Introdução

Como vimos, o capitão Soares Branco optou por incorporar o relatório do seu adjunto capitão Mascarenhas Inglês, enquanto responsável pelo Serviço Telegráfico da 2ª Divisão, no seu próprio relatório da missão no CEP. Isso permitiu-lhe trazer para o seu relato um testemunho mais próximo dos acontecimentos, traduzindo mais adequadamente a realidade no terreno, pois a partir do dia 6 de abril, a única unidade operacional do Corpo Expedicionário Português passou a ser a sua 2ª Divisão. Mascarenhas Inglês descreveu os acontecimentos com muito pragmatismo, não se afastando muito da sua apreciação técnica, sem tecer comentários ou transmitir opiniões pessoais sobre os factos relatados.

Mas chegado ao fim o relato dos acontecimentos do dia 9 de abril, o capitão Soares Branco retomou o seu relatório, imprimindo-lhe o seu estilo, em que não raras vezes emerge uma visão mais abrangente dos acontecimentos, incluindo as suas opiniões pessoais sobre vários assuntos, que especialmente respeitam ao seu Serviço, mas que abrangem também temas de maior amplitude.

Sistema de TSF e TPS

O capitão Soares Branco aceita desde logo que tanto o sistema de TSF como o sistema de TPS não deram “resultados satisfatórios”, mas não vai limitar-se ao relato factual, que também faz.

A TSF e a TPS no CEP
(Clicar na imagem para a aumentar, e depois, mais abaixo, na definição, e de novo na imagem)

Ora, estes sistemas, no dizer de Soares Branco, não deram “resultados satisfatórios” por várias circunstâncias, que envolvem também responsabilidades exteriores ao serviço telegráfico. Foram estas algumas das razões do não funcionamento destes sistemas:

Entre o QG2 e o XI Corpo pela razão deste não ter ainda dado conhecimento dos indicativos e características da sua estação diretora e não ter por sua iniciativa nunca chamado o posto de QG2.

Entre o QG 2 e as Brigadas porque em Laventie a antena e as árvores de suporte foram derrubadas pelo bombardeamento e as três praças do posto não puderam sem auxílio da Brigada de novo proceder à instalação; em Huit Maisons o pessoal foi atingido logo no começo do bombardeamento sendo morto o chefe do posto; em Cense du Raux a estação, parece por ordem da Brigada, fora desmontada e levada para junto dos Batalhões.

Entre os postos duplos e transmissores, o da 4ª Brigada (…) nada se sabe pois todo o pessoal desapareceu, o da 6ª Brigada (…) foi atingido logo de começo por um morteiro tendo tudo ficado soterrado; o do posto de Landsdown funcionou até perto das dez horas, mas como tinha ligação bilateral com o da 6ª BI não obteve nunca resposta.

(Clicar na imagem para a aumentar, e depois, mais abaixo, na definição, e de novo na imagem)

Linhas enterradas e outros meios

Em relação ao sistema de linhas enterradas, que tinha sido possível instalar na zona portuguesa, “só funcionou bem na ligação do 1º GBA com o 5º GBA e entre o 1º GBA e o Batalhão de Landsdown Post a qual funcionou sempre”. Para isso, Soares Branco encontra a explicação nas decisões tomadas sobre o dispositivo final, quando as unidades portuguesas tiveram de ocupar posições diferentes daquelas que estavam preparadas, não só do ponto de vista da organização no terreno, como das ligações que tinham sido estabelecidas. De facto, as poucas linhas que funcionaram, eram “as únicas que se tinha podido utilizar do sistema já feito, dada a nova distribuição de sectores”, porque “de todas as ligações possíveis a aproveitar descritas (…) nem uma só mais podia ter aplicação”.

Não pode por isso, Soares Branco perder a ocasião de expressar o que pensa acerca da forma como as unidades portuguesas foram distribuídas pela sua zona de ação:

Tendo havido assim uma forma tão arbitrária de colocação de comandos sem que o Serviço Telegráfico nem sequer fosse ouvido não admira o pleno insucesso do sistema que tanto trabalho tinha dado a construir.

O Serviço Telegráfico da 2ª Divisão fora pois obrigado a estabelecer as comunicações duma forma certamente defeituosa que era a única possível dada a frequência de mudança de ordens e a natureza destas.

