1.ª PARTE – SITUAÇÃO E PRIMEIRAS ACÇÕES
A Viagem
O Comando das Transmissões de Moçambique passou de Lourenço Marques para Nampula em 1970, na sequência da transferência para esta cidade do Comando-Chefe das Forças de Armadas de Moçambique. As nomeações de pessoal graduado de Transmissões eram individuais, ou seja, feitas em rendição homem a homem, e os transportes desde a Metrópole eram quase sempre feitos de navio.
Fui transportado no paquete Angola, o qual cruzou no Golfo da Guiné, sob uma diluviana tempestade tropical, com o paquete Infante D. Henrique, no qual viajava de regresso de uma comissão a Angola, o Tenente-Coronel Vargas. Algum tempo antes de mim tinha embarcado o Capitão Fernando Homero Cardoso Figueira, também com destino a Nampula, para rendição individual, destinado à Companhia de Transmissões de Campanha, enquanto eu saí de Lisboa com destino ao Serviço de Telecomunicações Militares (STM).
Desembarque em Lourenço Marques
Desembarquei em Lourenço Marques pelos fins de Junho de 1970. Aguardou-me e orientou-me o Capitão Oliveira Pinto, enquanto não recebi guia de Marcha para Nampula. Apercebi-me que se efectuavam preparativos de mudanças de material, nas quais estava envolvido o Capitão Cruzinha Soares.
Nampula
Desembarcado em Nampula, de avião, fui colocado no Batalhão de Transmissões 2, comandado pelo Ten. Coronel Simões, tendo como 2.º Comandante o Major Garrido Baptista, que dividia as suas funções entre o Comando das Transmissões no QG/RMM e o Batalhão. No QG/RMM estava ainda o Coronel João do Rio, que regressou passado pouco tempo à Metrópole.
Nessa altura, Jun/Jul de 1970, Nampula estava serena, mas em Cabo Delgado decorria a maior operação militar conjunta levada a cabo em Moçambique, durante todo o período da guerra de libertação. Poucos dias depois da minha chegada houve reunião de comando do Batalhão. Aí se ficou a saber que enquanto percorríamos a distância Lisboa-Nampula, o meu destino e o do Capitão Figueira tinham sido trocados. O Major Garrido Baptista, que nos conhecia a ambos de Lisboa, onde tinha sido Director de Instrução do nosso estágio pós-graduação, entendeu que as minhas características apontavam mais no sentido operacional, enquanto as do Capitão Figueira apontavam mais para as Transmissões Permanentes.
Eu, que saíra de Lisboa para o Serviço de Telecomunicações Militares (STM), vi-me comandante da Companhia de Transmissões, da Companhia de Instrução e, de vez em quando, da Companhia de Comando e Serviços (CCS) também. Além disso, depois do regresso do Major Falcão à Metrópole, também passou para mim a chefia da Secção Técnica do Batalhão. Por sua vez, o Capitão Figueira ficou com o STM.
No Batalhão, mas com funções de Presidente do Conselho Administrativo e chefe da Secção Técnica estava o Major Falcão. Na Companhia de Reabastecimento e Manutenção de Material de Transmissões (CRMMTm) estava o major Carvalho, que comandava,
Enquanto o Batalhão ainda estava a assentar arraiais, tive contacto, pela primeira vez, com o Major Pereira Pinto, que vinha da Operação “Nó Górdio”, que decorrera em Cabo Delgado, mas que estava em retirada. O Major Pereira Pinto, conforme apareceu, desapareceu por ter terminado a sua missão. Lembro-me que exibia e manipulava um documento “Normas Técnicas de Transmissões”, por ele elaboradas para suporte e orientação doutrinária na grande Operação de onde chegara.
Situação no BTm2 no segundo semestre de 1970
O Batalhão não tinha ainda arranjos internos de paradas e passeios. Era constituído por três terraplenos e algumas rampas de passagem de uns para os outros. A Porta de Armas estava no terrapleno que continha a Casa da Guarda, a Companhia de Instrução e a Secção Técnica. Entrando, logo à direita uma rampa dava para a plataforma do Edifício do Comando. Seguindo em frente, outra rampa dava acesso à parada principal, onde tinha, à esquerda no primeiro bloco, a Companhia de Transmissões e o STM.
