Autor : Coronel de Transmissões (Eng.º) José Luís da Silva Louro ( 29Jan2007)

Testemunho solicitado pelo General Garcia dos Santos, Presidente da Comissão de Histórias das Transmissões Militares

Adesão ao Movimento dos Capitães

O Coronel Garcia dos Santos era então “professor catedrático” de cadeiras de Transmissões na Academia Militar (AM) e eu, Capitão recentemente regressado de Angola (1969-1971), “professor assistente” das cadeiras dele e outras. assim como instrutor de transmissões do Corpo de Alunos.

A nossa ligação já vinha do tempo de Angola, apesar de o Coronel Garcia dos Santos, ainda Major, estar no Comando das Transmissões e eu no Batalhão de Transmissões. De qualquer modo, em termos de união entre os oficiais da Arma de Transmissões era como se fosse uma só unidade.

Na AM o nosso contacto era constante e, portanto, estava a par e aderi ao “Movimento dos Capitães”.

A Importância da Arma de Transmissões

O facto de pertencer à Arma de Transmissões teve como consequência o acima referido (o envolvimento nos acontecimentos, pois proporcionou acesso direto às operações e aos equipamentos), independentemente da aderência ao “Movimento dos Capitães” da grande maioria dos oficiais colocados na Academia Militar (AM).

Não pertenci a qualquer comissão do “Movimento dos Capitães” pois estive sempre ligado ao Coronel Garcia dos Santos na AM.

Papel nas Operações Relacionadas com o 25 de Abril

Como instrutor de transmissões do Corpo de Alunos da AM tinha em meu poder o respectivo material de transmissões, com destaque para os equipamentos de rádio (principalmente E/R Racal TR-28 ).

A primeira acção correspondeu ao 16 de Março de 1974 (conhecida por intentona}. O Coronel Garcia dos Santos informou-me que me deveria encontrar com o Major Otelo (também professor na AM) em local a combinar, para lhe entregar os equipamentos de rádio TR-28. Assim aconteceu, em determinado dia (vésperas do dia 16) encontrei-me com o Major Otelo em local afastado da AM e transferimos os equipamentos do meu carro para o carro dele.

O 16 de Março não resultou e no dia seguinte efetuámos a operação inversa regressando os equipamentos à arrecadação do departamento de transmissões da AM.

Posteriormente, nas vésperas do 25 de Abril, voltou-se a repetir a mesma operação de transporte e mudança dos equipamentos de rádio TR-28 do meu carro para o carro do Major Otelo que os levou para distribuição em determinados locais.

Funções Pós-25 de Abril

Após o 25 de Abril continuei colocado na Academia Militar, com as mesmas funções de “professor assistente” e instrutor de transmissões do Corpo de Alunos, onde permaneci até Dezembro de 1976.

Entretanto, aconteceu o 11 de Março de 1975, com todas as consequências que são conhecidas.

Por volta de Maio/Junho de 1975, fui convidado pelo Director da Arma de Transmissões (General Pereira Pinto) para ir frequentar o “Signal Officer Advanced Course” nos Estados Unidos (Fort Gordon) com começo em Janeiro de 1976. Aceitei e regressei em Agosto de 1976.

Entretanto, um mês antes de acabar o curso o Director da Arma de Transmissões convidou-me para ir para a Guarda Nacional Republicana, chefiar o Serviço de Transmissões, cargo que aceitei, e iniciei logo que cheguei dos Estados Unidos e onde permaneci até 1984.

O Processo Revolucionário em Curso

Entretanto, embora não esteja directamente relacionado com a história das transmissões, considero interessante referir uma situação que poderia ter afectado a minha acção no 25 de Novembro.

Durante o PREC, o General Spínola instalou-se numa quinta em Massamá. Entretanto, surgiu o “boato” (?) “relativo à ·matança da Páscoa” onde um dos visados seria o General Spínola e outros oficiais a ele ligados. Foi então elaborada (pelo Major Monge, professor na AM) uma lista de oficiais, cuja maioria era da AM, com o objectivo de durante a noite, por escala e em equipas de 2, fazer segurança física ao General. Com excepção da primeira vez que fiz equipa com o Major Folques, também colocado na AM, o meu parceiro de equipa passou a ser sempre o Major Marques Pereira (instrutor de equitação na AM).

Com o Major Folques, numa noite fria e de pouca visibilidade, deslocávamo-nos no carro dele e aconteceu que já no portão da quinta uma mota surgiu de repente com o objectivo de, com o farol. obter a matrícula do carro.

A partir dai, nas restantes vezes em que me desloquei a Massamá com o Major Marques Pereira, resolvi levar sempre o meu carro, mas com uma matrícula falsa feita por mim com cartão preto e branco. Não foi fácil resistir aos pequenos “insultos” do já falecido Marques Pereira (“para que é essa merda, Louro?”). Mas fui intransigente.

A verdade é que após o 11 de Março, o COPCON, dia após dia, foi levando presos todos os oficiais que constituíam a referida lista de escalas (excepto, o Maj Folques, o Louro e o Marques Pereira).

Se tivesse sido preso não poderia ter dado o meu contributo para o 25 de Novembro.

Passados anos, em várias ocasiões de conversas em grupo, o Marques Pereira referia que não tinha sido preso graças às matrículas falsas que o Louro colocava sempre no carro antes de sairmos para Massamá.

