Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:
Em Janeiro de 1974 tiveram lugar os “incidentes da Beira” que constituíram a primeira grande manifestação popular, em toda a Guerra Colonial, contra os militares.
Aproveitando a possibilidade que tivemos de ouvir os principais protagonistas ligados à atuação das Transmissões no seguimento destes acontecimentos, vamos procurar descrever a forma como decorreu a ligação do pessoal de Transmissões com a estrutura local e nacional do MFA.
Comecemos pelos acontecimentos da Beira.
Convém acentuar que na Beira, até Janeiro de 1974, não se tinha ainda sentido, praticamente, que havia guerra, que nessa cidade era considerada como qualquer coisa que se verificava “lá para o Norte”:[1] Por isso causou grande apreensão na população local as ações violentas desencadeadas pela Frelimo, no princípio de 1974, na região de Vila Pery e duas semanas depois a morte da mulher de um agricultor de Vila Mónica, nas proximidades da cidade da Beira.
Centenas de viaturas deslocaram-se a Vila Mónica e milhares de colonos incorporaram-se no funeral da fazendeira: Á tarde os agricultores e comerciantes manifestaram-se ruidosamente junto do palácio do governador e no dia seguinte “cerca de quatrocentos brancos e negros da população local, em fúria, insultaram durante longo tempo os oficiais que se encontravam alojados, em trânsito, na Messe de Oficiais de Macuti, chegando a apedrejar o edifício perante a passividade das forças policiais que horas antes se haviam instalado na zona “[2]…. A situação foi desbloqueada por iniciativa do tenente-coronel Pinto Ferreira[3] “que põe cobro à situação exigindo ao coronel Baía dos Santos[4] que desse ordem à Companhia de Polícia Militar que enfrenta, no exterior os manifestantes e à que, no pátio interior, se encontra de reserva para “limparem” o espaço fronteiriço à Messe. O que ambas fizeram com proficiência, varrendo tudo e todos, a cassetete, até o mar.”
Para mim, o regime foi o grande responsável por esta atitude da população da Beira porque sempre proclamou, com a conivência da hierarquia das Forças Armadas, que a “Guerra era com os militares”. Todos sabiam que não era[5]. O problema da guerra era a conquista da população. o que não se fazia apenas com armas.
A comissão coordenadora do MFA de Moçambique[6] apercebeu-se da delicadeza do problema que estes incidentes levantavam em termos de desprestígio dos militares e apressou-se a fazer um telegrama dirigido à Comissão Coordenadora Nacional que, naturalmente, o entregou ao STM para fazer seguir.
Começa aqui a intervenção das Transmissões neste processo.
O texto foi entregue em mão ao capitão Bastos Moreira, para o fazer seguir para Lisboa. Sabia que estava a cometer uma falta, visto que a Comissão Coordenadora do MFA de Moçambique não constava na lista dos expedidores autorizados na estação do STM de Nampula. Por isso, antes de determinar o envio da mensagem falou telefonicamente com o capitão Fialho da Rosa, que era o chefe do Centro Nacional de Transmissões, na então EPT, a explicar a delicadeza do assunto e para este acompanhar a receção da mensagem, o que viria a acontecer (É evidente que a mensagem não podia ficar registada, para não deixar rasto).
Dias depois o capitão Bastos Moreira foi chamado ao gabinete do comandante do Batalhão, coronel Basto (e que chefiava o STM em Moçambique) que lhe perguntou se tinha conhecimento de, pelo STM, ter sido enviado para a Metrópole uma mensagem relativa aos acontecimentos da Beira.
Respondeu que não tinha conhecimento de nada e depois acrescentou que não poderia, no entanto, garantir que isso não tivesse acontecido porque havia tráfego que ele não estava autorizado a controlar (que eram as chamadas facultadas pelo Comando a VIP para a Metrópole).
Depois desta resposta o coronel Basto não lhe disse mais nada. Bastos Moreira concluiu que o assunto ficara por aí.[7]
Em Lisboa, com o capitão Fialho da Rosa as coisas correram de forma diferente. Também foi chamado pelo seu Comandante, o coronel Corte Real. A diferença é que o capitão Fialho da Rosa, que desde Dezembro pertencia à estrutura organizativa do MFA, tinha grande confiança no seu comandante que “conhecia tudo o que se passava na unidade e não punha quaisquer obstáculos”.[8] Deste modo disse-lhe francamente que tinha recebido a mensagem e que a tinha feito seguir para a Comissão Coordenadora do MFA.[9] Segundo ele, o Comandante revelou apreensão.
