Autor : Capitão Tm (Eng.) Humberto Costa.
Comandante da Companhia Guerra Eletrónica

Contexto Operacional

O conflito contemporâneo desenrola-se num Ambiente Operacional Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo (VICA). Neste contexto, emerge um adversário peer-to-peer ou near-peer, materializado por Ameaças Híbridas apoiadas em Tecnologias de Informação (TI) e inbuidas no Ambiente de Informação (AInfo). O conflito entre a Ucrânia e a Rússia constitui um exemplo particularmente elucidativo desta realidade.

É neste enquadramento que uma Capacidade Terrestre de Guerra Eletrónica e Informações de Sinais (CTGEIS) eficaz pode assumir um papel decisivo. Esta capacidade é operacionalizada exclusivamente pela Companhia de Guerra Eletrónica (CompGE) do Regimento de Transmissões (RTm), cuja missão consiste em conduzir Operações Terrestres de Guerra Eletrónica e Informações de Sinais (OpGEIS), integradas em Operações de Informação (IO- Information Operations) e Informações. O objetivo é contribuir para a superioridade de Informação e de Decisão, assegurar a liberdade de ação no Espectro Eletromagnético (EM-Electromagnetic Spectrum) e apoiar as Operações Militares Terrestres, existentes ou emergentes.

Funções e Contributos da Companhia de Guerra Eletrónica

  • Apoiar, em Apoio Direto (A/D), os Elementos da Componente Operacional do Sistema de Forças (ECOSF) através de OpGEIS.
  • Participar no esforço nacional de Informações de Sinais (SIGINT- Signals Intelligence), recolhendo dados paramétricos de natureza eletromagnética para atualização da Base de Dados de Emissores Nacionais (BADEN), da Base de Dados de Informações de Sinais (BADIS) e da NATO Emitter Data Base (NEDB) da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).
  • Contribuir para a recolha e produção de informações destinadas ao Estudo do Campo de Batalha, identificando emissores pelas suas características específicas de emissão.
  • Construir e atualizar a Ordem de Batalha Eletrónica (EOB- Electronic Order of Battle).
  • Integrar, através do Agrupamento de Informações, Vigilância, Aquisição de Objetivos e Reconhecimento (AgrISTAR), o sistema ISTAR, difundindo informação de forma oportuna e segura.

Conceito de Emprego da CTGEIS

CTGEIS

No novo conceito de emprego, e numa perspetiva holística, a CTGEIS deve ser entendida segundo duas facetas complementares: a de Sistema de Sensores e a de Sistema de Armas.

Na faceta de Sistema de Sensores, orientada para contribuir para a precisão factual e temporal da Consciência Operacional (SA- Situational Awareness) e através da produção de informações obtidas no EMS, no sentido de fornecer. informações de fonte única (one-source intelligence) relevantes, precisas e oportunas sobre o dispositivo, capacidades e intenções do Agente de Ameaça.

A CTGEIS como
Sistema de Sensores

Enquanto Sistema de Armas, a CTGEIS visa o domínio do EMS através do emprego de armas de energia dirigida (DEW-Directed Energy Weapons), sob a forma de empastelamento eletrónico, deceção ou neutralização eletrónica sobre os sistemas de Comando, Controlo, Comunicações, Computadores, Informações, Vigilância e Reconhecimento (C4ISR- Command, Control, Communications, Computers, Intelligence, Surveillance and Reconnaissance) do Agente de Ameaça. Desta forma, procura impedir que o adversário obtenha vantagem no uso do EMS e garantir a liberdade de movimentos das nossas Forças.

A CTGEIS como
Sistema de Armas

É através desta dicotomia que a CTGEIS pode ser integrada no Special Operations Task Group (SOTG) contribuindo para o esforço de pesquisa e produção de Informações, e Fogos (fogos não letais). Desta forma, a CTGEIS fornece ao SOTG a possibilidade de desenvolver Operações Eletromagnéticas táticas defensivas, ofensivas e de exploração, catapultando as suas possibilidades no AInfo.

Enquadramento Operacional

A Força de Operações Especiais (FOE) do Centro de Tropas de Operações Especiais (CTOE) é a responsável pela operacionalização do framework do SOTG através do Comando e Estado Maior (Cmd&EM), uma Special Operations Land Task Unit (SOLTU) e respetivo Apoio de Combate e de Serviços, garantindo uma força Mission Capable para executar as operações atribuídas à Força de Reação Imediata (FRI) que se enquadrem no âmbito de aplicação da Componente de Operações Especiais.

