Imediatamente após o 16 de Março, analisadas, discutidas e identificadas as causas do fracasso e decidida, pelas cúpulas do Movimento, a forma de as ultrapassar, Otelo Saraiva de Carvalho desencadeou uma série de procedimentos no sentido de coligir todos os dados necessários para uma nova acção contra o regime. Elaborada a respectiva Ordem de Operações, esta foi entregue a Garcia dos Santos em 15 de Abril.

A respectiva “Ideia de Manobra” mencionava:

  • “Considera-se a cidade de Lisboa como o fulcro de toda a acção, visto que é nela que se concentram os poderes legais e os objectivos remuneradores para o cumprimento da missão e para as missões consequentes”.
  • “Na cidade do Porto, capital do Norte do País, as unidades da RMP [Região Militar do Porto] efectuarão uma acção em tudo semelhante”.

De seguida, eram fixadas as “missões atribuídas” às 32 unidades de todo o País, distribuídas por três sectores, Norte, Centro e Sul, as respectivas “instruções de coordenação” e os detalhes relativos ao “comando, ligação e transmissões”.

Tratava-se, portanto, de uma operação do tipo eminentemente clássico, para a qual era necessário preparar todo o esquema de ligações e fornecer os equipamentos de que, eventualmente, as unidades não dispusessem. Neste aspecto, mais uma vez se recorreu às disponibilidades da Academia Militar através do capitão de Tm Silva Louro, que voltou a entregar ao major Otelo, tal como no 16 de Março (Golpe das Caldas falhado), os emissores-receptores Racal TR-28 de que as unidades necessitavam. Estes equipamentos eram largamente utilizados na guerra e, portanto, bem conhecidos do pessoal que com eles trabalhara em África. Ora, muitos militares que intervieram nesse dia nas operações tinham essa experiência da guerra. Este aspecto contribuiu também, sem dúvida, para o bom funcionamento das transmissões.

Junto do edifício que serviu de posto de comando das operações, no Regimento de Engenharia 1 (RE 1) na Pontinha, e no seu exterior, durante o final da tarde foram também instalados alguns E/R Racal TR-28, com as respectivas antenas dipolo, que estabeleciam as ligações com as unidades no terreno. Este trabalho foi executado no final da tarde (depois do toque de ordem) do dia 24 de Abril.

Um outro aspecto a salientar na intervenção das transmissões no 25 de Abril é o que se relaciona com técnicas de guerra eletrónica, seja no campo das medidas activas, seja no das passivas. E a primeira questão que se colocava, no imediato, aliás apontada no próprio “Anexo de Transmissões á Ordem de Operações“, era o facto de, quer as forças amigas quer as “inimigas” utilizarem exatamente o mesmo tipo de emissores-receptores, ainda por cima todos de canais cristalizados com as mesmas frequências.

Tudo, portanto, estava facilitado, para ambas as partes, em matéria de interceção, intrusão e empastelamento. Estas possibilidades, do lado das forças amigas, foram mesmo utilizadas, em especial no que se refere às duas primeiras. Chegou até a ser efectuada uma intrusão na rede de uma unidade inimiga, tentando fazê-la regressar ao seu aquartelamento. Contudo, não chegou a saber-se se esta tentativa foi ou não coroada de êxito. Mas, no mínimo, causou alguma perturbação, o que não deixava também de constituir um objectivo.

Terminal radiotelefónico
HW-23 do CNT
(ligações ultramarinas)

Ao elaborar a Ordem de Operações, Otelo Saraiva de Carvalho manifestou também, como necessidade de transmissões, o estabelecimento de uma ligação rádio e telefónica com a Direcção do Serviço de Telecomunicações Militares (STM) para, por seu intermédio, se poderem efectuar contactos com os três teatros de operações, em África.

O STM, serviço responsável pelas ligações de carácter permanente entre todas as Unidades do Exército, estava instalado no Quartel dos 4 Caminhos, em Sapadores, Lisboa. Garcia dos Santos, valendo-se das suas relações e conhecimentos com o pessoal daquela unidade e, sobretudo, da confiança que neles depositava, transmitiu-lhes o que se estava a passar e as necessidades que existiam. Uma delas, porventura a mais importante, era a da ligação, garantidamente segura, entre o Posto de Comando no RE 1 e o STM.

