1. ENQUADRAMENTO [1]

A república federal da Bósnia-Herzegovina (BiH) situa-se na península Balcânica, ocupando parte dos Alpes Dináricos. Com uma área de 51 129 km2, está limitada pela Croácia (Oeste e a Norte) e pelas repúblicas da Sérvia e do Montenegro (Leste e a Sul), possuindo igualmente uma estreita faixa de linha de costa no mar Adriático.

A BiH tem uma população de 3 849 891 habitantes (em 2018) [2] e a sua capital é Sarajevo. As etnias principais são a árabe (50%), a sérvia (31%) e a croata (17%) e as religiões dominantes são a muçulmana (40%), a ortodoxa sérvia (31%) e a católica (15%).

Com o colapso do comunismo, em 1989-1990, a Jugoslávia mergulhou numa onda de nacionalismo extremo. Depois da Croácia abandonar a Federação Jugoslava, em 1991, os croatas bósnios e os muçulmanos aprovaram um referendo a favor da criação de uma república multinacional e independente. Mas os sérvios bósnios da BiH recusaram separar-se da Federação, nessa altura sob domínio da República da Sérvia. Em 1992, a BiH foi arrastada para uma guerra civil sangrenta e devastadora, em que as populações acabaram por ser expulsas das regiões tomadas por cada nacionalidade. Desde 1995 as forças da ONU estão no território para garantir o cumprimento dos acordos de paz.

2. DADOS DA INTERVENÇÃO PORTUGUESA NA BÓSNIA-HERZEGOVINA

As operações Implementation Force (IFOR), entre 1995-1996 e Stabilisation Force (SFOR), entre 1996-2004, na BiH, sob a égide das Nações Unidas, foram intervenções militares executadas sob comando NATO, incluindo nações aliadas e países terceiros.

A participação militar portuguesa na IFOR/SFOR (1996-2004) materializou o emprego das primeiras unidades a atuar no TO Europeu no pós-Primeira Guerra Mundial (Cerqueira Rocha, 2000), tendo sido enviado para a BiH, inicialmente, o 2.º Batalhão de Infantaria Aerotransportado (2.º BIAT) entre 16 de janeiro e 29 de agosto de 1996, integrado no âmbito da Operação “Joint Endeavour”/IFOR (20Dec95 a 20Dec96).

O 2.º BIAT, comandado pelo Tenente-coronel de Infantaria Pedro Manuel Moço Ferreira, incluía 678 militares e permaneceu no TO durante seis meses, tendo sido depois substituído. Entre 1996 e 2004 vários batalhões das três Brigadas do Exército participaram na IFOR, mas em dezembro de 2004 esta operação foi substituída pela Operação EUFOR Althea da União Europeia, tendo Portugal mantido a sua participação até 2012.

A missão dos primeiros contingentes era garantir a segurança da estrada Norte Sarajevo-Gorazde e monitorizar a Zona de Separação (ZOS) entre Sérvios e Muçulmanos, nas imediações da cidade de Gorazde. Para cumprir a sua missão, o Contingente Nacional era constituído por uma Unidade de Escalão Batalhão (UEB) e Órgãos de Apoio Logístico (National Support Element – NSE), que ocupavam diversas posições no TO.

A partir de 2001, o Batalhão Português passou a constituir a Reserva Operacional Terrestre (OPRESGROUND) do Comando da SFOR, podendo ser empenhado em todo ou parte do TO, tendo sido concentrado na localidade de Visoko, próximo de Sarajevo.

Mais tarde, após 25 de novembro de 2005, foi novamente atribuído um Sector à Componente Portuguesa, tendo a Força sido concentrada em “CAMP DOBOJ”, na cidade de Doboj, na região Norte da BiH.

O último contingente terminou a sua missão em abril de 2007, data a partir da qual e até ao terminus da participação nacional nesta FND, em janeiro de 2012, passaram a existir no terreno Liaision and Observation Teams (LOT), nas quais também houve participação portuguesa.