No mesmo alinhamento, mas distanciado deste bloco encontrava-se o edifício do Centro Receptor. Do lado direito, logo ao cimo da rampa e fazendo ângulo recto com o alinhamento do bloco de Transmissões, situava-se a Companhia CCS. Ao fundo do terrapleno, face a face com a CCS, situava-se o Refeitório. Externamente, o BTm2 tinha vedação com a CRMMTm e pelo lado da Porta de Armas. Tudo o resto era aberto para as machambas e para o mato.
Perante a situação, cada um começou a orientar as suas actividades conforme podia, para o desempenho de funções e melhoria das condições internas do BTm2. Enquanto o Major Garrido Baptista cuidava, no part-time que passava no Batalhão, no seu arranjo interno, o Major Falcão foi encarregue de prover à vedação pelo Sul, pelo Nascente e pelo Poente, uma vez que apenas pelo Norte confinava com a CRMMTm.
Um oficial que deixou uma marca de qualidade
Havia entre nós um oficial muito rigoroso e exigente, em termos de qualidade de execução. Era o Major Garrido Baptista. Com o seu ar de gozo e atitude de grande senhor, este oficial tinha de facto uma escola única em termos de padrão de qualidade, que exigia em tudo onde punha as mãos. Deve-se-lhe nesta fase muita orientação, mas acima de tudo a escola de saber fazer bem.
Deve-se-lhe, entre muitas coisas, a concepção de moldes para a execução dos lancis de separação dos passeios das paradas, com a criação de faixas relvadas para absorção das poeiras. Estes moldes estavam feitos de modo que apenas dois soldados eram suficientes para fazer todo o trabalho, ficando este com um aspecto final como se o lancil completo tivesse sido feito de uma única betonagem. E ainda se lhe deve a transformação de uma sala vazia e desprovida de qualquer conforto, no bar de oficiais mais badalado de Nampula.
Este oficial, a quem nunca foi feita justiça e teve o azar de comandar no fim da sua comissão alguns oficiais desmotivados, que, depois, foram ouvidos na fase paranóica pós 25 de Abril, era considerado em Nampula e na “Província” como um engenheiro competente e muito solicitado.
Das suas mãos saíram vários trabalhos, nos quais colaborei a seu pedido, alguns deles ordenados pelo Comando Chefe, como o Centro de TV para propaganda e expansão da APsic (Acção Psicológica) no Norte de Moçambique, na “Operação Fronteira”, na passagem de nível da linha de caminho de ferro junto ao aeroporto de Nampula e muitos outros para os quais era ouvido pelo Secretário Provincial das Obras Públicas, de quem era conselheiro.
A Companhia de Transmissões
A CTm não existia como tal, porque parte do material estava ainda em Lourenço Marques e a outra parte estava envolvida no “Nó Górdio”. O pessoal foi, entretanto, chegando e começou a formação da companhia. A disciplina era muito difícil de manter, não digo a disciplina militar nas relações de comando, mas a disciplina de controlo de movimentos.
Com o Quartel escancarado por três lados, quem podia garantir que a seguir ao recolher a nossa tropa não se espraiasse pelas machambas, onde o aconchego das nativas sempre ajudava a esquecer as saudades das noivas que esperavam na Metrópole?
De uma vez, numa ronda de improviso pela machamba dentro, foi possível recuperar meia dúzia de beliches militares que para aí tinham sido carregados em operações silenciosas nocturnas.
Lidando com estas contingências lá se foi formando a Unidade, que dois anos depois se orgulhava de ser a mais aprumada guarnição e que contava com um dos recordes mais baixo de castigos, praticamente nenhuns.
Um percurso trabalhoso
Com um Comandante em Chefe das Forças Armadas em Moçambique, General Kaúlza de Arriaga, que privilegiava as operações e os exercícios de Estado Maior e com um segundo-comandante de Batalhão – Major Garrido Baptista – a sobrevivência do comandante da CTm dependia da prontidão operacional, predicado que em Moçambique era por esta altura levado ao extremo.
Havia três elementos mágicos a que o comandante da CTm tinha de responder, nos briefings do QG/RMM, aos quais Kaúlza de Arriaga presidia:
- Dimensão máxima da maior carga individual a transportar;
- Peso da maior carga não desmontável;
- Peso total da carga a transportar e resposta na hora.
O general Kaúlza de Arriaga podia mandar planear uma operação que não tinha intenção de executar ou uma operação para Cabo Delgado hoje e outra para Tete amanhã, a mais de mil quilómetros de distância da primeira. Era preciso responder com que frequências, com que antenas, com que baterias, com que rádios, com que mastros, mas tudo isto durante os briefings, aos quais assistia o Major Garrido Baptista.
