2.ª PARTE – LIGAÇÃO NAMPULA LISBOA VIA EMISSOR DE HF

O cabo telefónico para o Centro Emissor

Pela complexidade e relevância, descrevem-se pormenorizadamente os trabalhos levados a cabo para instalar um cabo telefónico, fundamental para assegurar as comunicações com Lisboa.

Ainda me encontrava em Lisboa a comandar a companhia TPF (telegrafia por fio) quando surgiu de Moçambique o pedido de aquisição e envio de um cabo telefónico de 25 quadras, de 0,9mm2, blindado e auto-suportado.

Feita a aquisição, o mesmo foi enviado para o destino na segunda metade de 1968.

Ao chegar a Nampula reconheci as onze bobines amontoadas na parada principal do quartel, cuja madeira tinha já quase desaparecido, devorada pela formiga salalé.

Felizmente os bichos não apreciam o plástico e por isso os cabos estavam intactos.

O Capitão Eng. Tm Alcide de Oliveira, rendido pelo Capitão Eng. Tm Figueira, tinha-se declarado impreparado para levar por diante o trabalho que faltava fazer, que era a ligação entre o Centro Receptor no Batalhão de Transmissões 2 BTm2)) e o Centro Emissor (Represa), distanciados onze quilómetros um do outro.

Percurso

Em abono da verdade a obra era própria para uma empresa especializada, luxo a que não podíamos aspirar.

O cabo tinha de atravessar toda a cidade por cima da rede de baixa tensão. Esta rede de energia era em fio nu e estava à cota mínima exigida por lei. Logo, tudo que cruzasse com ela tinha de passar por cima.

Além disso o seu percurso tinha de ser obrigatoriamente feito com travessia da estação de caminho de ferro, num ponto em que o número de linhas obrigava a ter apoios dentro da própria estação, onde havia sempre movimentos de composições.

A somar a esta complicação, o percurso em campo aberto tinha de ser obrigatoriamente feito bordejando a picada que de Nampula conduzia à Represa. Ora, também se sabia que esta era a berma onde corria enterrada a tubagem de material frágil que trazia a água da Represa para a cidade e que qualquer dano nesta conduta tinha consequências dramáticas.

Pela outra berma corria a linha de alta tensão que alimentava os motores de bombagem de água da Represa para a cidade.

Estava fora de questão cortar árvores para alinhamento dos postes, porque o assunto se tinha tornado de grande sensibilidade social.

Manobrar com um cabo pesado para o fazer passar por cima da rede de baixa tensão, com esta em carga, era demasiado arriscado. Cortar a energia para fazer os trabalhos era inaceitável.

Dados técnicos

Do ponto de vista técnico, a situação era a seguinte:

  • Cada suspensor do cabo auto-suportado era constituído por um conjunto de 21 peças (porcas, placas-garras, parafusos e anilhas) que não havia à venda em Moçambique;
  • Postes de apoio em betão não se fabricavam para venda em Moçambique. Os que havia eram de casuarina e só uma empresa da Beira os fornecia, à razão de 6 por mês: Como eram precisos 210 postes, estava fora de questão optar por esta solução.

Do ponto de vista técnico, o afastamento de 11 km do Centro Emissor à cidade justifica-se para que não se forme loop magnético durante a transmissão.

Em Lisboa este assunto tinha sido resolvido pela colocação do Centro Emissor na Encarnação e o Centro Receptor em Alcochete, mas em Nampula estava por resolver.

Do ponto de vista orgânico este assunto era obviamente do Serviço de Telecomunicações Militares (STM), visto que o cabo se destinava ao suporte do sinal na sua transmissão para Lisboa, Lourenço Marques, etc.

Os Briefings matinais

Num dos briefings matinais, estando presentes o Comandante, o Capitão Figueira e eu próprio, o Comandante Simões trouxe à baila o cabo auto suportado, porque de Lisboa cresciam as insistências e, em Moçambique Kaúlza de Arriaga não queria ficar atrás de Spínola, que na Guiné já tinha ligação a Lisboa.

Analisada a questão, o Capitão Figueira, penso que baseado nos dados que expus acima, terá analisado as dificuldades e concluiu que as Transmissões não dispunham de meios para, de per si, resolver o problema.

O Comandante descartou a resposta, virou-se para mim e perguntou o que pensava eu.

Tomando a pergunta como apenas destinada a obter um parecer, respondi que era um trabalho difícil, no limite do possível, mas possível.
O Comandante calou-se.

No dia seguinte, no briefing da manhã, o olho aberto do Comandante denunciava que ali havia coisa.

No final do café, com amendoim “torrado à macua”, o Comandante rodou a cadeira do estirador e olhando da CCS por cima do edifício do comando, disse: “Cruz Fernandes, se tu fosses eu e eu tivesse respondido como tu o fizeste, o que é que tu farias?”

Respondi: “O mesmo que o meu Comandante vai fazer: – Ordenar-me que faça!”.

E assim nasceu a minha ligação ao Cabo Auto-suportado. Estava-se em Outubro de 1970. Desejava-se a inauguração para o início de Março de 1971, então dia das Transmissões.

