As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916
Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias
4. Breve História das Transmissões no Exército Português até 1916
A primeira unidade militar de Transmissões em Portugal foi o Corpo Telegráfico, criado em 1810, pioneiro das telecomunicações militares e civis em Portugal.
Introduziu no país dois sistemas que revolucionaram as telecomunicações da época no país.Em primeiro lugar, a telegrafia ótica, a qual funcionou com base no telégrafo de ponteiro
e no telégrafo de postigos
inventados por Francisco Ciera, que estiveram presentes na defesa das Linhas de Torres, e cuja utilização se prolongou até 1855 na rede nacional, altura em que foi substituída pela telegrafia elétrica.
Em segundo lugar, a telegrafia elétrica, que foi operada pelo Corpo Telegráfico de 1855 a 1864, e posta ao serviço do público nacional e internacional. Começou por utilizar telégrafos Breguet
que foram depois substituídos por mesas de telégrafo Morse.
Em 1864 o Corpo Telegráfico foi extinto. O seu pessoal foi integrado numa organização civil do Ministério das Obras Públicas, a Direção Geral dos Telégrafos e Faróis.
A estratégia para a reintrodução das Transmissões no Exército deveu-se a Fontes Pereira de Melo e traduziu-se na inauguração, em 17 de setembro de 1873, da 1ª rede telegráfica militar com 13 estações, e em 1884, com a criação da Companhia de Telegrafistas do Regimento de Engenharia.
Em 1901, por decreto de 7 de Dezembro, foi criada a Companhia de Telegrafistas de Praça.
Só com a reorganização do Exército de 1911 é que veio a ser criado, em 1913, o Batalhão de Telegrafistas de Campanha com uma Companhia de Telegrafistas por Fio (TPF) e uma Companhia de Telegrafistas sem Fio (TSF).
Voltando ao século XIX, devemos acrescentar que se assistiu à expansão da rede telefónica, que no início usou o telefone de mesa de Bramão concebido em 1879 por Cristiano Augusto Bramão (oficial do Corpo Telegráfico)
e que é considerado uma referência a nível internacional, porquanto é o primeiro aparelho do mundo que apresenta, reunidos numa única peça, o auscultador e o microfone.
As redes de comunicações conheceram uma crescente expansão entre os finais do século XIX e início do século XX, como mostram os mapas das redes existentes nesta época:
Rede de pombais, que se manteve até à década de 30 do século XX;
Rede de heliógrafos, que ainda fazia serviço em 1933.
A rede telegráfica, que conheceu uma enorme expansão em todo o território nacional, era o principal meio de comunicação quando a Divisão de Instrução se concentrou em Tancos.
Em relação à telegrafia sem fios (TSF), o Exército realizou em 1901 as primeiras experiências de rádio com material encomendado ao fabricante francês Ducretet, que era constituído por um emissor e por um recetor Ducretet.
Em 1909 foram adquiridas 4 estações de telegrafia elétrica Telefunken, sendo duas fixas e duas de campanha hipomóveis (MT1 e MT2).
De 1915 a 1917 foram adquiridas 11 estações Marconi – 5 a dorso, 3 hipomóveis e 3 automóveis.
Em Abril de 1916 havia no Batalhão de Telegrafistas de Campanha quatro estações de TSF, pois algumas das adquiridas tinham sido mobilizadas com as expedições para Angola e Moçambique.
Eram elas:
Em serviço combinado com a Divisão Naval havia uma estação Telefunken (MT1) em S. Julião da Barra e outra (MT2) em Cascais.
Para mobilizar com a Divisão a constituir, existiam duas estações Marconi (uma MM1 e uma outra MM2), ambas no Batalhão de Telegrafistas de Campanha.
Na Breve história das Transmissões do Exército até 1916, apresentada neste post, ressalta que as Transmissões Permanentes que surgiram com a criação do Corpo Telegráfico tinham, nesse ano, mais de um século de existência, enquanto que as Transmissões de Campanha, criadas em 1884, apenas contavam com pouco mais de 3 décadas de existência.
Recordemos que nas manobras de Tancos foram mobilizados elementos da Companhia de Telegrafistas de Praça (das Transmissões Permanentes) e do Batalhão de Telegrafistas de Campanha, representando, naturalmente, as Transmissões de Campanha.
Lembremos também que em 1873, quando Fontes Pereira de Melo “ressuscitou” as Transmissões do Exército depois da extinção do Corpo Telegráfico, em 1864, criando a rede telegráfica de Lisboa, na área das Transmissões Permanentes, anunciou que o pessoal desta rede se destinava a ser um embrião para formação de um conjunto de pessoal que permitisse a constituição de uma unidade de campanha, o que veio a concretizar com a criação, em 1884, da Companhia de Telegrafistas, integrada no Regimento de Engenharia.
Teria o pessoal da Companhia de Telegrafistas de Praça mantido essa capacidade de desempenhar a contento funções de Campanha nas manobras de Tancos, como o do Batalhão de Telegrafistas de Campanha, preparado exclusivamente para essa missão?
A resposta será dada pelo Aniceto Afonso e Costa Dias, com a clareza e interesse habituais, nos próximos posts sobre a actuação das Transmissões nas manobras e que não pretendo antecipar.