Este oficial fazia gala de, na frente de todos, a partir de dada altura, ter saídas destas: Meu General, as Transmissões respondem dentro de 15 minutos e, pelo telefone, ordenar que eu lhe desse resposta. Respostas como a que se requeria acima não podiam ser dadas logo no início porque trabalhos preparatórios nos aguardavam.
As frequências
Ao assumir o comando da CTm, apercebi-me que em Moçambique não havia partilha de frequências. A banda de frequências Militar, que em Portugal era respeitada, estava em Moçambique pejada das mais variadas actividades. Era terrivelmente arriscado planear uma operação e, ao entrar em acção, verificar que as frequências escolhidas estavam activas, muitas vezes por sinais mais fortes do que os nossos.
Como se não bastasse, algumas unidades a quem era distribuído o rádio ANGRC 9 com determinados naipes de cristais, queixavam-se que os mesmos não trabalhavam nas frequências que os cristais indicavam e, portanto, não faziam rede entre si.
Em consequência disso muitas vezes ficavam por fazer ligações vitais, como eram as de socorro e salvamento de baixas em combate. Havia, pois, que resolver previamente estes dois problemas, vitais para a operacionalidade da CTm, antes de a poder considerar em condições de cumprir bem a sua missão.
Varrimento do espectro
Descobrir na banda de trabalho (3 a 30 MHz) frequências desocupadas, só seria possível montando um processo de busca e varrimento contínuo, de modo a verificar estatisticamente quais as frequências disponíveis e em que percentagem de tempo. Para o conseguir promovi a montagem de um Centro de Escuta 24/24 horas, com varrimento de toda a banda de frequências e passagem pela mesma frequência de 15 em 15 minutos, com registo de ocupado ou desocupado. Antes, a banda de 3 a 30 MHz tinha sido dividida em intervalos de 3KHz e inscrita em folhas que no seu conjunto cobriam a banda.
Ao fim de algumas semanas já se dispunha de uma imagem muito aproximada de ocupação do espectro e consequentemente das zonas onde podíamos encaixar as frequências das nossas redes. As folhas eram incluídas num manual que ficava disponível no Centro de Escuta. De posse do manual e sabida a distância de Nampula à zona onde a operação teria lugar, fácil era, por simples consulta, escolher as frequências desocupadas que se lhes ajustavam.
Para as escutas contei com os Receptores Plessey, de sintonia contínua entre 300 Kc/s e 30 Mc/s, aparelhos que fizeram um excelente trabalho e já tinham sido empregues com sucesso na Guerra Electrónica em Lisboa. Praças de Transmissões foram divididas em turnos contínuos de 24 horas, chefiadas por sargentos e posicionadas em três posições de escuta.
Cristais
Com a idade os cristais envelhecem e a frequência de oscilação aumenta. Cristais com a mesma frequência de ressonância, mas com idades diferentes oscilam em frequências diferentes. Assim sendo, cristais com a mesma frequência nominal de trabalho e idades diferentes podem não entrar em rede entre si. Era o que nos estava a acontecer.
Para remediar este percalço foi preciso testar todos os cristais existentes em stock, distribuí-los na frente de combate, recolher os que aí estavam e testá-los também, reagrupando uns e outros segundo as actuais frequências efectivas de ressonância, e não segundo aquelas que neles vinham indicadas.
Neste trabalho contei com a ajuda de um colega do IST, que na altura cumpria serviço militar em Nampula – o alferes Themudo de Castro -, o qual por razões psíquicas foi recolhido passado algum tempo. É justo, porém, destacar o seu trabalho enquanto esteve presente.
O trabalho de reagrupamento dos cristais beneficiou de uma montagem que incluía um osciloscópio para leitura directa da frequência de saída do ANGRC 9. Colocado o cristal no equipamento esperava-se que a frequência medida fosse a que o cristal indicava. Quando o não era, o cristal era reclassificado na frequência em que realmente oscilava.
Pesagens e medidas
Para responder por completo à questão da carga total, peso e dimensões do material de cada missão, exigidas pelos planeadores de transportes do EM/QG/RMM, foi preciso medir e pesar todos os equipamentos de Transmissões. Fez-se depois um Manual de Operação do qual constavam por ordem alfabética todos os itens com as suas características físicas (peso, dimensão, volume).
