Autor : Major-General (Eng.º) José Manuel Pinto de Castro (Fevereiro2007, revisão Novembro2025)

Testemunho solicitado pelo General Garcia dos Santos, Presidente da Comissão de Histórias das Transmissões Militares.

Tendo em vista satisfazer o solicitado para a recuperação da memória dos acontecimentos do 25 de Abril sobre as Transmissões, venho apresentar o pequeno texto que se segue, embora alertando desde já para o facto de que, devido a já não me lembrar muito bem da maioria dos acontecimentos, e por não ter possibilidade de recuperar a curto prazo os dados da altura que porventura tenha no meu arquivo morto, as informações que descrevo são necessariamente pouco precisas e relativamente reduzidas, pelo que deverão ser forçosamente confrontadas com outras descrições.

Envolvimento Inicial e Preparação

A minha adesão resultou do contacto com o Capitão Pinto Soares, com quem me dava bem devido á nossa ligação na equipa de mesa alemã da Academia Militar. Ele telefonou-me para participar em várias reuniões restritas em casa dele e de outros camaradas, e na sequência disso, passei a ser o contacto das Transmissões porque era necessário haver elementos de Transmissões na futura Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas (FMA).

Nas reuniões em que participei em casa de camaradas, o grupo era geralmente restrito. Lembro-me do Otelo, Vasco Lourenço, Pinto Soares, Victor Alves, Sousa e Castro, Simões de Artilharia, Figueira da Arma de Transmissões (Tm) lembro-me do Fialho da Rosa, Pena Madeira, o Veríssimo da Cruz, o Ferreira da Silva, entre outros. Das reuniões alargadas, estive presente na reunião em Cascais, organizada pelo Sanches Osório na sua casa, que contou com mais uns 14 camaradas de Tm e noutra em Santarém, etc.

Atuação no 25 de Abril

No processo de preparação do 25 de Abril, a minha função principal foi ser o contacto das Transmissões, sempre em articulação com o Pinto Soares. Posteriormente, desempenhei o papel de Delegado das Transmissões na Comissão Coordenadora do MFA, reportando à Escola Prática de Transmissões (EPT), em Lisboa, o que se ia passando

Durante a noite de 24 de Abril, dirigi-me para a EPT, juntamente com a maioria dos Capitães da Unidade, alegando à minha esposa que estaria de serviço. A missão atribuída a mim e ao Capitão Carlos Alves consistia em estabelecer uma ligação em HF com o Regimento de Transmissões no Porto, utilizando o equipamento E/R RF-301, instalado no Laboratório de Electrónica da EPT. A ligação só deveria ser ativada após a hora H, mas, ao tentarmos operar o rádio, o amplificador de potência não funcionou. Apesar das tentativas de escuta, o sistema revelou-se inoperante

Como já nada poderíamos fazer ali, decidimos ir para a Central Telefónica onde estava uma série de Capitães a fazer escutas nas linhas da Central e onde as chamadas eram em grande quantidade. Dos Capitães, estavam presentes o Fialho de Rosa, o Madeira, o Veríssimo da Cruz, etc.

Como era habitual, os órgãos de comando do Governo, aos vários níveis, transmitiam opiniões, pareceres e ordens pelo telefone, o que permitiu que todo o fluxo de Comando e Controlo do Exército passasse e fosse controlado ali. Como as chamadas eram imensas, todos os elementos que ali estavam, escutavam sempre uma chamada que depois transmitiam para o PC do MFA na Pontinha. Com essa acção sabia-se primeiro que uma Unidade Subordinada das Forças do Governo qual era a ordem que ela ia receber.

Episódios Relevantes Durante a Operação

Durante a Operação do 25 de Abril, houve algumas chamadas que foram intersectadas, e que pela sua importância devem ser relatadas pelos camaradas que as apanharam. Ao que parece, não se conservou toda a informação recebida no PC do MFA na Pontinha.

Lembro-me, por exemplo, de uma chamada entre o Presidente do Conselho de Ministros, Prof. Marcelo Caetano (MC), e o CEME, General Andrade e Silva, quando o primeiro já estava no Quartel do Carmo e o segundo no Ministério do Exército, no Terreiro do Paço, onde a conversa era mais ou menos a seguinte:

MC – “então Sr. General, isto é que é o tal movimentozeco sem importância facilmente controlável?”

General – “Não há problema Sr. PM. A situação vai ficar controlada dentro em breve. Já tenho planeado um envolvimento das tropas revoltosas no Terreiro do Paço, pois vou mandar avançar o RC 7 que vem pela 24 de Julho, mais uma Unidade da GNR que desce do Carmo e entra pelas ruas do Norte e a Fragata Gago Coutinho que se posicionará no Tejo Frente ao Terreiro do Paço pronta a bombardear os revoltosos se não se renderem.”

Já não me lembro do resto da conversa, mas lembro-me que ainda as ordens para os vários comandos (que também foram sucessivamente intersectadas) não tinham chegado aos mesmos e já o PC/MFA estava a reagir

Antes mesmo o Comando da Armada não tinha retransmitido a ordem para a Fragata cumprir a missão, e já Vendas Novas estava a receber ordem para posicionar uma Bateria no Cristo Rei preparada para abrir fogo, “à Ordem”, sobre a Fragata se fosse caso disso.

Assim, quando a Fragata se posicionou, foi informada de que estava sob a mira da Artilharia posicionada no Cristo Rei e seria batida pelo fogo da mesma se não definisse de que lado estava. O seu Comandante declarou então que estava pelo MFA.

