
Chefe da Repartição de Comunicações e Sistemas de Informação do Comando das Forças Terrestres (CFT)
O ambiente operacional atual é marcado por uma imprevisibilidade e letalidade crescentes, onde a tecnologia, a inteligência artificial, os sistemas autónomos e as ameaças híbridas (incluindo os ciberataques) são uma presença constante. Neste contexto, uma força militar, ainda que devidamente preparada e equipada, pode ver a sua posição rapidamente comprometida aquando da emissão de comunicações rádio. A deteção e a geolocalização dessas emissões permitem a sua exploração por sistemas adversários, potencialmente conduzindo à execução de fogos de precisão num curto intervalo de tempo.

Figura 1 – A letalidade da geolocalização atual
Este cenário, que há poucos anos poderia ser visto como excecional, traduz hoje uma realidade operacional cada vez mais plausível. A evolução tecnológica, aliada à proliferação de sensores, sistemas não tripulados e capacidades ciber, transformou o ciberespaço e o espetro eletromagnético num campo de batalha decisivo.
Deste modo, a integração da Guerra Eletrónica, das Operações no Ciberespaço e da Gestão do Espetro Eletromagnético, materializada no conceito de Combate Ciber-Eletromagnético (CEMA – Cyberspace Electromagnetic Activities), deixa de ser uma questão técnica e assume-se como um fator crítico para a sobrevivência da força e para a continuidade do Comando e Controlo (C2).
O Paradoxo do C2 Moderno
O desenvolvimento tecnológico tem proporcionado ganhos evidentes em termos de capacidade de comando, consciência situacional e velocidade de decisão. No entanto, estes mesmos ganhos introduziram simultaneamente um conjunto de vulnerabilidades estruturais.
Atualmente, quanto mais avançado é um sistema de C2, maior tende a ser a sua assinatura eletromagnética. Cada sensor, rádio ou terminal constitui um potencial emissor, passível de ser detetado, geolocalizado e explorado pelo adversário.
Este fenómeno traduz-se num paradoxo: a necessidade de comunicar para exercer o C2 entra em conflito direto com a necessidade de evitar a exposição.
Para o comandante, este dilema torna-se cada vez mais evidente. Se emite, consegue coordenar a manobra e sincronizar fogos, mas aumenta o risco de deteção e neutralização. Se opta pelo silêncio, preserva a força, mas perde o controlo da operação. A continuidade do C2 passa, assim, a depender da capacidade de operar neste espaço intermédio, onde a emissão é cuidadosamente gerida e a assinatura eletromagnética é controlada.
Da Guerra Eletrónica às Operações no Ciberespaço
Historicamente, a Guerra Eletrónica centrou-se na utilização do espetro eletromagnético para garantir superioridade operacional, através de atividades de vigilância, proteção e ataque. Paralelamente, a crescente digitalização dos sistemas militares levou ao desenvolvimento das Operações no Ciberespaço, com foco na proteção e exploração das redes de informação.

Figura 2 – Os domínios operacionais e o espetro eletromagnético
Apesar de distintos na sua origem, estes dois domínios evoluíram de forma convergente. Ambos procuram influenciar sistemas de informação e degradar a capacidade de decisão do adversário, atuando sobre diferentes camadas, físicas e digitais, do mesmo sistema.
O conceito de CEMA surge precisamente como resposta a esta convergência, integrando de forma coordenada as capacidades de Guerra Eletrónica, Operações no Ciberespaço e Gestão do Espetro Eletromagnético, com o objetivo de garantir vantagem no ambiente informacional.
A Figura 3 ilustra a correspondência entre as ações tradicionais da Guerra Eletrónica e os seus equivalentes nas Operações no Ciberespaço, evidenciando uma natural similaridade decorrente da partilha de objetivos estratégicos comuns: garantir superioridade informacional e negar capacidades ao adversário.