Por feliz coincidência, ia iniciar-se uma obra de lançamento de um cabo telefónico entre o STM e o Colégio Militar. De imediato o comprimento do cabo foi duplicado, ficando o previsto no Colégio Militar e o restante seguiu, com grande celeridade (com trabalho nocturno e reforço de alimentação dos guarda-fios) até ao RE 1, onde chegou e ficou pronto a funcionar no dia 24 de Abril às 17h30. (As Tm na Preparação do 25ABR74: O Trajecto e o Lançamento do Cabo Telefónico para o Posto de Comando do MFA – ver artigo)

A existência desta ligação ponto-a-ponto entre o Posto de Comando e a EPTm (Escola Prática de Transmissões), com um telefone em cada ponta, permitiu a passagem, em permanência e tempo real, de todas as informações obtidas através das escutas aos telefones militares e às redes rádio das forças “inimigas”. No torreão da EPTm, onde se encontrava instalado o centro de intercepção, foram escutadas as redes da Direcção Geral de Segurança (ex-PIDE), da Legião Portuguesa, da Guarda Nacional Republicana e da Polícia de Segurança Pública. Na central telefónica do Centro Nacional de Transmissões, na Escola Prática de Transmissões, foram escutados os telefones militares dos Ministros da Defesa e do Exército, do Subsecretário de Estado do Exército e do Chefe do Estado-Maior do Exército.

Sala de Teleimpressores no Centro Nacional de Transmissões (CNT)

Estiveram empenhados nestas imensas tarefas vários oficiais do QP e milicianos, sargentos e praças da EPTm/STM. Foram eles (por ordem alfabética do último apelido): os capitães Pinto de Castro, Cruz Cordeiro, Tavares Coutinho, Veríssimo da Cruz, Oliveira Dias, Maia de Freitas, Pena Madeira, Simões Roque e Fialho da Rosa, os alferes milicianos Namora de Freitas e Cabral da Silva, os sargentos Castanheira, Cláudio Marques, Mineiro, Sapateiro e Tomé, o furriel miliciano Cedoura e o cabo Acácio.

Para além dos meios estritamente militares, o posto de comando dispunha ainda de ligação directa através de vários telefones civis. Se estes, por qualquer razão, estivessem impedidos ou inacessíveis, havia como alternativa outros telefones civis exteriores ao posto de comando (designados por Centros Auxiliares de Ligação – CAL) onde se encontravam estafetas que se encarregariam de passar quaisquer informações para o posto de comando. O “Anexo de Transmissões” à Ordem de Operações, na alínea 5. Comando e Transmissões, incluía todos os detalhes relativos a estas possibilidades.

Esta diversidade de meios de ligação do Posto de Comando, instalado num edifício pré-fabricado no RE 1 na Pontinha, concedia aos oficiais que lá se encontravam todos os contactos de que necessitavam para a rápida tomada de decisões e para o controlo das várias situações que se lhes foram apresentando e surgindo. Eis alguns exemplos:

  • Conhecia-se, no Posto de Comando, em permanência, a localização e o ponto da situação do cumprimento da missão de cada uma das Unidades intervenientes nas operações;
  • Tal conhecimento permitia manter ou alterar, com oportunidade, o que fosse necessário dessas situações. Foi o caso, por exemplo, do Esquadrão da Escola Prática de Cavalaria comandado pelo capitão Salgueiro Maia, a quem foram dadas todas as ordens e instruções necessárias para se deslocar para o Largo do Carmo, tomar o Quartel da GNR e aprisionar as entidades do regime que nele se tinham refugiado;
  • Conheceram-se, em permanência, através da ligação telefónica estabelecida com o Estado-Maior da Armada, operada pelo comandante Victor Crespo, no Posto de Comando, as intenções da fragata Almirante Gago Coutinho, em evoluções no Rio Tejo, de alvejar as unidades do Exército estacionadas no Terreiro do Paço. Por essa mesma ligação telefónica, informou-se aquela fragata que a Bateria de Artilharia de Vendas Novas, posicionada no Cristo-Rei, tinha as peças apontadas para aquele navio e que, qualquer atitude ofensiva implicaria o seu imediato afundamento;

Vista do Terreiro do Paço para o NRP Almirante Gago Coutinho no 25 de Abril

  • Conheceu-se, igualmente através desta ligação telefónica, o momento e a forma como as entidades do regime presentes no Terreiro do Paço levaram a cabo a fuga do edifício em que se encontravam através de um buraco aberto na parede desse mesmo edifício.