Foi uma obra de muitas delicadezas e de uma enorme quantidade de trabalho, especialmente tendo em conta os escassíssimos meios técnicos de que as Transmissões dispunham e os limitados meios humanos nesta fase do processo.

Obra do cabo auto-suportado

Os ferros foram desenhados por nós e mandados fundir e metalizar (galvanização a quente) em Lourenço Marques.

Os postes, que eram de 10,50 metros de altura, 440 kg de esforço à cabeça, foram calculados por nós, armadura e molde para o seu fabrico.
Com a Câmara Municipal de Nampula, que já tinha estaleiro, procedeu-se a negociações para que ela fabricasse 220 postes para o STM, mediante contrapartida da entrega pelo BTm2 de cimento e aço em quantidades negociadas entre a Câmara e o BTm2 (Major Eng Tm CarlosFalcão).
Neste trabalho parte da mão-de-obra foi militar.

A negociação foi tornada possível porque o consultor da Câmara era o Engenheiro Ramalho, meu colega do Instituto Superior Técnico (IST).
Para identificação futura, cada poste foi marcado a três metros da base, ainda com o betão verde, com o emblema das Transmissões, previamente mergulhado num recipiente de óleo queimado.

O resultado era ficar, em cada poste em obra, a cerca de 1,10 metros acima do solo, a aranha das Transmissões gravada como sinal distintivo que permanecia 24 anos depois, quando voltei a Moçambique.

O transporte foi outra operação para a qual não havia nas Transmissões viatura capaz.

Resolveu-se, fixando dois pneus usados de grandes dimensões fornecidos pela Arna de Engenharia, ao estrado da viatura. A parte pesada dos postes molejava, no transporte em cima desses pneus e a parte excedente para trás da viatura, compensava o peso que descarregava sobre a cabine.

Ao chegar à obra cada poste deslizava sobre a travessa que fixava os pneus e a sua base entrava directamente na cova que lhe era destinada.

Quatro cordas previamente passadas pela cabeça do poste permitiam de imediato colocá-lo ao alto e escorá-lo, ficando apenas o alinhamento fino para depois.

Esta operação repetiu-se 210 vezes.

Alinhamentos

Para o alinhamento das covas e depois dos postes foi preciso um teodolito, que não havia nas Transmissões.

Para suprir essa falta foi fabricado, com base num simples esticador, uma mesa articulada para apoio de um binóculo, cujo conjunto desempenhou a função satisfatoriamente. A mesa tinha de um lado um espigão que se enterrava no solo e no outro terminava numa mesita para o binóculo. A articulação era dada pelo esticador.

Para proceder aos alinhamentos escolheram-se pontos altos dos quais era visível o troço entre eles. No início do troço colocava-se com um rádio quem procedia ao alinhamento e no extremo afastado um militar com um rádio e uma bandeirola branca mantida na vertical.

Partindo do início uma terceira equipa, munida de um rádio, de uma bandeirola branca e de estacas, ia avançando no terreno por lanços de 50 metros, que eram os vãos entre postes.

Do início do troço, o operador do teodolito orientava o alinhamento, dando instruções pelo rádio.

Por cada 50 metros alinhados, era enterrada uma estaca no solo a indicar o centro da futura cova.

A operação continuava até esta equipa atingir o extremo oposto ao do teodolito.

Nessa altura a equipa do teodolito movimentava para a posição do fim do troço, seguindo-se a escolha de novo troço e a repetição das operações.

O trabalho de abertura das covas foi penoso. O solo encontrava-se laterizado e não havia máquinas que ajudassem.

Eu próprio, algumas vezes de tronco nu brandi a picareta, gesto que permitia, sem quebra de autoridade, incutir no pessoal a ideia da importância e da urgência da obra.

Para o fabrico das espias, que eram feitas de cinco fios de arame n.º 11 torcidos, fabriquei também um aparelho que permitia multiplicar por 20 o trabalho de torcedura do fio em condições mais perfeitas.

Num ponto fixo foi chumbada uma argola.

A uma distância de um ponto fixo de quatro vezes o comprimento de uma espia, foi fixada ao solo uma estrutura rígida tendo à altura da cintura uma manivela que rodava num rolamento fixo à estrutura. O eixo da manivela passava por dentro do rolamento e terminava num gancho. Os cinco fios de arame eram passados pela argola do ponto fixo e pelo gancho da manivela e bem esticados. Depois, enquanto um militar rodava a manivela outro batia no chão o cordão que se ia formando evitando encavalitamentos dos fios.

Ao fim de alguns minutos estava pronto um cabo de cinco fios de 60 metros de comprimento.

Para o lançamento das diferentes bobines de cabo foi inventado outro processo que simplificou o trabalho de um modo radical.

As bobines, de mais de uma tonelada, seguiam no transporte montadas num cavalete que permitia que rodassem em torno do seu eixo.

O pessoal foi dividido em quatro equipas. Duas equipas de “trepa” e duas de “puxa” (*).