Figura 3 – Equivalência entre a Guerra Eletrónica e as Operações no Ciberespaço
Ambas atuam sobre sistemas críticos: a Guerra Eletrónica no espetro eletromagnético e as Operações no Ciberespaço nas redes digitais, utilizando técnicas de vigilância, defesa e ataque. Esta complementaridade permite uma interação eficaz, como a coordenação entre empastelamento de comunicações e ataques ciber, potenciando efeitos combinados para desorganizar sistemas adversários e proteger as nossas próprias infraestruturas.
O Conceito CEMA
O conceito de CEMA surgiu no seio do Exército dos EUA entre 2009 e 2010, como resposta às lições aprendidas no Iraque e no Afeganistão. A necessidade de integrar capacidades de Guerra Eletrónica com Operações no Ciberespaço levou à criação de unidades experimentais e à formalização doutrinária do conceito.
Em 2016, o Reino Unido foi o primeiro país da NATO a adotar formalmente uma abordagem integrada de CEMA, criando estruturas de coordenação entre Guerra Eletrónica, Operações no Ciberespaço e Gestão do Espetro Eletromagnético. A doutrina britânica realça que o elemento central do CEMA é a sua capacidade de sincronizar e coordenar atividades internas e externas ao próprio CEMA, garantindo efeitos coerentes através da força conjunta.
No contexto da União Europeia (UE), o reconhecimento do CEMA tem sido mais lento. Embora vários Estados-Membros da UE reconheçam a importância da convergência entre os domínios ciber e eletromagnético, ainda não existe uma doutrina unificada. Projetos como o CETAL (Cyber Electromagnetic Activities at Tactical Level) e soluções industriais inovadoras, desde plataformas de treino e simulação até sistemas de gestão dinâmica do espetro e proteção anti-drone, ilustram o esforço conjunto para dotar as forças armadas europeias de capacidades avançadas nesta área.
No contexto nacional, a edificação da Força Terrestre 2045 (FT45) deve tender para a integração de módulos e equipas especializadas em defesa eletrónica, operações ciber, proteção e resposta, bem como centros de operações táticos e núcleos de coordenação, sendo necessário proceder-se a uma reorganização de unidades segundo este conceito.
CEMA no Ambiente Operacional Atual
Os conflitos recentes demonstram que o domínio do ciberespaço e do espetro eletromagnético é determinante para o sucesso operacional.
A geolocalização de emissões rádio ou sinais GSM permite localizar e neutralizar postos de comando em muito pouco tempo, reduzindo drasticamente a sua capacidade de sobrevivência. Em paralelo, a guerra de drones demonstrou que a negação do espetro, por meio de técnicas de empastelamento, constitui uma das principais formas de defesa.
Para além dos efeitos técnicos, importa considerar a dimensão informacional. A utilização de redes móveis para disseminação de mensagens ou a exploração de dispositivos pessoais introduz novas vulnerabilidades, reforçando a necessidade de uma rigorosa disciplina digital.
Em termos operacionais, as operações modernas exigem sincronização de efeitos. Empastelar comunicações no momento exato de um ataque ciber potencia o impacto, enquanto a ausência dessa coordenação reduz significativamente a eficácia de ambos.
Neste enquadramento, o CEMA deve ser entendido como uma capacidade de manobra. Não se trata apenas de apoiar as operações, mas de moldar o ambiente operacional, negando o uso do espetro ao adversário e garantindo a liberdade de ação das forças amigas.
Notas finais
O C2 como alvo prioritário
O combate moderno evidencia que o Comando e Controlo (C2) é um alvo prioritário. A sua degradação ou interrupção pode comprometer a manobra antes mesmo do primeiro contacto cinético.
CEMA como condição de sobrevivência
Neste contexto, o CEMA afirma-se como uma condição essencial para a sobrevivência da força terrestre. A integração efetiva da Guerra Eletrónica, das Operações no Ciberespaço e da Gestão do Espetro Eletromagnético deve, por isso, ser assumida como uma prioridade estrutural.
Implicações para a Força Terrestre
Para a Força Terrestre, esta evolução exige ajustamentos organizacionais, investimento em formação especializada e adoção de soluções tecnológicas que assegurem resiliência, interoperabilidade e flexibilidade.
Mais do que uma capacidade de apoio, o Combate Ciber-Eletromagnético é hoje um elemento determinante da manobra. A sua correta integração será decisiva para garantir a liberdade de ação e a eficácia do C2 nos conflitos futuros.

Figura 4 – Ilustração do Combate Ciber-Eletromagnético
