Autor : Coronel de Transmissões (Eng.º) José Tavares Coutinho (Dec1985)

Este texto constitui a minha resposta, mais ou menos directa, á questão posta pelo General Garcia dos Santos, em 1985, a alguns Oficiais da Arma de Transmissões: No 25 de Nov .. tal como no 25 de Abril, ocorreram algumas intervenções de natureza militar durante as quais se confrontaram, sobretudo, unidades de Exército e da Força Aérea. nomeadamente, os Paraquedistas. Como militar da Arma de Transmissões, e nessa qualidade, desempenhou algum papel naquelas operações? Qual? Descreva-o em pormenor:

la eu a caminho do serviço, no Estado-Maior do Exército (EME), quando ouço pela rádio que os Paraquedistas tinham ocupado Monsanto, feito prisioneiro o Brigadeiro Pinho Freire (General Graduado comandante da 1.ª Região Aérea) e outros oficiais do Estado-Maior e tinham ainda ocupado outras Bases. Contavam-se as unidades que estavam com os ocupantes em nome do “processo revolucionário em curso“. Nenhuma novidade ou convocação me apareceu até no meio-dia (estava no EME) fui almoçar tentando auscultar o que se seguiria paro além dos boatos que corriam.

Os Paraquedistas revoltam-se vítimas de criminosa manipulação (RTP Arquivos)

Um telefonema pelas três da tarde, vindo do Maia de Freitas ‘convoca-me‘ para eu ir ter nos Comando à Amadora, logo que possível, ou seja, imediatamente. Na mesma altura uma ordem do Chefe do EME a colocar o EME e todas as unidades militares de prevenção rigorosa. Desfardei-me, meti a farda num saco e dirigi-me à porta de saída. A porta estava já fechada. O Sargento de Dia diz-me que tínhamos entrado de prevenção e não podia sair. Disse-lhe que sabia e que, como pertencia e estava colocado nas Transmissões, o que só era em parte verdade, pois já estava colocado no EME nessa altura, tinha que ir para a minha unidade, para a Escola Prática de Transmissões, em Sapadores. Não argumentou e abriu-me a porta.

Chegada ao Posto de Comando do 25 de Novembro, no Quartel dos Comandos

Lá fui direitinho aos Comandos, na Amadora, sem qualquer incidente. Digo isto porque, naquela altura, não era anormal sermos mandados parar por uma qualquer patrulha de vigilância, a inquirir para onde nos dirigíamos. Quando chego, estava todo o “Estado-Maior Reaccionário” reunido e encontro o Maj. Oliveira Pinto com um rádio da GNR já instalado a seguir os acontecimentos na rede e com um telefone ao lado. Foi aí que me apercebi como é que as coisas iriam correr. O 115 ia funcionar.

Ainda estava eu a acabar de fardar-me e a ser “brifado” por ele sobre a rede montada, quando entra o Garcia dos Santos e me chama para ir à sala ao lado. Estavam o Ramalho Eanes, Tomé Pinto, Loureiro dos Santos, Jaime Neves, etc. todos com ar guerreiro e concentrado, que me dizem que eu tinha que ir com os Comandos do Jaime Neves a Monsanto para “desligar a emissão da televisão do Centro do Lumiar e transferi-la para o carro de exteriores da TI’ que estava já preparado para entrar em serviço em Belém.

À minha reacção foi dizer que nunca tinha entrado num centro emissor de TV e por isso não me comprometi a que conseguisse a transferência. Diz o Tomé Pinto:

  • A ligação vinda do Lumiar tem que ser desfeita, ainda que tenhas que cortar ou fazer ir pelos ares a antena;
  • Para isso basta cortar o cabo.

Deslocação para Monsanto e Confronto com os Páraquedistas

E aí vou eu com o Jaime Neves e os seus comandos. O Jaime Neves mete- me na segunda “Chaimite” (veículo blindado), logo a seguir à dele. Ia toda a gente armada até aos dentes como seria normal para uma operação destas, e eu, com uma única ferramenta, tinha um corta-unhas e as chaves do carro.

Pelo caminho houve uns disparos e uma comunicação via radio, vinda da primeira viatura, a ordenar aos condutores que nenhuma viatura parava. Mais tarde soube serem destinados os tiros a umas camionetas do J. Pimenta (construções) que tentaram impedir o caminho à primeira viatura.

Quando nos aproximámos da entrada pela messe de Monsanto e não parámos, eu pensava que o Jaime Neves iria parar junto do Centro Emissor da Televisão para me largar a mim e a um pelotão, mas ele continuou até à entrada do GDACI (Grupo de Detecção, Alerta e Conduta da Intercepção da Força Aérea) junto do mirante.

