1. ENQUADRAMENTO
A República Islâmica do Afeganistão situa-se no Sudoeste Asiático, ocupa uma superfície de 652 230 km2 e faz fronteira com o Paquistão (Sul e Sudeste), com o Irão (Oeste), com o Turquemenistão, o Usbequistão e o Tajiquistão (Norte), e com a China (Nordeste). As cidades mais importantes são Cabul, a capital, Kandahar, Herat e Mozar-i-Sharif. A sua população estimada é de em 36 milhões de habitantes (2020), exclusivamente muçulmana (90% sunitas e 10% xiitas) e está dividida em vários grupos étnicos, nomeadamente os mais numerosos são: o Pachtun, Tajique, Hazara e Usbeque. As línguas oficiais são o Dari e o Pachtun, embora existam inúmeros dialetos.
O Afeganistão tem sido um país muito cobiçado ao longo dos tempos, tendo sido sucessivamente ocupado por Dario da Pérsia, por Alexandre Magno, pelos Árabes, pelos tártaros e pelos Ingleses.
Em 1979 os Soviéticos apoiaram um governo marxista enfraquecido, mas tiveram que enfrentar os ataques da guerrilha de algumas tribos resistentes. O país ficou dividido entre os apoiantes do marxismo e os combatentes da resistência, enquanto milhões de civis fugiram para o Paquistão e para o Irão. Depois de vários anos de luta, a ex-União Soviética retirou os seus 100 000 soldados do Afeganistão. Em abril de 1992, algumas fações rebeldes tomaram Cabul, derrubaram o Governo comunista e estabeleceram uma República islâmica provisória. Os grupos rebeldes rivais não aceitaram esta situação e, desde essa data, têm-se registado alguns confrontos entre as fações.
Em 1996 um grupo de fundamentalistas islâmicos – os Taliban – apoderou-se de Cabul e instituiu uma política fundamentalista extremista e opressiva. O ataque terrorista aos EUA a 11 de setembro do mesmo ano, reivindicado pela Al-Qaeda, e a consequente guerra contra o terrorismo iniciada pelos EUA, levaram a uma intervenção militar no Afeganistão e à queda do regime taliban no país.
A partir de então, instituiu-se um governo de transição pós-taliban com a participação de membros do grupo rebelde do Norte. Na sequência de alguma instabilidade política e de constantes ações militares para eliminar totalmente o terrorismo, o país debate-se com problemas de pobreza, infraestruturas deficientes e com as muitas minas espalhadas pelo país.
2. DADOS DA INTERVENÇÃO PORTUGUESA NO AFEGANISTÃO
No âmbito da resolução n.º 1386 do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), de 20 de dezembro de 2001, Portugal iniciou a sua participação na International Security Assistance Force (ISAF). Em 2002 enviou um Destacamento Sanitário constituído essencialmente por militares femininos. Os ingleses instalaram um hospital militar, mas não tinham corpo clínico feminino para poder ajudar as afegãs, tendo pedido a contribuição portuguesa que disponibilizou oito militares, médicas, enfermeiras e técnicas de saúde que foram muito bem-sucedidas. Portugal enquadrou ainda a retoma do aeroporto de Cabul – KAIA, através de uma missão que dirigiu e operou, garantindo também a formação aos afegãos para os capacitar nesta operação.
Em junho de 2005 foi projetada a primeira Unidade de Escalão Companhia (UEC) de Atiradores, com a missão de Quick Reaction Force (QRF), constituída por comandos e paraquedistas, tendo sido inúmeras vezes reconhecida pelo seu grande profissionalismo, competência e rigor, inclusive pelo General britânico, David Richards que, nas suas memórias, descreve a companhia de comandos portugueses no teatro de operações em 2005 como “verdadeiros heróis” e “as minhas forças preferidas no Afeganistão”. Esta FND foi retraída em agosto de 2008 e, novamente, projetada em 2010, por um período de 6 meses.
