Autor : Coronel de Transmissões (Eng.) José Alfredo Saraiva Mendes

A partir da segunda metade dos anos 1940, a Standard Eléctrica, filial da multinacional americana ITT Corporation nas suas novas instalações fabris na Avenida da Índia, em Alcântara, e a Automática Eléctrica Portuguesa, ligada ao grupo britânico Automatic Telephone and Electric Company Limited e sediada em Cabo Ruivo, desempenharam um papel central no fornecimento de equipamento para as redes telefónicas em Portugal.

Fabricavam e forneciam equipamento de tecnologia importada para as redes da APT (Anglo-Portuguese Telephone Company), mais tarde TLP (Telefones de Lisboa e Porto), bem como adaptações nacionais desenvolvidas pelo Centro de Estudos de Telecomunicações dos CTT para o restante território. Em ambos os casos, tratava-se de unidades vocacionadas para a produção de equipamento eletromecânico.

A STANDARD ELÉCTRICA E A TRANSIÇÃO PARA A PRODUÇÃO ELECTRÓNICA

Produção inicial para o Exército

No início da década de 1960, impulsionada pelas necessidades da guerra colonial, a empresa iniciou a produção de uma linha de equipamentos rádio de onda curta destinada ao Exército. Tratava-se ainda de tecnologia a válvulas, com modulação AM simples e sem SSB:

  • 75 L — utilizado nos “jeepões” de transmissões.
  • 120 L — destinado a ligações fixas.
  • 280 L — previsto para uso fixo, embora o autor não recorde a sua utilização efectiva pelo Exército.

Estes emissores, concebidos para operação fixa, tinham potências de 75, 120 e 280 W, respetivamente. A experiência acumulada com estas encomendas levou a empresa a tornar-se uma referência da multinacional ITT neste tipo de equipamento, permitindo-lhe exportar e instalar redes de polícia em novos países do Médio Oriente.

Esta linha era complementada por um híbrido que permitia estabelecer ligações rádio HF a quatro fios para utilização com um telefone convencional.

À esquerda, um emissor/receptor 75 L; à direita, o emissor de radiodifusão.

Expansão e diversificação tecnológica

A empresa ganhou ainda um concurso internacional para fornecer fontes de alimentação às tropas norte-americanas estacionadas na Alemanha, um contrato relevante que reforçou a sua reputação de qualidade fora de Portugal.

No sector civil, desenvolveu e fabricou equipamento rádio para os balões de sondagem do então Serviço Meteorológico Nacional, bem como um emissor de radiodifusão de 300 W. Registou também progressos importantes no desenvolvimento e fabrico de televisores integrados na linha ITT e destinados à exportação. Com o aparecimento da televisão a cores, criou um circuito que viria a ser utilizado, sob licença, por outras empresas do grupo ITT.

Equipamentos aeronáuticos e comunicações tácticas

Sob licença, a empresa fabricou ainda o SOCRAT (Société de Constructions Radiotéléphoniques) e o AVP-1. O SOCRAT era um emissor-receptor transistorizado, com válvula de potência na saída, capaz de fornecer 750 mW, montado numa pequena caixa metálica. Operava em VHF FM e era destinado a aviões e helicópteros da Força Aérea, sendo compatível com o AVP-1. Para além dos aviões, equipou também os helicópteros Alouette II utilizados na guerra do Ultramar.

O AVP-1, da Thomson-Houston Company (THC), era um emissor-receptor VHF FM na gama 47/57 MHz, usado como microtelefone, com potência de saída de 300 mW, tecnologia transistorizada e seis canais. Foi amplamente utilizado nas comunicações terra-ar, sobretudo na Guiné, onde as distâncias mais curtas dispensavam equipamento de onda curta mais potente.

Nesse período, a Arma de Transmissões ainda não estava formalmente constituída e a actividade encontrava-se subordinada à Arma de Engenharia, essencialmente vocacionada para a construção civil. O Exército não dispunha ainda de engenheiros electrotécnicos, o que dificultou o acompanhamento do desenvolvimento e da produção destes equipamentos, deixando esse esforço quase exclusivamente a cargo da empresa. Ainda assim, as Transmissões prestaram apoio importante e, mais tarde, passaram a participar activamente no desenvolvimento e na produção de equipamento.