Era assim por exemplo que as antigas estações de La Gorgue, Cockshy House e Vangerie tinham de funcionar como estações intermédias fornecendo, por ligações laterais e paralelas à frente, as comunicações necessárias aos diferentes comandos.

Como daquilo que afirmamos apresentamos cabais e abundantes provas a quem há de julgar estes acontecimentos competirá averiguar aonde vão parar as responsabilidades deste estado de coisas.

Por nós resta-nos ainda desfazer uma lenda que ouvimos já na boca de alguns e que poderia levar à conclusão de que às 06h50 o inimigo forçara alguém que estivesse no extremo do troço principal longitudinal do antigo sector da 1ª Divisão a transmitir a ordem de alto fogo às nossas Baterias. (…)

Soares Branco dedica a esta questão um conjunto alargado de informações, provando que não podiam ter sido as forças alemãs a transmitir a ordem de cessar-fogo à Artilharia, começando por focar o contexto da situação:

Dos sobreviventes da secção de sinaleiros do Batalhão pode saber-se que tendo sido cortada logo de começo uma das linhas do Batalhão para uma Companhia foi esta mandada reparar e o guarda-fios de regresso em vez de se dirigir para a sede do Batalhão ficou na Companhia de Apoio donde só retirou às 09h45 sem que os alemães dela se tivessem apossado.

A Companhia da direita, segundo informações do telefonista de serviço, conservava ainda duas horas depois do bombardeamento as suas ligações com os postos de SOS e por eles pedia socorro.

Ainda depois das 06h00 havia comunicações entre a Companhia e a 1ª linha e com o Batalhão.

Foi só entre as 07h00 e as 08h00 que uma das linhas (…) para o Batalhão foi cortada e só posteriormente se recebeu pedido (…) para lhe ser dada comunicação (…) para o Batalhão.

E conclui:

Sendo assim parece-me que impossível era a informação dada ao 1º GBA pelas linhas enterradas fosse já feita pelo inimigo (…).

Na verdade, das informações fornecidas pelo oficial de ligação da 6ª Brigada se conclui que cerca das 06h20 a barragem sobre a linha da frente parece ter cessado o que certamente correspondeu ao pedido às 06h50 feito de Infantaria 17 para fazer cessar também o fogo da nossa Artilharia.

É só às 10h00 que um oficial observador da Artilharia confirma que o inimigo está em Landsdown House.

Soares Branco termina esta parte do seu relatório com uma breve referência ao sistema de linhas aéreas, o primeiro que sofreu as consequências do ataque alemão, “visto ter os seus traçados ao longo das estradas e postes de junção em cruzamentos de caminho”. Também às linhas de cabo, que “foram aquelas que durante mais tempo funcionaram, mas essa circunstância só derivava do facto das barragens virem gradualmente recuando desde a Brigada às 1ªs linhas”. E ainda às comunicações por pombos-correios, que foram muito pouco úteis, e finalmente às ligações por aeroplanos, para dizer que “não houve nenhumas durante o combate; certamente devido ao nevoeiro que sempre se manteve durante todo o dia”.

O relatório propriamente dito termina aqui. Segue-se um capítulo de “conclusões e ensinamentos”, ao qual nos referiremos em novos textos.

Conclusão

Este longo relatório do responsável pelo Serviço Telegráfico do CEP, capitão Soares Branco, que ainda continuaremos a analisar, transmite-nos um testemunho único, acompanhando quase dia-a-dia os trabalhos, opções, dificuldades e atuação do Serviço. Não é um relatório de fácil consulta, mas situa-se muito acima de outros relatórios sectoriais que os respetivos responsáveis nos deixaram. É sem dúvida a primeira vez que o Serviço Telegráfico, antecessor da Arma de Transmissões do Exército Português, assume a responsabilidade de planear, apoiar e executar uma manobra tecnicamente autónoma, contribuindo, como outras, para o cumprimento da missão do Corpo Expedicionário Português em terras de França, durante a Primeira Guerra Mundial. E, apesar das dificuldades de um Serviço jovem e inexperiente, deixar marcas indeléveis na memória de todos os que com ele se relacionaram. As distinções de que foi alvo, e de que daremos conta mais adiante, confirmam o esforço, a dedicação e o sacrifício de muitos dos seus elementos.