Em maio de 2008 foi projetado para o Afeganistão o 1º Contingente Nacional (CN) que incluída diversas Unidades, entre as quais a Unidade de Apoio e as Operational Mentoring and Liaison Team (OMLT) cuja Unidade de Apoio contemplava um Módulo de Transmissões. AS OMLT contribuíram para a formação, treino e mentoria de unidades das forças armadas afegãs, destacando-se a OMLT da divisão Cabul. A primeira grande unidade afegã a assumir a responsabilidade por uma parte do território, a capital Cabul, onde a tensão naquela altura era muito alta, foi treinada pelos portugueses. “Portugal, através do Exército, ganhou um justo nome nestas OMLT porque fez tudo o que era necessário. Não fomos fazer o trabalho que competia aos afegãos, fomos ajudá-los, apoiando-os e corrigindo-os”.
Portugal empenhou mais de 3000 militares, situação particularmente relevante numas Forças Armadas com a dimensão das portuguesas, em especial num momento de forte retração de efetivos. Quer aceitando cargos de elevado destaque – como o de porta – voz do Comandante da ISAF, assumido pelo major-general Martins Branco, ou o Comando do Kabul International Airport (KAIA)17, assumido pelo coronel Luís Ruivo da Força Aérea Portuguesa (FAP), quer através de Unidades com missões de elevada importância, a verdade é que as Forças Armadas Portuguesas têm desempenhado com particular profissionalismo todas as missões recebidas, sendo, por exemplo, um dos países que menos “CAVEAT” apresentou (apenas são limitadas as operações de combate acima dos 3 mil metros de altura).
3. O PAPEL DAS TRANSMISSÕES
A QRF portuguesa, instalada em Cabul (Kaia e “Camp Warehouse”), possuía no seu quadro orgânico (QO) um Módulo de Transmissões para garantir a operacionalidade de todos os meios de CSI de campanha e permanentes no TO. Esta foi a primeira FND a dispor de rede telefónica VoIP (voz sobre IP), para além da quase totalidade de meios-rádio P/PRC 525, fruto da necessidade de operar em todas as situações, em modo seguro, e de inibidores de frequência. Adicionalmente, este Módulo tinha a seu cargo a operação de meios CSI cedidos pela NATO [1] e a gestão de uma rede de dados para ligação à internet, tão importante pra a moral e bem estar dos militares que estavam a tantos quilómetros de casa.

Em “Warehouse”, disponham de uma Central Telefónica P/TTC-101, montada em “redundância” com dois Comutadores de Campanha P/CD-132. Oito interfaces E&M disponibilizavam as ligações de voz, seguras (STU-IIB) e não seguras (civis e militares), estabelecidas entre aquele TO (Cabul) e o nosso País (Regimento de Transmissões – Lisboa).
O Centro de Mensagens, integrado no Centro de Comunicações (CCom) situado no Edifício do Comando, operava os Sistemas de Processamento de Mensagens MMHS (seguro para a transmissão de mensagens com a classificação de segurança até Secreto), STM3 (seguro para a transmissão de mensagens em claro, com a classificação de segurança até Reservado), e Fax não seguro, constituindo-se, conjuntamente com a Central Telefónica, como recursos imprescindíveis para o exercício da ação de Comando e do Canal Logístico.
O acesso à Internet foi efetuado por Satélite, através de um link com 2 Mbits/s de largura de banda, interligado a uma LAN que disponibilizava pontos de rede para os militares acederam.
Ao nível tático, foram utilizados equipamentos TACSAT Harris 117F, TRC 3500 Thomson (HF), PRC 525 (V/UHF), PRR 4855 Marconi (VHF, baixos escalões), Empasteladores (EJAB) nas viaturas para proteção da força, Telemóveis de serviço de duas operadoras locais, terminais INMARSAT e Iridium, e foi também instalado o ISAF Force Tracking System.
O pessoal de Transmissões que integrava a QRF, em apoio ao Contingente Nacional no TO, constituiu-se como mentor das CSI das forças afegãs, nomeadamente na Cabul Capital Division.
Fonte o Livro:
DCSI, 2023. Arma de Transmissões – 50 anos “Por Engenho e Ciência”, 2.º volume, págs. 211 a 212
[1] – Instalados na rede ISAF secret instalada localmente pela Thales.
