Autor : Capitão Tm (Eng.) Tiago Araújo Gouveia.
Comandante da Companhia de Transmissões de Apoio, 2023

Enquadramento e origem do conceito FMN

O conceito de Federated Mission Networking (FMN) surgiu no seio da NATO em 2015, após ser identificada pelos altos escalões da International Security Assistance Force (ISAF) a existência de uma dificuldade de comunicação e partilha de informação entre as forças militares de vários dos seus países membros, entre os quais figuravam vários países membros da NATO.

Após uma extensa análise, verificou-se que estas dificuldades prejudicavam o desempenho operacional das várias forças desta coligação, uma vez que as mesmas não conseguiam partilhar as indicações do Comando nem implementar um sistema de Informações adequado. Estas falhas de comunicação aumentavam significativamente os riscos para a eficiência das operações, a alocação de recursos e até para a própria vida dos militares pertencentes à ISAF.

Surgindo como uma predecessora do conceito de FMN, a Afghanistan Mission Network (AMN) procurou colmatar as falhas descritas anteriormente, implementando padrões de interoperabilidade no seio da ISAF e permitindo uma maior facilidade de comunicação e partilha de informação entre as várias forças que a constituíam. No entanto, concluiu-se que a AMN apenas se constituía como uma solução para os problemas no âmbito da ISAF. No âmbito organizacional, a NATO necessitava de um conceito mais abrangente, que permitisse às forças dos seus países membros garantir um nível adequado de interoperabilidade e partilha de informação, em todo o espetro de operações onde atua.

Na sua génese, o conceito de FMN permite que exista uma interação de pessoal, processos e tecnologias para partilha de informação ou serviços entre os participantes federados de uma missão, e inclui, mas não se limita à existência de uma série de redes de computadores, interligados e autónomos, utilizados na condução de operações e exercícios de coligação. Assim, a FMN é a forma como as forças dos vários países membros da NATO estão interligadas. Desta forma, a eficácia operacional que é necessária para o sucesso de uma missão, é alcançada rapidamente.

Segundo a doutrina NATO, uma força NATO considera-se preparada para desempenhar uma dada missão se corresponder aos seguintes parâmetros:

  • Obtém interoperabilidade entre os vários constituintes da força desde o início – “Day Zero Interoperability”;
  • Partilha informação entre o pessoal que a constitui de forma segura e fluída;
  • Providencia uma única visão do campo de batalha, ao longo de uma rede de missão segura;
  • Fornece redes e serviços de missão atempadamente, providenciando informação consistente, segura, precisa e fiável;
  • Contempla pessoal treinado, que tenha a capacidade de apoiar ciclos de decisão e tirar o máximo partido das redes, sistemas e serviços fornecidos.

De forma a corresponder a estes parâmetros, e atendendo ao carácter organizacional da NATO, o conceito de FMN assenta fundamentalmente em três conceitos-chave:

é uma rede federada, onde não existe nenhuma entidade superior e cada participante se compromete a seguir princípios, processos e organização comuns, bem como a fornecer material par a sua concretização;

é uma rede orientada para corresponder ao respetivo cenário operacional onde esteja inserida, incluindo o ambiente de exercício,

e fomenta a interação de pessoal, processos e tecnologia para a partilha de informação ou serviços, criando assim forças interligadas entre si.

Adicionalmente, este conceito assenta nos seguintes princípios-chave: operar num futuro incerto; permitir máxima reutilização e eficiência de custos; permitir vários níveis de participação; suportar uma federação dinâmica e centrada na informação; sincronizar as evoluções de capacidades dos vários participantes; permitir às organizações desempenhar o papel de parceiros de missão dos estados-membros.

Implementação do conceito de FMN – O conceito de Spiral

De forma a permitir a aplicação e a implementação do conceito de FMN, foi criada uma metodologia de implementação, ou framework, baseada no conceito de Spiral. Uma Spiral consiste num conjunto de especificações técnicas e organizacionais, às quais os países membros da NATO e afiliados da FMN têm de obedecer, de forma a conseguirem obter interoperabilidade com outros países membros, ou em forças constituídas pela NATO.