Ainda o RC7 não tinha recebido Ordem para avançar sobre o Terreiro do Paço e já o Capitão Salgueiro Maia estava avisado do que ia acontecer, o que lhe permitiu ir ao encontro da Unidade para evitar um confronto no Terreiro do Paço. Desse encontro, como se sabe as tropas do RC7 não obedeceram ao seu Comandante e passaram-se para o lado do MFA. A GNR, por sua vez, nunca chegou ao Terreiro do Paço, pois, entretanto, os seus militares foram rodeados pela população accionada pelos partidos políticos o que a impediu de chegar às suas posições.

Este é um exemplo da influência decisiva das Transmissões que permitiu evitar o confronto directo das Forças, pois possibilitou sempre a antecipação das acções do CMD do MFA.

Outro episódio interessante foi durante a fuga do Ministro do Exército. Estava todo o pessoal numa azáfama a fazer escutas às várias chamadas que se sucediam às … horas da madrugada sem saber bem como é que se estavam a passar os acontecimentos militares no país, especialmente na zona do Terreiro do Paço, que era o ponto fulcral dos acontecimentos. De repente, alguém que estava a escutar uma chamada deu um grito de alegria. Acabava de intersectar uma chamada de uma senhora para o Ministério do Exército, que dizia com ar autoritário que queria falar com o Sr. Brig … ou Min. Do outro lado da linha, no Ministério, alguém lhe respondeu que a personalidade em causa não podia atender. A senhora insistiu com um tom mais autoritário ainda, recebendo de novo a mesma resposta. Então a Senhora diz cada vez mais histérica já aos gritos:

“Quem fala daí? Sabe com quem está a falar? Eu sou a mulher do sr. … ? e exijo que o chame imediatamente o meu marido…” Em resposta ouve-se retorquir do outro lado da linha uma voz sempre calma e educada: “minha senhora, daqui fala o comandante da Força do MFA. Eu gostava realmente de lhe ser simpático, mas acontece que o seu marido acaba de fugir com o senhor ministro por um buraco feito na parede para o Ministério da Marinha…”.

Bem, nessa altura ficou-se a saber que a situação estava definitivamente resolvida para o lado do MFA e a explosão de alegria foi imensa.

Missões Após o 25 de Abril

Após o 25 de Abril integrei a equipa militar responsável por analisar e desmantelar a Legião Portuguesa, na Penha de França, onde constatei a existência. de uma rede rádio HF antiga, cobrindo todo o território continental, e algumas redes móveis baseadas em equipamentos Storno. Posteriormente, fui integrado na equipa militar liderada pelo Major Eanes na administração da RTP, exercendo funções de adjunto do Diretor Técnico

Na RTP, como o lugar era de desempenho essencialmente técnico não tive qualquer intervenção política. Estiveram lá colocados, também, o Major Saraiva Mendes como Director Técnico, o Cap Roque como Chefe da Cenografia e o Cap Canavilhas como Chefe dos Meios Operacionais. Para além das funções técnicas, participávamos nas reuniões de Direcção e podíamos opinar e votar nas decisões da Direcção que muitas vezes eram do âmbito do Pessoal e do âmbito Político. Muitas vezes tive que participar em plenários do Pessoal acompanhando ou substituindo o Director Técnico.

Contexto do PREC e do 25 de Novembro

Antes do 25 de Novembro foi um período em que a equipa militar da RTP estava quase sempre demitida em solidariedade para com o Presidente da Administração, o Major Eanes, face às frequentes tentativas de intervenção do Ministro da Comunicação Social, Cor. Jesuíno, na programação da grelha de programas. Estes acontecimentos culminaram mesmo com a demissão em definitivo do Major Eanes daquele cargo.

Entretanto, o Major Eanes montou o QG da reacção ao golpe, que já se sabia que estava em preparação, no Quartel dos Comandos, na Amadora. Havia reuniões periódicas com o Director Técnico onde eu participava, com a finalidade de obter formas de reacção técnica ao eventual assalto e controlo dos Estúdios do Lumiar pelas Forças Golpistas.

Nessas circunstâncias, uma das principais acções seria anular a emissão vinda do Lumiar para os emissores de Monsanto via Feixes Hertzianos que veiculariam o sinal para o resto do País. Lembro-me que uma das medidas extremas previstas, seria a de anular o feixe entre o Lumiar e Monsanto com um tiro na corneta da parabólica que fazia o link.

Não desempenhei nenhum papel nas operações do 25 de Novembro. Durante o golpe toda a equipa militar que estava no Lumiar foi detida pelas Forças Golpistas Comandadas pelo Capitão Clemente. Eu e o Major Saraiva Mendes, não chegámos a ficar detidos porque não nos encontrávamos lá nessa altura. Eu ia a entrar nos Estúdios quando se tinha acabado de dar o assalto e já não cheguei a entrar. Após o PREC fui colocado na EPT na chefia do Serviço de Feixes Hertzianos e como Instrutor de Educação Física.

Considerações Finais

A experiência enquanto elemento da Arma de Transmissões teve influência na minha participação na Legião Portuguesa porque era o único elemento militar da equipa capaz de analisar o sistema de Transmissões existente. Na RTP teve porque os militares de Transmissões eram os únicos capazes de dialogar em termos técnicos com o pessoal técnico da RTP.

Momentos como a escuta de comunicações críticas durante o 25 de Abril evidenciam o papel fundamental das Transmissões na antecipação e controlo dos acontecimentos, contribuindo para evitar confrontos e consolidar a vitória do Comando do MFA.

Lisboa, 14 de fevereiro de 2007 (revisão Nov2025)

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