Testemunho pessoal e aprendizagem técnica

Como aluno do primeiro curso de engenheiros electrotécnicos da Arma de Transmissões e estagiário do Instituto Superior Técnico, trabalhei na divisão NATO da Standard Eléctrica, onde eram fabricados os rádios militares. Nessa altura, a engenharia da empresa teve de alterar o circuito do SOCRAT, porque o equipamento entrava em realimentação quando se fechava a tampa: a emissão subia até cerca de 1,5 W e a válvula acabava por queimar. Recordo o Eng.º Lobão, responsável da Divisão NATO, e o Eng.º Viana, o “cérebro” a quem se recorria quando surgiam problemas difíceis.

Estas memórias ilustram o conhecimento que a empresa foi acumulando através do desenvolvimento e do fabrico para as Transmissões Militares — um contributo marcante para a indústria electrónica de telecomunicações em Portugal.

Acompanhei também a produção do 120L destinado à Arma de Transmissões. Foi aí que contactei, pela primeira vez, com esquemas electrónicos profissionais, bastante diferentes dos esquemas simplificados ensinados na universidade. O 120L utilizava a conhecida válvula 12AX7, responsável por um amplificador de classe A no circuito áudio, e revelou-se um rádio de qualidade, embora as Transmissões o tenham usado em condições extremas para as quais não tinha sido concebido.

Evolução para o TR-28 e programas subsequentes

CHP-1

No final da década de 1960, a Standard Eléctrica desempenhou um papel relevante na substituição do AN/GRC-9, num processo que culminou na selecção, melhoria e produção do TR-28. Em articulação com o Exército, iniciou actividades com a empresa britânica BCC (British Communications Corporation) para desenvolver e fabricar os modelos CHP-1 e DHS-1.

No entanto, os resultados foram insatisfatórios e o projecto acabou rejeitado pela Direcção da Arma de Transmissões, devido ao peso excessivo dos equipamentos, à fuga de electrólito das baterias e às limitações de autonomia.

A BCC mantinha uma forte ligação à fabricante britânica de rádios militares Racal Electronics Plc, que viria a adquiri-la. A Racal tinha, por sua vez, uma joint venture com a empresa sul-africana S.M.D., onde foi desenvolvido o famoso TR-28.

TR-28 B2

O TR-28 inicial, desenvolvido na S.M.D., apresentava um receptor de fraca qualidade e consumia rapidamente a bateria. A Standard Eléctrica trabalhou então com o Exército e, em conjunto com a Racal sul-africana, introduziu melhorias na recepção e na alimentação eléctrica, assumindo depois a produção do TR-28 B2, utilizado pelas forças armadas portuguesas.

Sempre com intervenção do Exército, esta cooperação entre a Standard Eléctrica e a indústria sul-africana estendeu-se depois aos modelos TR-15 e RT-422, igualmente provenientes da Racal sul-africana.

STPL-30

No final da guerra colonial, o Exército incentivou a Standard Eléctrica a substituir o TR-28 por desenvolvimentos nacionais. Contudo, os protótipos não satisfizeram as exigências e, com o fim da guerra, não avançaram para produção. O 20 TPL e a versão sintetizada 30 STPL não cumpriram os requisitos da DATm, e o projecto foi abandonado, embora o Exército tenha adquirido um lote de equipamentos para testes.

A actividade militar desenvolvida nas décadas de 1960 e 1970 criou um importante know-how na fabricação de electrónica. Esse conhecimento permitiu à empresa alargar posteriormente as suas linhas de produção, incluindo sistemas PCM para digitalização da rede pública, centrais privadas de comutação e, já no final dos anos 1980, o grande projecto das centrais digitais do Sistema 12. A empresa voltou ainda a destacar-se na televisão a cores, ao desenvolver um circuito que seria usado sob licença por outras empresas do grupo ITT.

A AUTOMÁTICA ELÉCTRICA PORTUGUESA E A CRIAÇÃO DA INDÚSTRIA NACIONAL DE ELECTRÓNICA

A Automática Eléctrica Portuguesa não tinha experiência na produção electrónica. A sua actividade era, sobretudo, electromecânica, fortemente influenciada pelo modelo industrial inglês e marcada por uma cultura mais conservadora.