A viatura transportando o cavalete com a bobine de cabo era levada até junto do primeiro poste.

Para fazer a tracção do cabo usou-se uma corda de 100 metros de comprimento (distância de dois vãos), que tinha numa das pontas uma ligação “rabo de porco”.

A primeira equipa de puxa levava a ponta do cabo até à base do primeiro poste, onde lhe era enfiada a ligação em rabo de porco.

Um homem da equipa de trepa subia ao cimo do poste, à unha, levando a ponta da corda que passava por cima do rolete previamente montado no parafuso de suporte do cabo. Fazia avançar a corda até a ponta desta ser agarrada de novo no solo pela equipa de puxa, que com ela se dirigia para o segundo poste.

Aí, um segundo elemento de trepa pegava a corda, subia com ela o poste e procedia de igual modo como o anterior.

Quando a corda se encontrava a meio do segundo vão começava a ficar esticada e a fazer desenrolar o cabo na bobina, cerca de 100 metros atrás.

Colocado em posição onde observasse toda a manobra bastavam-me pequenas ordens de coordenação para que este pessoal actuasse como uma máquina bem afinada.

Por este processo o cabo de uma bobine de 1.000 metros punha-se em cima em duas horas, fixo aos postes e pronto a ser emendado.

Os postes extremos ficavam temporariamente espiados para suportar a tensão segundo o eixo do alinhamento.

De notar que, como o cabo não foi de Portugal com folga, houve necessidade de fazer emendas nos pontos onde as bobines acabavam, o que levou a ter de fazer emendas a meio dos vãos para poupar cabo.

(*) Nota: Devo aqui distinguir nestas equipas o Cabo Bernardo, que tinha a capacidade de trepar um poste destes e nele trabalhar sem qualquer meio auxiliar. Levava apenas à cintura um troço de verga de aço, que enfiava num dos buracos do poste, onde se apoiava para trabalhar. Trinta anos depois fui encontrá-lo em Coimbra no Convívio das Transmissões, onde com outros revivemos esses tempos.

O Condutor Constantino, landim de nação, e o 1.º Cabo Bié, possante também landim e condutor, filho de régulo da Gaza, que um dia pegou uma serpente, mamba, à mão, quando me viu na iminência de a pisar e ser mordido.

Na parte técnica contei com o Furriel Pereira Delgado, de Campo de Jales, Vila Pouca de Aguiar, que mais tarde empreguei na Refinaria de Sines, onde veio a fazer a sua carreira profissional, apesar de me ter enfrentado em Nampula, já na disponibilidade, na Revolta de 7 de Setembro, quando com outros se apoderou do Rádio Clube de Nampula e eu o silenciei, cortando a energia no posto de transformação de onde era alimentado.

Emendas, terras e ensaios

Lançado o cabo, executaram-se as emendas e procedeu-se a ensaios.

Fizeram-se ensaios de atenuação e de diafonia.

A atenuação era de facto bastante acentuada, cerca de 13 db.
As diafonias eram muito fracas.

Durante os ensaios fez-se uma experiência muito importante: Com o tensor (cabo de suspensão) ligado à terra do lado do Centro Receptor, mediu-se a tensão e vazio na ponta do Centro Emissor, com um voltímetro electrónico, que não tem consumo. Obteve-se uma tensão de 2.500Volt.

Demonstrou-se, assim, como as tensões induzidas podem ser perigosas, o que foi aproveitado com finalidades pedagógicas.

Depois ligou-se o tensor ao solo em vários pontos, cumprindo o que estava desde início previsto no projecto.

As ferragens metálicas de todos os postes ficaram também ligadas a terras de protecção ao longo do percurso.

Na inauguração, o Comandante da Região Militar de Moçambique, General Kaúlza de Arriaga, foi o convidado de honra do comando do BTm2, a quem o Major Garrido me apresentou e teceu um grande elogio, o qual transferi para o pessoal que esteve comigo, quando foi a minha vez de falar.

Para quem conheceu a fama e as características inimitáveis de Kaúlza de Arriaga, impressionou-me bastante que tivesse ouvido sem um comentário toda a exposição e que, no fim, pelas perguntas que fez, tão bem tivesse entendido tudo que tinha sido dito.

Desde esse dia Moçambique ficou ligado a Lisboa, a partir de Nampula, para tráfego radiotelefónico e radiotelegráfico.

A partir de Nampula ainda se podiam estender as chamadas a quase qualquer ponto de Moçambique onde houvesse ligação ao “Vietname”, através da integração rádio-fio de que já me ocupei anteriormente.

Montado o cabo auto-suportado, este passou para o STM, inserindo-se nas Transmissões Permanentes.

Lisboa, 2 de Dezembro de 2006. (revisto em janeiro de 2026)

Fonte: Memórias da Organização e Atividade das Transmissões em MoçambiqueHistória do lançamento de um cabo telefónico aéreo auto suportado em Moçambique de Out1970 a Mar71 (2.ª parte)

Viatura Berliet com o pessoal do Cabo Auto suportado

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