Olho para fora e vejo os Paraquedistas a três ou quatro metros de nós, deitados em posição de fogo, junto da cerca do arame farpado que bordeja a estrada, de armas apontadas para nós. Havia também alguns tanques, mais retirados, também apontados para a estrada, e outro armamento, tudo em tal posição de fogo tão próximo de nós que o primeiro disparo constituiria um verdadeiro massacre, tal a proximidade dos adversários e das viaturas, que pararam em coluna, mesmo nas suas barbas.

Ordem imediata para sair e se abrigarem.

Sai tudo de rodopio saltando e deitando-se nas bermas da estrada e por todo o lado onde houvesse abrigo, ficando também em posição de fogo, em frente os Páras.

A distância entre uns e outros resumia-se à estrada e às bermas. Aí uns dez quinze metros no máximo.

Eu caminhei em direcção ao local onde estava o Jaime Neves para saber quando me dava meios para voltar para trás e resolver a minha missão.

Ali estava ele em frente ao portão, à frente da sua viatura. A uns vinte ou trinta passos dele estava um canhão sem recuo, mesmo apontado na sua direcção.

Começou a falar com o pessoal que guarnecia esse canhão. Não ouvia o que dizia nem isso me preocupava. Avaliava a situação meio estonteado e senti um arrepio. Mentalmente despedi-me de toda a família, mas aceitei a situação como consequência dos acontecimentos.

Um sargento aproximou-se de mim e aconselhou-me a que me protegesse atrás do muro que rodeia a zona do mirante, o que fiz, colocando-se ele a meu lado.

Ouvi uma voz de fogo. Silêncio.

Nada aconteceu.

Aparece-me um jornalista. Pelo menos identificou-se como tal. Apareceu, quase de gatas, vindo da parte de baixo da estrada, a perguntar-me o que se iria passar. Mandei-o para o … outro lado, virei-lhe as costas e ali fiquei à espera do pior. Sentia que poderia ser o fim.

No meu entender, se houvesse um disparo seria o descontrolo total e um massacre para os dois lados. Àquela distância não havia tiro que falhasse, tão perto estavam uns dos outros.

Comecei a ouvir o Jaime Neves a dar ordens de reunir e formar a toda aquela gente que, pouco a pouco, começou a levantar-se dos locais e a correr para a entrada do GDACI, para junto dele, entrando imediatamente em formatura a três e pondo as armas no chão. Tão simples como isto. Foi o início da descompressão.

Já começava a escurecer.

Mais tarde soube que quem tinha dado ordem do fogo tinha sido o tristemente célebre Faria Paulino (oficial da Força Aérea) que eu bem conhecia da Academia Militar e da Guiné.

A Missão no Centro Emissor da RTP

O Jaime Neves andava num rodopio, a dar ordens para um e outro lado e a atender chamadas rádio até que, mais de uma hora depois, – assim me pareceu, pelo menos – consegui que me atendesse.

Deu-me um Alferes com o seu pelotão para irmos à televisão.

Deslocámo-nos a pé até junto do portão do Centro Emissor de Monsanto da RTP. O alferes, quando nos aproximámos, deu ordens para cercar o edifício e inspeccionar a zona, deixando um soldado comigo para qualquer emergência. Estava escuro como breu e não se descortinava nada para dentro do centro, para além da iluminação. Mas eu estava em pulgas para começar “a minha missão” tal tinha sido o sucesso da rendição anterior. Esperei aí cinco minutos e, como o alferes não aparecia, decidi dizer ao soldado que íamos entrar. Avancei na direcção da porta de entrada e ele seguiu-me.

Quando chegámos, tivemos de bater à porta que nos foi imediatamente franqueada. Entrámos e eu pergunto quem era o chefe. Um sujeito barbudo, que nos abrira a porta, diz-me que o chefe tinha saído de serviço e era ele que estava de serviço ao emissor.

Olho em volta e deparo com três televisores no topo de um repartidor, cada qual com uma emissão:

  • Num estava o meu amigo Duran Clemente, que eu conhecia bem da Academia e da Guiné e com quem ali tinha convivido bastante, naqueles tempos de reivindicação e discussão do futuro daquela terra. Com a barba à “revolucionário” e farda de combate, coisa com que nunca o tinha vestido na Guiné, estava a “mandar vir‘ qualquer coisa revolucionária;
  • No segundo corria o que me parecia ser um filme com o Danny Kaye (filme do cómico norte-americano). Digo que me parecia porque nenhum dos televisores tinha o som ligado;
  • No terceiro corria uma emissão que me pareceu ser de noticiários, com imagens sem sequência.