Chegado aqui, estava em condições de responder nos tais 15 minutos ao Major Garrido Baptista, como era seu compromisso perante o comando, com especial cuidado na ligação à retaguarda. Assim: Missão » Distância a Nampula » Frequências » Equipamentos » Mastros » Antenas » Baterias/Geradores » Maior dimensão » Maior carga individual » Carga Total. Com a entrada ao serviço do RF-301A de sintonia contínua e cobrindo a banda entre os 3 e os 30 Mc/s, as condições operacionais melhoraram grandemente.
Um local de recepção para o Centro de Transmissões de Nampula
Dada a experiência que tinha adquirido no Centro Receptor dos CTT, em Barcarena, onde por requisição dos CTT (Correios e Telecomunicações de Portugal, E. P) trabalhei em part-time entre 1967, ano da minha licenciatura, e 1970, ano da mobilização, foi possível aperceber-me que o local do Comando Operacional das Forças de Intervenção (COFI) em Nampula era pouco adequado para Centro Receptor/Transmissor de ligação ao Comando Avançado dessas Forças.
Procedi, com equipamentos emprestados pelos CTT, onde o Eng.º Guimarães era o chefe, à medição de recepção de sinais em vários pontos de Nampula para emissões de Vila Cabral, Mueda e Tete.Verifiquei que havia uma melhoria de mais de 6 db em relação ao COFI, justamente nuns terrenos devolutos existentes fora do Regimento do Serviço de Material, nas traseiras do QG/RMM.
Por proposta minha foi decidido montar aí o Centro de Transmissões de Campanha, o qual, em pouco tempo, permitia a escuta de todas as nossas comunicações (das tropas portuguesas), onde quer que actuassem em território de Moçambique, na banda HF.
Emissor/Receptor RF-301A e o apoio longínquo

Com uma potência de saída de 100 watts PEP, a uma temperatura exterior de +50 graus, em banda contínua entre os 3 e os 30 Mc/s era muito fácil socorrer companhias e pelotões em aflição nas diversas linhas da frente que, embora relativamente perto das suas unidades de apoio, estas os não podiam ouvir por estarem aquém da distância de salto e, portanto, em silêncio rádio.
Nós, que estávamos longe, podíamos ouvir uns e outros. Ao ouvirmos os apelos, fazíamos de relé, chamando os destinatários e informando-os do que se estava a passar. Recebíamos as respostas e repetíamo-las para o remetente, acompanhando ainda algumas vezes o diálogo de socorro até à entrada em contacto do socorrente com o socorrido. Muitos de nós salvamos situações difíceis e nem sequer sabemos a quem o fizemos.
Nos primeiros tempos e devido à inexistência do material adequado para o que pretendíamos fazer, tive de ser eu a operar os meios e a ensinar aos furriéis os truques que permitiam mesmo assim garantir as comunicações de interligação entre entidades servidas pelos meios fixos (telefones da rede de Nampula e outras) e pelas móveis (servidas pelos meios rádios das unidades da frente).
Mesmo sem equipamentos de comunicações adequados conseguia-se estabelecer ligações e garantir comunicação entre entidades destas diferentes redes, quase sem que estas se apercebessem de que estavam a ser servidas por meios tão rudimentares como aqueles de que dispúnhamos. A coisa ganhou tal eficiência que o Comandante do BTm2 baptizou as instalações de “Vietname do Cruz Fernandes”, e fazia gala de espalhar pela oficialidade da guarnição que já não havia no território de Moçambique sítio onde “ele – Comandante de Batalhão” – não chegasse.
O nome deste Posto de Comando chegou de facto tão longe e foi tão conhecido que quatro anos depois, quando o primeiro delegado da Frelimo foi recebido em Nampula, um dos primeiros pedidos que fez foi “se podia saber onde era o Centro de Operações DARDO”. Dardo era o indicativo deste Posto Director e Macaco o meu próprio indicativo.
Vinte anos depois voltei a Nampula na missão de Paz ONUMOZ e quis visitar em romagem de saudade este local de onde partiu tanta ajuda a camaradas em aflições, mas toda a área era de acesso expressamente interdito.
Como funcionava o “Vietname”
Os equipamentos estavam encerrados em três viaturas cobertas e o pessoal dormia em tendas de campanha. O Posto estava guarnecido 24 horas por dia, todos os dias do ano.
