
Chefe do Módulo CSI da 14.ª Força Nacional Destacada na RCA
FONTE: Texto publicado em “A Mensagem 2024”
Boletim informativo do Regimento de Transmissões. Porto.
Desde janeiro de 2017 que Portugal participa, ativamente, na “United Nations Multidimensional Integrated Stabilization Mission in the Central African Republic” (MINUSCA) como Quick Reaction Force (QRF). É uma missão de elevado risco, onde a QRF portuguesa está à disposição do Force Commander da MINUSCA, Tenente-General Humphrey Nyone, para a empregar em qualquer zona do país.
A Missão
A Força Portuguesa tem como Main Operational Base (MOB) o Campo Portugal, integrado no campo Greenfield, onde estão aquarteladas múltiplas Forças da MINUSCA, em Bangui, capital da República Centro-Africana (RCA). É a partir desta MOB que a Força Nacional Destacada (FND) composta por 215 militares se prepara para ser empenhada em missões. Essa preparação passa pelo treino contínuo dos militares e pela preparação de todo o apoio de combate e de serviços, tal como as Comunicações e Sistemas de Informação (CSI).
A Missão do Módulo de Comunicações na MOB
O Módulo de Comunicações (ModCom) desta FND é composto por um Oficial, 4 Sargentos e 4 Praças. Para a 14.ª FND/MINUSCA, que foi constituída maioritariamente por militares do Regimento de Infantaria n.º10 (RI10), tendo como base o 2.º Batalhão de Infantaria Paraquedista, o Regimento de Transmissões (RTm) garantiu o grosso do ModCom, nomeadamente um Oficial, 3 Sargentos e 3 Praças, sendo que um Sargento foi proveniente do RI10 e uma Praça da Companhia de Transmissões da Brigada de Reação Rápida. A Força foi projetada para o Teatro de Operações (TO) a 4 de dezembro de 2023, tendo-se dado a retração em 5 de junho de 2024 (notícia do regresso).
Na MOB, o ModCom faculta todos os recursos de CSI necessários para as operações e bem-estar. A estrutura implementada na MOB, baseia-se numa extensão do domínio do Sistema de Informação e Comunicações Operacional (SIC-Op) com a ligação ao Território Nacional (TN) garantida através de uma ligação satélite em banda X (Figura 1). Foi também implementada uma ligação de internet, assente numa estrutura civil em banda C (Figura 2), com uma largura de banda aproximada de 16 Mbps, usada sobretudo como internet de trabalho, ou seja, integrada com a Rede de Dados do Exército para toda a componente de planeamento e envio de relatórios da parte do Comando e Estado-Maior da Força.

Figura 1 – Antena satélite GIGASAT na Banda X

Figura 2 – Antena satélite AIRBUS na Banda C
O objetivo das duas redes é complementarem-se e garantir a redundância da rede SIC-Op. Adicionalmente, foi implementada uma rede Welfare nas zonas de lazer e alojamentos, cuja ligação de internet está assente num terminal Starlink da SpaceX, para além de possibilitar acesso a conteúdos multimédia. Para a comunicação com familiares e amigos em TN, para além da internet, os militares da Força dispõem de telefones instalados nos alojamentos que, interligados com a rede SIC-Op, permitem comunicar para Portugal 24h por dia.
As Operações e o Apoio de CSI
Em situações em que a FND não é projetada para missões para fora da capital Bangui, nos seus deslocamentos na cidade, as viaturas URO VAMTAC da Unidade de Manobra, usando o rádio PRC-525 e os rádios TETRA da MINUSCA, são seguidas pelo Centro de Operações Táticas (COT), através de aplicações de tracking – Battlefield Management System (BMS) e Gina (aplicação de tracking através do TETRA).
Se a missão atribuída for fora da zona de Bangui, então parte do ModCom segue projetado com a Força, garantindo o apoio de CSI no Posto de Comando Avançado, vulgarmente designado como Temporary Operational Base (TOB). Este apoio é conseguido através de um módulo do Sistema de Informação e Comunicações Tático (SIC-T), no caso, uma viatura Centro de Comunicações de Companhia (CCC). Nesta situação, todos os serviços na TOB são garantidos como na MOB. Na TOB, a ligação para TN é efetuada pelo terminal satélite DataPath CCT-200 (Figura 3). A ligação de internet é garantida através do terminal Starlink, com larguras de banda em torno dos 200 Mbps, garantindo todas as atividades de trabalho e planeamento da Força e fornecimento de internet de Welfare para os militares projetados. De realçar que a TOB e a MOB estão online simultaneamente e há sempre ligações garantidas, quer entre os dois Postos de Comando, quer com o TN.

Figura 3 – Terminal satélite DataPath CCT-200
No período dos 6 meses de missão, a 14.ª FND/MINUSCA efetuou uma grande missão conjunta no exterior de Bangui. Numa primeira fase, consistiu na projeção aérea de um pelotão da Unidade de Manobra para a região de Zémio, a aproximadamente 1000 km da capital, juntamente com o proporcional de apoio de combate, nomeadamente um militar do ModCom. Numa segunda fase, efetuou-se a projeção terrestre com outro Pelotão da Unidade de Manobra e uma estrutura de Comando e Estado-Maior, assim como 3 militares do ModCom, com a finalidade de reforçar o pelotão já presente que foi projetado via aérea. Esta missão como um todo teve o objetivo primordial de reforçar a presença militar na região, garantindo para um ambiente mais seguro e estável. De salientar que esta operação como um todo, levou a que militares estivessem mais de 50 dias projetados fora do Campo Portugal.
Principais desafios
O TO da RCA é extremamente exigente ao nível do apoio de CSI. A tipologia de missão (combate) causa um grande desgaste no material, sobretudo no equipamento individual de comunicações dos militares. As rigorosas condições climatéricas (calor, vento e chuva forte) colocam em causa, recorrentemente, a operacionalidade dos equipamentos, bem como a estabilidade da rede. Mais ainda quando os equipamentos utilizados não estão preparados para fazer face a este tipo de condições climatéricas. O pó recorrente no ar, sobretudo nos deslocamentos (os itinerários são praticamente todos em terra batida), é mais um elemento propício para o aparecimento de avarias. Sendo um TO longínquo e com algumas limitações de material sobressalente/reserva, a inoperacionalidade de determinado equipamento não é de fácil substituição, devendo os militares, muitas vezes, terem a capacidade de reparar os equipamentos no próprio local. Em suma, o TO da RCA é um verdadeiro desafio a um normal apoio de CSI.