Apercebi-me imediatamente que era o Duran Clemente que estava no ar, mas perguntei qual das emissões era. Ele diz-me logo, antes de explicar fosse o que fosse, que não mexia nas emissões sem autorização do Lumiar.

Arquivo RTP

Eu olho novamente para o emissor e vejo ao fundo um rack de comutação. Era ali que se comutavam as emissões. MAS como? Não havia indicações percetíveis.

Digo-lhe que quem passava a dar ordens ali era eu e que queria comutar a emissão para o carro de exteriores que estava em Belém.

Argumenta imediatamente que o carro ainda não estava operacional e, à minha pergunta de como é que ele sabia, ele pega no telefone que estava ao lado do comutador e põe-se em contacto com o carro num instante e começa a falar. Tiro-lhe o telefone da mão e pergunto quem falava, identificando-me. Quando o interlocutor abre a boca eu reconheço imediatamente a voz do Capitão Canavilhas (oficial de Tm (Eng.º). Estava com gente conhecida. Ele confirma-me que o carro não está operacional e que me liga logo que possa, entrar no ar.

Entretanto tinha entrado o Alferes dos Comandos com mais dois ou três operacionais e estava a assistir à conversa.

Desligo e pergunto-lhe novamente como se faz a comutação e digo-lhe que quero aquela emissão no ar, apontando para o écran onde corria o filme com o Dany Kaye.

Ele repete que só o faz com autorização do Lumiar e pega novamente no telefone carregando numa tecla. Eu só tive tempo de o impedir já ele tinha dito uma ou duas frases, mas o suficiente para do Lumiar terem percebido que algo estava a acontecer em Monsanto.

Toca um telefone do outro lado da sala e eu grito que ninguém atende. Vejo o Clemente a ser avisado de qualquer coisa, pois volta a cabeça para trás para atender alguém. Volto a perguntar-lhe como se faz a comutação e imediatamente o alferes, sem dizer uma palavra, encosta-lhe a arma ao baixo-ventre. Digo-lhe eu:

  • Faça a comutação.
  • Bem assim eu faço tudo o que quiserem.

E retira um cabo dum jack enfiando num outro. E diz:

  • Pronto, já está.

Eu não sabia se estava ou não estava a comutação feita, pois continuei a ver o Clemente a falar e a arrumar a tralha, uns papéis, ou qualquer coisa no género.

Como confirmar se não tinha sido enganado? Lembrei-me de fazer um telefonema para alguém. Perguntei onde havia um telefone que ligasse à rede civil. Apontaram-me para um que estava sobre um balcão, longe do emissor, e disseram-me que tinha que marcar um número (julgo que o zero) para obter o sinal de rede.

Só me lembrava do número de minha casa. Liguei e perguntei à minha mulher o que estava a dar na televisão naquela altura. Diz-me que estivera a falar o Clemente, que ela conhecia, mas que de repente mudara para um filme com o Danny Kaye. Era só isso que queria saber, agradeci e desliguei-lhe o telefone a meio da primeira pergunta que ela estava a fazer.

O barbas não me tinha enganado.

Entretanto o Sargento estava a dar umas voltas pela sala e pela cave, a inspeccionar os aposentos. O Alferes diz-me que ia regressar ao GDACI com algum do seu pessoal e que me deixava o Sargento com mais três ou quatro Praças para qualquer emergência.

Espera e Alimentação

Eu fico à espera de que me digam de Belém quando podiam entrar no ar, tal como tinha sido previsto. O tempo vai passando e a certa altura vem um soldado perguntar-me quando é que íamos embora ou quando é que seriamos alimentados porque ele já não tinha almoçado e estava a sentir-se mal com o estômago vazio.

Eu pergunto a um indivíduo que ali estava a trabalhar se havia alguma cantina ali ou algum depósito de géneros onde se pudesse arranjar algo para comer.

Na realidade eu também não tinha comido nada desde o meio-dia e já eram bem onze horas.

Diz-me que na cave havia uma pequena cozinha e que talvez a cozinheira ainda lá estivesse.

Desço e falo com uma senhora muito simpática que me diz logo que tinha uma grande panela de sopa, pão e laranjas suficientes para sete ou oito pessoas aconchegarem o estômago.

  • Então e o pessoal de serviço?” Perguntou com simulados remorsos.
  • Eles já jantaram e não costumam comer nada antes de sair do serviço”.

Aquele soldado abichou logo um prato de sopa, um naco de pão e uma laranja. Os outros seguiram-no, um a um com o mesmo apetite. Não me recordo se o sargento também comeu, mas eu não resisti à mesma dose. E ainda sobrou muita comida.

