Faleceu no passado dia 12 de Setembro de doença cardíaca. Partilhei com ele o último ano da sua Comissão na Guiné-Bissau e cito-o no livro “A Descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos Capitães”, de que vai sair agora a 3.ª edição. Estávamos ambos colocados no Agrupamento de Transmissões em Bissau e tínhamos casas contíguas na então av. Arnaldo Shultz, no centro de Bissau. Por isso houve entre nós um grande convívio.

Agrupamento de Transmissões na Guiné-Bissau, anos 70 (Autor: Manuel dos Neves Santos)
Missão na Guiné Portuguesa – Contributos na Guerra Electrónica
O Capitão Coutinho comandava a Companhia de Transmissões que fazia a guarnição do Agrupamento e dava alojamento aos passantes que vinham do mato ou que, acabadas as comissões, ali aguardavam a chegada dos navios de regresso à Metrópole. Ou seja, tratava-se de uma Companhia heterogénea que exigia um comando ajustado sob pena de ser um foco constante de perturbação. O José Coutinho tinha o perfil adequado a esta missão e ia resolvendo os problemas que lhe surgiam com a sua proverbial boa disposição.
Mas, para além desta responsabilidade de quartel tinha a seu cargo uma missão técnica de grande importante e no âmbito da guerra electrónica: a radiolocalização de postos emissores do IN. E fê-lo com a sua habitual competência. Montou um radiogoniómetro Telegon num helicóptero e escutou postos emissores do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Determinou a sua localização, mas surgiu um problema: a estrutura metálica do heli introduzia distorção do resultado. Teve de estudar a introdução de factores de correcção no resultado final e fê-lo com acerto. Algumas das suas conclusões foram passadas ao comando-chefe para informação e consequente acção das tropas operacionais.
O Agrupamento de Transmissões e o Movimento dos Capitães
O Agr Tm era a unidade de reunião dos capitães que ali começaram a conspirar contra o Regime. Foi ali que se fizeram as primeiras reuniões que juntaram capitães como Carlos de Matos Gomes, Duran Clemente, Jorge Alves, José Manuel Barroso, o José Coutinho e eu próprio. Foi ali que se fez a reunião onde se apelou pela primeira vez para a revolução armada (intervenção minha e arranjo da sala de reunião pelo Coutinho). Todos estes e mais uns 40 capitães (dentre eles Otelo, Salgueiro Maia e Faria Paulino) assinaram a histórica Carta de Bissau, o primeiro documento escrito do MOCAP, movimento dos capitães, no dia 18 de Agosto de 1973.

Alferes Milic. Tm Vasconcelos, Cap Tm Coutinho, Ten-Coronel Estado-Maior Reis, Cap Tm Golias
Participação no 25 de Abril e 25 de Novembro
O então capitão Coutinho esteve nos primórdios do Movimento, acabou a sua comissão e foi colocado na então Escola Prática de Transmissões e ali participou nas escutas no dia 25 de Abril de 1974. Juntamente com os então capitães Silva Louro e Maia de Freitas esteve na equipa muito fiel ao Gen Garcia dos Santos e participou em algumas operações que lhes foram determinadas e que constam do livro As Transmissões Militares desde a Guerra Peninsular ao 25 de Abril. Uma sua última missão, nas acções do 25 de Novembro de 1974, foi a de acompanhar as forças de comandos que desalojaram os paraquedistas de Monsanto, tendo sido o responsável pelo corte da emissão da RTP onde falava o capitão Duran Clemente e passado para Lisboa a emissão do Porto onde estava no ar um filme do Danny Kaye.
Última Homenagem
Durante muitos anos, esteve numa agência da NATO em Bruxelas, onde acolheu diversos camaradas em trânsito, fornecendo apoio logístico para inúmeras exposições do camarada pintor Coronel Eng.º José Maria Fernandes Marques (José de Guimarães).
O funeral de José Coutinho, realizado em 16 de setembro, reuniu muitos dos seus amigos e camaradas mais próximos. Todos sentiram a ausência do conforto da sua presença e relembraram a sua permanente boa disposição. Que descanse em paz!

Guiné-Bissau 1972. Festa de Natal do Agr Tm. Oficiais de Tm: Capitães Golias, Coutinho, Pinho de Almeida e TCor Mateus da Silva

