pequeno restaurante familiar, onde se juntam ao Grupo o 1º Sargento Rui Silva e o 1º Cabo António Sucena. Os militares portugueses estavam em casa! O serviço não era colossal nem sofisticado, mas a ementa serviu uma refeição digna de registo; – camarões tigre, lagosta e batata frita [3] e matapa [4], regada com uma Laurentina fresquinha (cerveja moçambicana muito popular e com herança colonial).
As praias de azul marinho e o hotel em ruínas refúgio dos fins de semana
Finalmente, ao quinto dia inicia-se a última etapa de regresso a “casa”, à Matola. Pouco faltava para as seis horas da manhã, o sol despertava, previa-se céu limpo, sem nuvens, com a temperatura a subir gradualmente com o avançar do dia. A viagem, longa, cerca de 480 quilómetros, carateriza-se por longas retas cortando savanas e pequenos povoados.
Ao chegar à vila de Inharrime, a vegetação tropical torna-se constante assim como o número de coqueiros. Entrou-se na província de Gaza “terra das belas praias” com dezenas de quilómetros de areal sem viva alma, destacando-se a pitoresca vila de Quissico, situada numa elevação de onde se observam as espetaculares lagoas costeiras e o Oceano ao fundo.
Segue-se Chongoene, a vila da foz do rio Limpopo. Era para a praia desta localidade que o pessoal do BTm4, da Matola, costumava rumar em “excursão”, em alguns fins de semana. Na ribamar ainda resistem as ruínas do hotel onde se abriga o pessoal “excursionista”. Outrora fora a esplanada exterior do restaurante, com vista privilegiada para o oceano, onde nas passeatas de “week end”, os militares montavam o “bivaque”, com a respetiva logística para grelhados de peixe e marisco fresco., capturado pelos próprios depois de um dia de praia. Segundo os locais, o hotel fora construído em 1972, por uma empresa portuguesa, tendo sido abandonado em 1975. O hotel fora um empreendimento turístico de renome na região, com a vila de Xai Xai logo ali ao lado e as suas praias de areia branca e águas cristalinas, de cor verde esmeralda.
Por fim a província de Maputo, onde a localidade de Manhiça, atravessada pelo rio Incomáti, e ladeada de vegetação densa e plantações de cana-de-açúcar. Nova paragem estratégica para desentorpecimento das pernas, descanso rápido e pequena refeição. O movimento rodoviário aumenta entre as vilas limítrofes á grande Cidade de Maputo. Os camiões de carga e os chapas circulam, sem regras, exigindo atenção redobrada aos condutores militares, nas ultrapassagens.
Por entre coqueiros, pequenas casas de tijolo, palhotas, campos cultivados com mandioca, milho e vegetação densa, surge Marracuene, vila de ambiente calmo, de fim de tarde. Atravessa-se ainda as pequenas povoações de Palmeira e de Mulotana, onde à beira da estrada se vendem cajus e amendoins torrados.
Ao entrar nos limites de Maputo, a zona de Benfica fica a fábrica de licores Marromeu, onde trabalha o Ti Zacarias, familiar da Furriel Viegas, do Regimento de Transmissões. Segundo ele, nos anos 70, esta fábrica produzia em grande escala licores tradicionais de caju, maracujá e banana, que seguiam receitas locais com algumas adaptações ao tipo de licores que se fabricavam em Portugal. A comercialização destinava-se a todo o país e aos países vizinhos onde houvesse portugueses de origem moçambicana. Na atualidade, a fábrica produz licores em menor escala, sendo visíveis, á beira da estrada, os tanques e na portaria alguns cartazes publicitam os vários tipos de licores.
A luz do dia tendia a desaparecer. A cidade iniciava o mergulho na escuridão típica dos trópicos. A coluna ao aproximar-se da Matola atravessa uma densidade urbana com fábricas, armazéns e casario em alvenaria e cimento, o tráfego rodoviário fica mais intenso. Na cidade satélite industrial, ainda em recuperação, o edificado tinha luz elétrica, de gerador, mas a iluminação pública era fraca. Por fim, num descampado que serviu durante a guerra civil uma Unidade de Artilharia Antiaérea, o acantonamento do BTm4 e a missão cumprida!
Nestes cinco dias da missão, cada militar deste Grupo de escolta passou por vivências únicas e difíceis de repetir, no âmbito militar evidenciam-se o espírito de missão, a adaptabilidade, a resiliência, a disciplina e o espírito de corpo. Também a imersão na diversidade da sociedade moçambicana, com o contato afável diário dos militares portugueses com a população moçambicana, assumiu sentimentos de hospitalidade e gratidão, naturalmente pelos laços da língua e o legado histórico entre os dois povos.

[1] – O rio Save nasce no Zimbabwe e corre para sul, atravessando Moçambique de oeste para leste, desaguando no Oceano Índico. Pode-se dizer que este curso de água divide o país em duas parte.(Sousa Ribeiro (1917). Anuario da Província de Moçambique. Lourenço Marques: Imprensa Nacional. p. 613)
[2] – Complexo industrial da Lusalite Moçambique, empresa instalada no período colonial nos finais dos anos 1950, filial da empresa portuguesa Lusalite, especializada na produção de fibrocimento e materiais prefabricados para obras públicas e privadas. A instalação neste local aproveitava a proximidade à linha férrea, às boas vias rodoviárias e ao Porto marítimo da Beira. Fonte: Janela, José Manuel e Pereira, Pedro, HISTÓRIA DO AMIANTO NO MUNDO E EM PORTUGAL, pág7
[3] – Parece ser um acompanhamento habitual das refeições nomeadamente em restaurantes moçambicanos. Recordo que o primeiro jantar em terras moçambicanas, no dia 22 de abril de 1993, chegada do 1º escalão, foi num restaurante em Nampula e a refeição foi camarão de moçambique acompanhado de batata cozida.
[4] – Prato preparado com folhas picadas de mandioca, ou de outros vegetais, misturadas com amendoim moído e geralmente cozinhadas com caranguejo ou camarão. ( in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa https://dicionario.priberam.org/matapa.

Parabéns, e obrigado…. Camarada Morais…. Aquele abraço.
Bruno Faria
Muito bem Morais , é bom recordar, apreciei bastante a tua crónica. Apenas acrescento que o contacto com o nosso aquartelamento era feito através do Emissor/ Receptor de HF 301 que estava instalado no UMM comunicávamos, quando a propagação o permitia, com o aquartelamento da Matola para o Cabo Dias, e chegamos a comunicar com o Regimento de Transmissões em Lisboa. O resto da viagem estávamos completamente incontactáveis e isolados. Analisado nos dias de hoje foi realmente uma aventura. De todas as missões que fiz a ONUMOZ foi a que marcou mais, pelo país, população, paisagens e camaradagem.
Abraço do vosso camarada Fernando Fernandes