Em conversa com o pessoal de serviço, soube que a emissão que estava no ar vinha do Porto, do Monte da Virgem. Eles já tinham cortado a emissão antes de nós, provavelmente quando o Clemente começou a abrir a boca.

Entretanto aparece o Saraiva Mendes, que era à altura Director Técnico e Operacional na televisão, para ver como corriam as coisas. Conversámos um bocado e ele ligou para Belém. O carro ainda não estava pronto e a emissão só seria transferida, para lá, ordens de Belém, quando o Presidente Costa Gomes fosse fazer uma comunicação ao país. Ele diz-me que vai para Belém ver como correm as coisas e que me diz de lã alguma coisa.

Também aparecem dois oficiais da Força Aérea, penso que majores, a oferecerem os seus préstimos. Desconfio sempre dos que aparecem “depois de” a oferecer os serviços. Agradeci e disse que estava tudo “nos conformes”. Estiveram um bocado e, como ninguém lhes dava “trela”, foram-se embora. Nunca soube quem eram.

Ali estava eu, sem nada para fazer, à espera que algo acontecesse.

A certa altura vem-me o indivíduo de barbas, com quem eu tinha argumentado a mudança de emissão perguntar-me se podia ir embora porque tinha a mulher grávida e não queria que ela ficasse aflita quando chegasse a hora do último autocarro e ele não aparecesse.

Disse-lhe que, enquanto houvesse emissão no ar, ninguém saía dali naquela noite e que, se ele quisesse, eu telefonaria para ela a avisar de que ele iria mais tarde. Ele não telefonava porque eu não deixava que ninguém comunicasse com o exterior.

Diz que não tem telefone em casa e que não tem confiança com qualquer vizinho para lhe pedir para dar o recado, mas que o último autocarro é à meia-noite e que depois não pode ir para casa porque não há mais transportes dali.

Algo se há de arranjar. Digo-lhe eu. E não o deixo sair.

Entretanto dizem-me de Belém que o carro de exteriores já está pronto e só aguardam ordens para o meter no ar. Que depois avisam.

Aparece, entretanto, um soldado que diz ser condutor e tem um jipe às minhas ordens para me levar para os Comandos, e que o sargento ficará responsável pela segurança do Centro.

Deviam ser umas três horas da manhã.

Pelo caminho, à entrada para a primeira rotunda para quem vem da Força Aérea, ainda houve um grupo de energúmenos que nos quis barrar a passagem, mas um soldado, com uma rajada para o ar, obrigou-os a saltar para o meio daquele mato, o que, durante a noite, e com aquela escuridão, só por acaso teriam saltado para o sítio certo.

Quando cheguei aos Comandos a excitação ainda ia alta, mas a alegria também era grande embora sem manifestações.

Sala de Comando – O Comandante da Operação e o Comandante da Força de Comandos brifam o Presidente da República/ Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas e o Primeiro Ministro

Depois de explicar resumidamente, na sala de comando, como tinham corrido as coisas, fui tentar dormir um bocado. Era um gabinete onde uns se deitavam no chão e outros descansavam sentados. Penso que ninguém pregou olho.

Epílogo: Revelações Posteriores

De manhã encontro o meu amigo Mendes da FA, que me diz que veio de Monsanto com o helicóptero com prisioneiros. E diz-me que, pelo menos um indivíduo, era dos que estavam na televisão.

Vou ver qual era, e o meu espanto é grande, ao ver o barbudo entre os presos. Perguntei-lhe o que se passara, mas não me deu qualquer explicação. Diz que também não sabia porque estava ali.

Fui saber o que se passara.

O Sargento, quando eu saí e ficou responsável pela segurança da casa foi fazer uma inspecção rigorosa a todos os cantos e descobriu uma arma de guerra. Quando começou a averiguar de quem era, chegou à conclusão que fora esse indivíduo que a trouxera para ali e a, escondera quando viu passar os Comandos para o GDACI.

Constou-me depois que pertencia às Brigadas ou coisa parecida. Não era casado nem tinha qualquer mulher com quem vivia que estivesse grávida. Compreendi finalmente a sua urgência em sair dali horas antes quando nenhum dos outros fez qualquer pretensão.

Só para terminar. Há pouco mais de um ano conheci um indivíduo, de nome Carmo Vicente, que me diz ser Sargento Páraquedista reformado e deficiente de guerra. Conversa puxa conversa e ele diz-me que estava em Monsanto quando os Comandos foram tomar a Base. Era o apontador do canhão sem recuo que estava em frente do portão principal.

A conversa que se seguiu não foi nada edificante, mas fiquei a saber que um Páraquedista só obedece a ordens de outro Páraquedista.

Os Comandos a desembarcarem das viaturas blindadas Chaimite V200