Conceito de Spiral, no âmbito da FMN (Fonte: NATO)

Dada a evolução constante dos sistemas tecnológicos, bem como das ameaças que os colocam em risco, cada conjunto de especificações é estabelecido tendo em vista um horizonte temporal limitado. Cada Spiral tem um limite de utilização temporal de 4 anos desde a sua conceção. Findo este período, a sua implementação ou utilização em redes de missão NATO é revogada automaticamente.

Além disso, as especificações de cada nova Spiral são publicadas de dois em dois anos, para assegurar que as redes de missão da NATO operam com os princípios e as tecnologias mais recentes. Este modelo de conceção e implementação permite aos países membros evoluir de forma contínua e gradual, garantindo a adoção sustentada de novas tecnologias e conceitos.

Desde a sua conceção até à sua implementação, existe uma metodologia que é aplicada a cada nova Spiral. No decorrer deste processo, são obtidos vários produtos na forma de documentos orientadores, dos quais se destacam os seguintes na figura seguinte

Metodologia de Conceção e Implementação de uma Spiral (Fonte: NATO)

O seguimento do processo descrito na figura anterior permite a implementação de redes de missão NATO com as seguintes características:

  • Baseadas na confiança entre os afiliados FMN;
  • Com disponibilidade imediata de operação;
  • Com um processo de federação rápido;
  • Com um risco limitado;
  • Com interoperabilidade garantida, otimizada e em constante evolução;
  • Eficazes a nível operacional.

O papel de Portugal como um Afiliado FMN

Portugal tornou-se um Afiliado FMN em 2016, tendo assumido um compromisso com a NATO de cumprir os requisitos inerentes à Afiliação de Opção B. Esta opção especifica que Portugal se compromete a obter uma capacidade FMN que lhe permita fornecer uma Mission Network Extension (MNX) para uma determinada instanciação de rede. Segundo as especificações de Afiliação FMN, isto significa que as Forças Nacionais têm capacidade de providenciar a infraestrutura e os serviços de rede necessários para a sua própria operação. No entanto, podem não contemplar todos os serviços essenciais em quantidade suficiente para providenciar uma instância.

Estes exercícios de validação e certificação ao nível FMN revelam-se de uma importância significativa para Portugal, para as Forças Armadas Portuguesas e, consequentemente, para o Exército Português, uma vez que permitem aos participantes testar e validar as suas infraestruturas e serviços de rede, constituindo-se assim como um membro Afiliado FMN fiável e capaz de obter interoperabilidade com outros países membros da NATO em todo o espetro de operações. Adicionalmente, permite adquirir e colocar em prática conhecimentos técnicos especializados, e forma a conseguir manter uma capacidade técnica compatível com os mais altos padrões de desempenho atuais.

Para a consecução dos objetivos relativos ao teste e validação da Spiral 4, o Exército Português participa no exercício V2CN-23 – (FMN) “Federated Mission Network, verification and validation exercise” com quatro elementos: dois elementos da Direção de Comunicações e Sistemas de Informação (DCSI) e dois elementos do Regimento de Transmissões.

Relativamente ao exercício CWIX 23, que tem como objetivo a validação e certificação de um módulo FMN Spiral 3, os quantitativos de participação relativos ao Exército ainda não se encontram definidos. Para ambos os níveis de instanciação, os trabalhos encontram-se a decorrer de forma bastante positiva, sendo expectável que os objetivos nacionais definidos para 2023 no âmbito da FMN sejam atingidos.

FONTE: Texto publicado em “A Mensagem 2023”, Boletim Informativo do Regimento de Transmissões, Porto.

Demonstração de Meios do SIC-T por Ocasião de Visita do Comandante da
Brigada de Intervenção, Brigadeiro-General Mendes Farinha, em 25 de janeiro de 2022.

Síntese Curricular


Oficial de Transmissões com mestrado em Engenharia Eletrotécnica Militar. Atuou como Oficial Subalterno na CTm de Apoio do Batalhão de Tm e as funções de J6 Chief na European Union Training Mission na República Centro Africana (EUTM/RCA). Como Capitão, foi Comandante da Companhia de Transmissões de Apoio e da Companhia de Comando e Serviços do Batalhão de Transmissões. Atualmente é Chefe do Núcleo de Comunicações de Emergência do CEMTEx e frequenta o Doutoramento em Inteligência Artificial no Instituto Superior Técnico.

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