Cobria duas faixas de frequências, uma que ia dos 3 aos 30 Mc/s, com o RF 301, e outra para meios aéreos que se estendia até para lá dos 300Mc/s. Para a faixa dos 3 aos 30Mc/s foi montado um sistema constituído por três dipolos dobrados de 600 Ohms de impedância de carga, montados em triângulo equilátero, radiando de modo que os eixos dos lobos de maior potência passavam respectivamente por Cabo Delgado (Mueda), Tete e Lourenço Marques.
A distância de salto podia variar-se fazendo variar a distância dos dipolos ao solo e a frequência, de modo que conforme a hora do dia assim se podia garantir haver sempre uma conjugação óptima para cada ligação. Convém notar que para estas distâncias havia todos os dias 15 minutos de manhã e outros 15 à noite durante nos quais não era possível qualquer ligação, devido à transição brusca da ionização da ionosfera nos momentos do nascer e do pôr-do-sol.
As baixadas dos dipolos terminavam em fichas num painel no interior da viatura de operação, a qualquer das quais podia ser ligado o equipamento RF 301.
Tornavam-se assim os dipolos intermutáveis, permitindo, com a simples troca de ficha, passar da ligação com Cabo Delgado para a de Lourenço Marques ou Tete e vice-versa.
Ao fim de algum tempo todo o espaço de Moçambique estava aferido e em condições de cobertura e vigilância.
Um conjunto de antenas funcionando acima dos 30Mc/s foi montado de modo semelhante e permitiam também transpor o sinal de uma rede de campanha para a outra ou fazer a integração rádio-fio, como os operacionais das Armas gostavam de dizer.
O Comandante-chefe serviu-se deste sistema para se ligar para diferentes locais dentro de Moçambique com entidades de uma lista selecta, quer estivesse em Nampula e o correspondente fora, quer ao contrário.
Dentro do mesmo espaço existiam ainda geradores de campanha adaptados a arrancar automaticamente por falta de corrente da rede e tomar a carga do Centro.

Como funcionava o “Vietname”
Os Híbridos
Nos primeiros tempos só se conseguiam chamadas telefónicas através deste posto usando um truque de operação ou artifício técnico. O artifício resultava da necessidade de passar as ligações a quatro fios para ligações a dois fios e não se dispor de equipamento adequado que tornasse a operação automática. Quando se fala ao telefone o par que leva o que se diz é o mesmo que traz o que se escuta, fala-se por um lado e escuta-se por outro.
Nos telefones a passagem de 4 a 2 fios está resolvida tecnicamente porque neles há uma ponte de Wheatstone que realiza esta operação sem darmos por isso. Numa comunicação rádio é preciso carregar na palheta para emitir e libertá-la para receber. Esta operação era conseguida sem híbrido entre um utente em Nampula e outro em Mueda, por exemplo, utilizando o alto-falante monitor do RF 301 e proceder do seguinte modo:
- Chamava-se pela rádio o destinatário e punha-se em linha;
- Chamava-se Nampula pelo telefone, punha-se em linha e dizendo: Nampula pode falar. Nesse momento premia-se a palheta e punha-se Nampula em emissão, monitorando a conversa pelo alto-falante do rádio, de modo que quando Nampula terminasse libertava-se a palheta, o rádio passava a recepção e dava-se a vez à resposta de Mueda.
Por estranho que possa parecer, este foi o modo como muitas mães ouviram os seus filhos espalhados pelas terras distantes de Moçambique, no Batalhão de Telegrafistas em Lisboa, naquilo que ficou para a história como ”Hora da Saudade”. Isto já aconteceu em 1971, depois de interligados o Centro Emissor na Represa com o Centro Receptor no BTm2. Voltarei a falar desta ligação. A forma artesanal aqui descrita, que se baseia numa tremenda escassez de material, mas numa sólida formação técnica dos quadros de transmissões, foi posteriormente eliminada.
Numa das reuniões matinais com o Comandante Francisco Simões – alturas em que geralmente ele era brilhante – referi os malabarismos a que era preciso recorrer para suprir com saber o que faltava em meios técnicos para cumprir a missão. O Comandante piscou um olho, arregalou o outro e disse: “Espera aí, híbridos há-os em Lourenço Marques”. Eram onze equipamentos e serviam perfeitamente. A partir daí deixou de ser preciso assistir às chamadas e carregar na palheta.
(continua)
Lisboa, 2 de Dezembro de 2006