Preparação para o 25 de Novembro

Entretanto, e já com o Coronel Garcia dos Santos como Secretário de Estado das Obras Públicas, foi-se preparando o 25 de Novembro.
O Coronel Garcia dos Santos teve uma primeira reunião com os Capitães Louro, José Coutinho, o Maia de Fretas e o Oliveira Pinto (que estava na GNR) tendo ficado definidas as necessidades em meios de transmissões e as tarefas de cada um.

Seria utilizada a rede da BT/GNR (Brigada de Trânsito da GNR) com base em equipamentos de rádio portáteis Storno.

Eram necessários mais equipamentos de rádio para formar outras redes, mas já não podiam ser os TR-28 existentes na AM e que tinham sido utilizados para o 25 de Abril.

Foi então decidido contactar o Tenente-Coronel Cunha Lima que estava no DGMT e explicar a necessidade de obtermos uma determinada quantidade de equipamentos de rádio. Ele concordou e concluímos que a melhor maneira seria eu requisitar os equipamentos para a AM para instrução aos alunos. Assim, utilizei algumas requisições da AM e levantei do DGMT. por três ou quatro vezes, os volumes correspondentes aos equipamentos de radio de uma nova marca que recentemente tinham chegado ao Depósito (HARRIS RF-301A – Transreceptor militar HF, 100Watt, 26,8Kg). De todas as vezes que efectuei os levantamentos fiz o transporte dos equipamentos no meu carro, não para a AM mas para a minha casa em Carcavelos.

E/R HARRIS RF-301A (Autor: Hans, PA3ECT Putten GLD)

Em determinado dia foi marcada uma reunião, à noite, numa casa fora de Lisboa do Coronel Garcia dos Santos, onde iriamos estudar e sintonizar os referidos equipamentos. Para fazer o transporte dos equipamentos de uma só vez, o Capitão Coutinho, que tinha um carro grande, foi a minha casa e daí partimos directamente para a casa do Coronel Garcia dos Santos onde trabalhamos durante a noite, tendo lá ficado os equipamentos já preparados para utilização.

Um dia, o General Comandante da AM, General Pinto Soares, chamou-me ao gabinete e disse-me estar sabedor que por várias vezes tinha ido ao DGMT requisitar equipamentos de rádio para a AM e que estes não tinham dado entrada na arrecadação de material de transmissões da AM. Perguntou-me então onde é que eles estavam. Respondi de imediato que se encontravam na AM/Amadora, onde eu também dava aulas, até ter um transporte para a AM/Lisboa. Disse-me então que no dia seguinte de manhã iria à Amadora verificar se de facto os equipamentos se encontravam lá.

Quando saí do gabinete do General Comandante da AM telefonei ao Coronel Garcia dos Santos, tendo ficado assente que o Coutinho iria nessa noite buscar os rádios à tal casa fora de Lisboa e levá-los à AM/Amadora onde eu os receberia por estar de Oficial de Dia.

Entretanto, também avisei o Coronel Pereira Rodrigues (Misé) que era o Comandante da AM/Amadora, da ida do General Pinto Soares no dia seguinte de manhã e do que lá ia fazer.

De facto, nessa noite os equipamentos já ficaram na AM/Amadora e no dia seguinte o General Comandante da AM, acompanhado do Comandante da AM/Amadora fez a respectiva verificação.

Estou crente que o General graduado Pinto Soares, propositadamente me deu tempo para que a mudança pudesse ser efectuada.

Papel nas Operações do 25 de Novembro

No dia 25 de Novembro, o Coronel Garcia dos Santos veio-me buscar no carro e fomos para o Regimento de Comandos na Amadora, onde funcionou o Posto de Comando e ficou instalado o respectivo “Centro de Transmissões”. No dia 25 de Novembro e seguintes, foram-me atribuídas várias missões relacionadas com as transmissões e com o respectivo “Centro de Transmissões”. Foram então efectuados muitos contactos a fim de se poder avaliar a posição de vários oficiais da Arma e especialmente do Regimento de Transmissões.

Funções após as Operações

Como já referi, após o 25 de Novembro continuei colocado na Academia Militar, donde sai no fim de Dezembro para em 2 de Janeiro de 1976 partir para o Curso nos Estados Unidos.

Em Agosto de 1976 fui colocado na Guarda Nacional Republicana como Chefe do Serviço de Transmissões, onde permaneci até 1984.

(Títulos inseridos pela CHT)

Cerimónia do 1º aniversário da tentativa de golpe militar de 25 de Novembro, na AM, Amadora (Arquivo RTP)

1 comentário em “Testemunho sobre a Participação no Movimento dos Capitães e nas Operações de Transmissões

  1. Apoiado, Zé Louro. É bom recordar uma excelente causa, como foi o 25NOV75, que restituiu os ideaia de Abril ao país. Também estive no 25NOV 75, então regressado de Angola onde procedi à extinção das valências de Engenharia e de Transmissões (Regimento de Eng.ª de Angola e Agupamento de TM de Angola fundidas em nova Unidade dita Aquartelamento Conjunto ENG.ª/TM que comandei no Verão Quente de 75. Estinta esta Unidade em meados de OUT75, regressei ao continente acabando por me apresentar nso Comandos/Amadora por alturas do 25NOV75.

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