Para estas e outras ocorrências surgidas durante a madrugada do 25 de Abril foi sempre possível encontrar, com oportunidade e rapidez, a resposta adequada, por duas razões:

  • A primeira, porque entre os oficiais do MFA (Movimento das Forças Armadas) que se encontravam no Posto de Comando (Otelo Saraiva de Carvalho, Victor Crespo, Sanches Osório, Fischer Lopes Pires, Garcia dos Santos e Luís Macedo) existia grande confiança, total comunhão de objectivos, profunda camaradagem e uma completa entrega à missão que estavam a cumprir;
  • A segunda, porque sentiam ter, no exterior e para além do pessoal empenhado directamente na parte operacional, um apoio sem limites e sem condições de todo o pessoal das transmissões que montara e operava os meios que tinham sido postos, pelo STM, em permanência, ao seu dispor.

As preocupações de segurança, de disciplina nas redes, de duplicação de meios e de alternativas de canais de ligação, sendo questões básicas e elementares no funcionamento de quaisquer transmissões militares, neste caso concreto justificavam-se amplamente e por maioria de razões.

Aliás, a escuta de uma conversa telefónica entre o Ministro da Defesa e o Ministro do Exército, interceptada pelas 03h31, em que o primeiro informava o segundo que o Presidente da República iria para Tomar no dia seguinte “com a habitual falta de segurança”, mostra à evidência que aquelas entidades desconheciam totalmente que, àquela hora, todas as unidades do MFA estavam já na rua a caminho dos seus objectivos, mantendo uma total segurança e disciplina nos seus meios de ligação.

O facto de o PC da Pontinha ter funcionado perfeitamente durante o golpe do 25 de Abril, não deve fazer esquecer que a sua capacidade de ligação à EPTm – essencial no decurso do golpe – acabou por ficar altamente dependente do lançamento do cabo telefónico, feito à última hora, à revelia do Comando da EPTm. Só o esforço, competência e dedicação do pessoal da Arma deram solução a este problema que em situação normal de trabalho não estaria concluído a tempo.

Sem o cabo telefónico, montado à última hora, o PC na Pontinha seria praticamente inviável. Se a operação de montagem do cabo falhasse, a alternativa seria a EPTm ser o PC principal da operação, o que poderia ter criado um problema de difícil solução. Ainda assim, a vulnerabilidade do cabo aéreo lançado foi muito grande, o que poderia ter posto em causa a sua operacionalidade, assim como a do próprio PC na Pontinha.

Em relação às Informações, o PC da Pontinha tinha grande supremacia. De facto, conheceu sempre em tempo real as intenções e medidas tomadas pelo “Inimigo”, que por sua vez se encontrava perfeitamente cego e surdo, porque o MFA tinha tomado posse do sistema essencial de transmissões do Exército. A EPTm foi, também, o serviço de informações do PC da Pontinha, transmitindo rapidamente as informações colhidas, que o PC explorava de imediato, antes que as ordens do lado contrário pudessem ser cumpridas. No 25 de Abril, o MFA ganhou a “guerra da informação”, o que foi decisivo para o sucesso do golpe e onde a EPTm e o Serviço de Telecomunicações Militares (STM) desempenharam um papel fulcral.

A concessão à EPTm da Ordem da Liberdade, pelo papel que desempenhou no 25 de Abril tem, assim, cabal justificação.

Representação do Posto de Comando do MFA

(Exposição da Fundação Portuguesa das Comunicações)

Fonte Impressa: CHT, “As Transmissões Militares, da Guerra Peninsular ao 25 de Abril”, Lisboa 2008. Autores do Projecto: General Garcia dos Santos, Tenente-General Pereia Pinto, Major-General Pedroso de Lima, Tenente-Coronel Jorge Golias. Coordenador: Tenente-Coronel Aniceto Afonso. Colaboradores Principais: Coronel Carlos Falcão, Corone Costa Dias, Coronel Lopes Canavilhas. Apoio da Fundação Portugal Telecom.