Simbologia da FOE: emblema de baixa visibilidade para os uniformes de campanha

As FOE executam missões táticas de interesse operacional e estratégico, podendo conduzir os seguintes tipos de operações:

  • Ação Direta (AD)
  • Reconhecimento Especial (RE)
  • Assistência Militar (AMil)
  • Ação Indireta (AI)

A CTGEIS, pode ser integrada em qualquer uma destas operações, mediante ne¬cessidade identificada pelo Comando do SOTG, pesquizando, gerindo e produzindo SIGINT através do Elemento Tático de Controlo e Análise (ETAC- Tactical Control and Analysis Element) e das Equipa Destacável de GE (EDGE).

Elemento de uma Equipa Destacável de GE (EDGE) focada no apoio ao SOTG

Estrutura de Apoio: ETAC e EDGE

No Cmd&EM, o ETAC é responsável por avaliar, atualizar e manter a informação e as bases de dados SIGINT, bem como produzir SIGINT crítica e time-sensitive para integração no Processo de Produção de Informações e no planeamento do SOTG. Compete-lhe ainda determinar tarefas específicas de pesquisa, monitorizar a eficácia dessa pesquisa, garantir apoio técnico às EDGE e assegurar o planeamento e o relato em matéria de SIGINT.

As EDGE são equipas táticas de baixo escalão, altamente flexíveis e modulares, que podem ser empenhadas em diferentes condições e tipologias de operações em apoio ao SOTG. A sua missão é pesquisar, intercetar e relatar dados técnicos e táticos relativos a comunicações e não comunicações do Agente de Ameaça, de forma discreta, bem como assegurar apoio em termos de Ataque Eletrónico.

Adicionalmente, as EDGE podem ser projetadas em A/D à SOLTU ou em A/G ao SOTG, quer de forma isolada, ligando-se posteriormente a uma SOLTU no Teatro de Operações, quer em projeção combinada com uma SOLTU. Neste último caso, a integração é ajustada às valências necessárias à missão e pode orientar-se para:

  • A aquisição de dados para posterior produção de Informações.
  • A aquisição de dados que apoiem a manobra tática do Field Commander.
  • A aquisição de dados que orientem o emprego de meios estratégicos, como satélites de vigilância.
  • O emprego de fogos não letais ofensivos, com vista a negar a capacidade de resposta ou de ação do Agente de Ameaça e a potenciar os efeitos da SOLTU.

Treino, Lições Identificadas e Conclusão

Para cumprir a sua missão, a FOE desenvolve treinos complexos, flexíveis e precisos ao nível do Operador, da SOLTU e do SOTG, integrando os respetivos enablers – entender como apoios de combate e de serviços. Neste contexto, o Exército realizou o exercício VIRIATO 22, no qual o SOTG foi treinado de forma combinada. Para a CTGEIS, os principais objetivos passaram por compreender a forma de atuação de uma FOE, estabelecer e adequar Técnicas, Táticas e Procedimentos (TTP) de planeamento, execução e relato de OpGEIS, bem como realizar os necessários initial cross-trainings com as SOLTU.

Do exercício resultaram lacunas e limitações ao nível das TTP, que se encontram em processo de mitigação e correção, nomeadamente:

  • A incapacidade de transmitir dados em tempo real, dificultando o fingerprinting — identificação dos Sinais de Interesse (SOI-Signal of Interest) —, a respetiva análise e o subsequente threat tippering, essencial para atualizações urgentes sobre a ameaça, SA e targeting.
  • Dificuldades na gestão da informação ao nível do fluxo input/output entre EDGE–ETAC–EDGE, com impacto no Comando e Controlo e na análise de SOI.
  • Dificuldade em acompanhar o battle rhythm e as TTP específicas das FOE.

De forma geral, a atuação e a integração da CTGEIS no SOTG foram consideradas uma mais-valia operacional. As informações produzidas foram avaliadas como relevantes, precisas e oportunas, o que confirma a CTGEIS como um efetivo multiplicador de força do SOTG.

Referências:

  • Exército Português, (2014), PDE 3-67-00 Operações Especiais;
  • NATO, (Sep 2022), SOTG Manual, Ed B, V 1, NATO Special Operations Headquarters;
  • Department of the Army (July 2001), FM 3-05.102 Army Special Operations Forces Intelligence, U.S. Army Headquarters;
  • Estado Maior do Exército, (2014), Sistema de Forças, Agrupamento de Informações, Vigilância, Aquisição de Objetivos e Reconhecimento, Quadro Orgânico 09.02.08, Companhia de Guerra Eletrónica;
  • Department of the Army, (2010), Military Intelligence Publication 2-0.1 Intelligence Reference Guide, U.S. Army Intelligence Center of Excellence;
  • NSO, NATO STANDARD, (2020), Allied Joint Doctrine for Electronic Warfare, NATO;
  • Department of the Army, (2010), FM 3-36 Electronic Warfare, U.S. Army.

Fonte: A Mensagem, Boletim Informativo do Regimento de Transmissões, Ed. 2023, Porto
O artigo foi reestruturado pela CHTm em 2026

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