Crise e tentativa de reestruturação

No final da década de 1970, a passagem para a comutação electrónica contribuiu para a falência da Plessey, accionista inglês da empresa. Nessa sequência, a CEG — Centrel Electrónica Geral, então uma pequena empresa sediada em Porto Salvo, adquiriu a Automática Eléctrica Portuguesa. Embora essa operação tenha permitido adiar os despedimentos que pareciam inevitáveis, a reestruturação acabou por não ser viável.

Primeiros passos na produção electrónica

Na tentativa de entrar no fabrico electrónico, a Centrel adquiriu parte da antiga fábrica da Timex. Quando visitei essas instalações, já nos anos 1980, tive a mesma impressão descrita nas memórias do Tenente-Coronel Rodrigo Leitão: o espaço estava longe de funcionar como uma verdadeira linha de produção. Tratava-se antes de um conjunto disperso de engenheiros e técnicos, empenhados no desenvolvimento experimental de novos circuitos. Não era ainda uma fábrica em sentido pleno, mas já revelava um esforço sério para criar essa capacidade.

Criação da EID e reforço da base tecnológica

Perante essas limitações, alguns quadros da empresa reconheceram a necessidade de criar uma estrutura mais orientada para a inovação. Com o apoio das Transmissões, um grupo de engenheiros fundou então a EID — Empresa de Investigação e Desenvolvimento. Nessa nova entidade, iniciou-se um esforço efectivo de concepção e produção de equipamentos electrónicos militares. Embora, numa fase inicial, a EID se aproximasse mais de um laboratório de desenvolvimento do que de uma unidade fabril, conseguiu concretizar projectos relevantes e lançar as bases para uma nova capacidade industrial.

Intervenção pública e consolidação da empresa

À semelhança do que sucedeu noutros contextos europeus, o Estado português, através do sector da Defesa, acabou por intervir na EID para assegurar a sua continuidade e consolidar as capacidades em desenvolvimento. Nesse processo, o Exército — em particular a Arma de Transmissões — desempenhou um papel decisivo.

Contributo das Transmissões

Sob a liderança do Tenente-Coronel Rodrigo Leitão, acompanhado por outros oficiais engenheiros de transmissões, o Exército deu um contributo essencial para este processo. Esse apoio traduziu-se quer no desenvolvimento e fabrico de equipamento, quer no reforço da formação técnica e das ligações internacionais necessárias à modernização da empresa.

  • Desenvolvimento e fabrico de equipamentos de comunicações tácticas, como o rádio VHF PRC-425, o rádio HF P/VRC-301, a Central Digital Tágide, os telefones de campanha P/BLC-101 e os sistemas de intercomunicação de carros de combate P/ICC.
  • Assemblagem, na EID, dos feixes hertzianos FM-200, da Siemens.
  • Estabelecimento de acordos com a AEG e de ligações técnicas à Rhode & Schwarz para o desenvolvimento do P/PRC-525.
  • Realização de estágios fabris na Siemens, na Alemanha, e de cursos sobre novas tecnologias — como microsoldadura, electroless copper plating e hybrid integrated circuit fabrication —, bem como reorganização dos cursos de electrónica da Escola Militar de Eletromecânica para oficiais, sargentos e praças de Transmissões.

Abriu-se, assim, uma nova fase de colaboração entre o Exército e a indústria. Apesar de recente, a Arma de Transmissões já contava com um número significativo de engenheiros electrotécnicos especializados. Em síntese, afirmou-se como um núcleo de conhecimento decisivo para os desenvolvimentos que viriam a consolidar-se na empresa nacional de investigação e desenvolvimento EID.

Síntese Biográfica do Autor


Oficial Engenheiro de Transmissões, reformado, com a patente de coronel. Prestou serviço no Batalhão de Telegrafistas, no Agrupamento de Transmissões de Angola e no STM. Professor de Telecomunicações na Universidade de Luanda, bolseiro da JNICT, em Milão, e Professor de Hiperfrequências da Academia Militar. Após o 25 de Abril, integrou a equipa militar da RTP como Director Técnico e Operacional após o que passou à reserva. Administrador da Marconi, CTT/TLP (PT), Alcatel Portugal e Galp. Presidente da PT Internacional. Administrador do ICP-ANACOM, Presidente do Conselho da UIT e da Intelsat.

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