3. O PAPEL DAS TRANSMISSÕES

Verificação técnica e instalação, em viatura, do material de transmissões do Batalhão, DGMT

As comunicações no TO da BiH e a ligação ao TN eram garantidas pelo Módulo de Transmissões, integrado no Batalhão, competindo-lhe instalar, explorar e manter um Sistema de Transmissões (CSI) para atingir os objetivos fixados para a missão.

Este Módulo de Transmissões possuía recursos humanos e materiais integrados num CCom, que incluía Central Telefónica, Centro de Mensagens, Posto Rádio e Centro Cripto, bem como os meios para apoio à reparação, manutenção e verificação dos equipamentos TPF, TSF e Informática.

Para garantir as Comunicações foram instaladas as seguintes redes:

  • Rede de HF: englobava as Redes de Comando e Operações e a de Controlo de Movimentos, sendo constituída por estações fixas (estações controladoras de rede), nos comandos de Batalhão e Companhias, operadas pelo Módulo de Tm, e estações móveis, montadas nas viaturas para os movimentos no TO. Os equipamentos utilizados eram o THOMSON TRC-3530 e o P/FRC e P/GRC 301. Chegou-se a utilizar técnicas de propagação NVIS (Near Vertical Incidence Skywave) para estender a cobertura na área de responsabilidade da força portuguesa e criou-se uma ligação de HF com Portugal através de uma antena dedicada para o efeito;
  • Rede de VHF: englobava as Redes de Comando e Operações e de Controlo de Movimentos do Batalhão, utilizando equipamentos da família 425 e o P/PRC 501;
  • Rede VSAT: garantia a comunicação da FND com Portugal, através de um canal de dados (para o tráfego oficial de mensagens) e sete canais de áudio.
  • Rede INMARSAT: existiam diversos tipos de terminais , com ligação ao satélite INMARSAT [3], à disposição na BiH.

Nos diversos aquartelamentos do Contingente Nacional existiam Redes Telefónicas e Centrais de Comutação que permitiam a realização de chamadas locais (BiH) e internacionais através do Sistema VSAT. Foram também instaladas cabinas telefónicas com cartões pré-pagos para permitir a ligação dos militares às famílias.

Antena de Comunicações, Rogatica
Fonte: RTm, 2006

A Rede Informática dos aquartelamentos era constituída por servidores, um router para encaminhamento de dados e hubs para expansão da rede, integrando-se na Rede de Dados do Exército através do canal de dados do Sistema VSAT, que disponibilizava diversos serviços (Correio Eletrónico, Intranet, Segurança da Informação, atualização automática do antivírus e partilha de informação).

O Comando da SFOR forneceu um telefone com Chave Cripto (STU II B) e um equipamento de fax acoplado, utilizado para o envio e receção de documentos classificados e comunicações telefónicas com classificação de segurança até SECRETO NATO/SFOR.

O Batalhão encontrava-se também ligado à Rede Informática secreta da SFOR, designada por SFOR WAN, permitindo o envio de mensagens até SECRETO NATO/SFOR entre o Batalhão, o QG da SFOR e as Divisões Multinacionais.

Fonte o Livro:
DCSI, 2023. Arma de Transmissões – 50 anos “Por Engenho e Ciência”, 2.º volume, págs. 205 a 207


[1] – A elaboração deste item teve por base a informação contida em https://www.infopedia.pt/$bosnia-herzegovina.

[2] – Índex mundi: https://www.indexmundi.com/g/g.aspx?v=21&c=bk&l=pt.

[3] – O MAGNAPhone MX 2020P [INMARSAT – A, Class 1 Satellite Communication (SATCOM) Terminal], são equipamentos que funcionam numa posição fixa, com fiabilidade elevada; o NERA WorldPhone (INMARSAT Terminal), é um equipamento portátil que permite a comunicação através de um canal de voz ou um canal de dados a 2400 bits/s, mas exige a imobilização do equipamento para fixar o sinal. No TO existiam três equipamentos deste tipo; o NERA WorldPhone Voyager (INMARSAT – Mini – M Terminal) é um equipamento para instalar em viatura; e o SATURN BP Portable (INMARSAT – B Terminal) é um dispositivo que permitia realizar videoconferências entre a BiH e Portugal, dispondo de cinco acessos para telefones DTMF ou um canal de High Speed Data de 56/64 Kbits/s.