Autor : Capitão de Transmissões (Eng.º) Pedro Marques
J3 Cyber Ops Officer /EUTM-MOZAMBIQUE

FONTE: Texto publicado em “A Mensagem 2024”

Boletim informativo do Regimento de Transmissões. Porto.

Enquadramento

Figura 1 – Países que atualmente
representam a EUTM-MOZ

Devido ao agravamento da instabilidade securitária causada pelos ataques insurgentes na região de Cabo Delgado, em Moçambique, e à subsequente crise humanitária, o Conselho da União Europeia (UE) decidiu implementar uma missão não executiva, designada European Union Training Mission – Mozambique (EUTM-MOZ).

Esta missão tem como objetivo apoiar as Forças Armadas e de Defesa de Moçambique (FADM) através da formação militar de 11 Quick Reaction Forces (QRFs), com o intuito de desenvolver capacidades sustentáveis para proteger a população civil e restaurar a segurança em Cabo Delgado, sempre em conformidade com os princípios do direito internacional humanitário e os direitos humanos [1].

A EUTM-MOZ é composta por militares e civis de países da UE, com efetivo máximo previsto de 120 pessoas, contando atualmente com a participação de 11 países (figura 1). Portugal, como membro da UE, contribui com 60 militares, provenientes dos três ramos das Forças Arma- das. Além disso, Portugal é a Lead Nation, tendo assumido o comando da Força da Missão da EUTM Moçambique em setembro de 2021 (brigadeiro-general Nuno LEMOS PIRES).

Arquitetura CSI na EUTM-MOZ

A fim de garantir o Comando e Controlo (C2) e proporcionar ao Mission Force Commander a liberdade de manobra na área de operações em Moçambique, foi implementada uma arquitetura de Comunicações e Sistemas de Informação (CSI), utilizando tecnologias de comunicações, por satélite, rádio móvel e fibra ótica, conforme é possível visualizar na figura 2. A ligação principal entre a EUTM-MOZ e o escalão superior, o Military Planning and Conduct Capability (MPCC), é estabelecida por meio de dois links satélite[Implementação da Arquitetura CSI na EUTM-Moçambique [Artigo Maj Tm Fábio Silva]].

A nível operacional e tático, foi implementada uma rede IP não classificada entre o Mission Force (MF) Headquarters (HQ) Maputo e o HQ Chimoio, oferecendo serviços como Internet, VoIP, File Share, Remote Authentication Dial In User Service (RADIUS), Monitorização através do Zabbix (open source monitoring software tool), entre outros.

A arquitetura CSI também inclui uma rede de rádio para comunicação entre os HQs e os Campos de Treino, com estações base interligadas por IP, permitindo a monitorização de rádios portáteis. Em situações mais complexas, como catástrofes naturais, a EUTM-MOZ utiliza telefones satélite e ligações satélite portáteis.

Figura 2 – Arquitetura CSI na EUTM-MOZ

O Papel do Oficial de Operações de Ciberdefesa na EUTM-MOZ

No âmbito da missão da EUTM-MOZ, a Ciberdefesa (CD) assume uma importância essencial, com a crescente sofisticação das ciberameaças no domínio do ciberespaço. Estas ameaças podem compro- meter os objetivos da missão através do acesso indevido aos sistemas CSI e à segurança da informação. Por forma a mitigar as vulnerabilidades dos sistemas CSI e garantir a sua resiliência, foi implementada uma estrutura de CD.

Esta estrutura é liderada pelo J3 Cyber Ops da EUTM-MOZ, cuja responsabilidade abrange a coordenação e liderança das atividades de ciberdefesa, garantindo que todos os riscos sejam tratados com a máxima seriedade.

Além desta responsabilidade o J3 Cyber Ops tem como importantes contributos para a missão, os seguintes:

  1. Liderar e gerir a estrutura de CD na missão da EUTM-MOZ, sendo responsável pela coordenação de todas as operações de CD;
  2. Apoiar na implementação de medidas para prevenir, detetar e responder a incidentes de CD. Em caso de necessidade coordenar ações de recuperação, por forma a minimizar o impacto da ameaça;
  3. Responsável pela monitorização continua do ciberespaço, fundamental para antecipar e mitigar riscos para a informação e sistemas CSI da missão;
  4. Implementar e atualizar os standards operating procedure (sop) no domínio da CD, garantindo que todos os membros da missão sigam um conjunto claro de normas e práticas seguras;
  5. Contribuir para consciencialização das ameaças existentes através da elaboração de um quadro semanal das ameaças CD bloqueadas pela estrutura de CD da missão;
  6. Periodicamente, ou quando necessário, realizar ações de formação na área de CD, assegurando que todos os membros da missão recebem as competências necessárias para executar as melhores práticas no domínio do ciberespaço, mitigando dessa forma a exposição à ameaça;
  7. Além das atividades dentro da missão, o J3 Cyber Ops apoia na formação de CD às FADM, contribuindo na capacitação e conhecimento técnico das FADM na área de CD.

Conclusões

A EUTM-MOZ desempenha um papel fundamental na formação e fortificação das capacidades de defesa de Moçambique, com o objetivo de proteger a população civil e restaurar a segurança na província de Cabo Delgado.

No entanto, os objetivos da EUTM-MOZ para não serem comprometidos através das ciberameaças, existe a necessidade de estar implementada uma estrutura CD para proteger os sistemas CSI e garantir a integridade e confidencialidade da informação da EUTM-MOZ.

A função de J3 Cyber Ops, desempenha uma função de extrema importância na coordenação e liderança dessa estrutura CD, através da implementação de medidas para prevenir, detetar e responder a ameaças do ciberespaço. A importância da função não fica só pela sua componente técnica de execução, mas também no apoio ao desenvolvimento da capacidade CD das FADM.

Síntese Biográfica do Autor


Após concluir o Mestrado em Engenharia Eletrotécnica Militar em 2017, iniciou a sua atividade como Oficial Engenheiro de Transmissões. Comandou o Pelotão de Transmissões na Companhia de Transmissões da Brigada Mecanizada, comandou a Companhia de Transmissões do Batalhão de Transmissões do Exército e foi adjunto do G6 no Comando das Forças Terrestres. Participou em missões internacionais, atuando como Oficial de Transmissões na NATO Resolute Support no Afeganistão (2019) e como J3 Cyber Ops Officer na missão da União Europeia em Moçambique – EUTM Mozambique (2024). Actualmente, está a chefiar o Módulo CSI da 8.ª Força Nacional Destacada para a Roménia que está na fase de aprontamento da Força.