Dias depois foi chamado de novo ao gabinete do comandante, onde se encontrava o Diretor da Arma, Brigadeiro Sales Grade e que, na presença do comandante da EPT o interrogou sobre o mesmo assunto. O capitão Fialho voltou a assumir a sua intervenção no processo. Sales Grade informou-o que já o conhecia há muito e que não esperava aquilo dele. Tudo estava em aberto.
Recentemente informou-me que não se recorda de ter pensado que ia ser punido, visto que quer em relação ao comandante, quer em relação ao 2º comandante (TCor Vargas) “estava igualmente tranquilo, dada uma relação algo tensa, desde sempre, mas entendida e respeitada por ambos”.
O Capitão Fialho da Rosa ainda falou mais uma vez sobre este assunto com o coronel Corte Real. Este chamou-o e mostrou-lhe uma carta pessoal do coronel Basto em que este lhe afirmava a não intervenção do seu pessoal no envio do texto para Lisboa.[10]
Apesar do risco que correram, a estes dois homens de Transmissões do MFA nada lhes sucedeu.
Penso que prestaram um serviço importante ao MFA. O cap Fialho da Rosa pensa que foi deste telegrama de Moçambique que surgiu o primeiro comunicado da comissão coordenadora do MFA.
Julgo que a melhor explicação para a não punição destes dois oficiais talvez seja a seguinte ideia do general Spínola (então Vice CEMGFA):
“Já então me tinha apercebido claramente de que perante a incapacidade do Governo para solucionar a gravíssima crise político-militar em que nos debatíamos, o ainda incipiente Movimento dos capitães era irreversível, pois baseava-se em razões indiscutivelmente válidas, havendo portanto que orientá-lo no sentido de o transformar em força útil junto dos chefes militares responsáveis, forçando estes a uma tomada de posição.”[11]
No fim de contas neste caso as punições teriam sido puramente formais, visto que nesta altura a hierarquia militar e o MFA estavam de acordo no essencial: que era necessário defender o prestígio dos militares…
[1] AFONSO; Aniceto in História Contemporânea de Portugal. Lisboa, Vol Estado Novo II, 1988, pág. 269
[2] CARVALHO; Otelo Silva de, Alvorada em Abril. Lisboa,, 1977. pág. 190
[3] Chegou a TGen e Comandou a GNR
[4] Comandante Territorial do Centro
[5] Qualquer oficial ou sargento era obrigado a saber. Basta ler “O Exército na Guerra Subversiva”.
[6] De que fazia parte Aniceto Afonso
[7] Estes dados foram fornecidos verbalmente, já há alguns anos pelo Maj Gen Bastos Moreira.
[8] Declaração recolhida em 15 de Junho de 2012
[9] Informou-me que a entregou pessoalmente ao capitão Vasco Lourenço
[10] Informou-me que o cor Corte Real lhe perguntou se tinha a certeza absoluta que tinha sido o Bastos Moreira que o tinha contatado. Ao que ele admitiu que certeza absoluta , absoluta não tinha, mas quase…
[11] SPÍNOLA; António de, País sem Rumo, pág. 93.
Ao ler este texto sobre o papel das Transmissões no processo do MFA, gostaria, de aqui, deixar um meu testemunho.
Sou o ex-Furriel Miliciano TSF Santos que prestou serviço no BTm2, em Nampula, Moçambique, na Companhia do STM comandada pelo então Capitão Bastos Moreira.
Tinha eu como missão chefiar a central TTy que se encontrava no edifício do Comando das Transmissões, no Quartel General. Um dia o Capitão Bastos Moreira solicitou-me o envio dum comunicado dirigido ao Capitão Fialho da Rosa do CNTm em Lisboa. Teria de falar em fonia com ele e solicitar-lhe que recebesse o comunicado que seguiria via TTy. Assim procedi e obtido o ok da recepção, a cópia do TTy, a fita e o comunicado foram destruídos, Claro, que tudo isto, foi feito no máximo sigilo.
Algum tempo depois fui chamado ao Coronel Basto que me perguntou se tinha conhecimento de algo de anormal que teria sido transmitido para Lisboa via TTy. Conforme conversa entretanto tida com o Cap. Bastos Moreira, respondi que não sabia de nada e que sendo o serviço tanto, seria impossível ver tudo.
Deixo aqui, este meu testemunho.
Quero cumprimentar todos os Oficiais que fazem este blogue, que para além do historiar as Transmissões, nos fazem recordar tempos idos. Lembro a maior parte dos Oficiais, cujos nomes aparecem no blogue, e com quem me cruzei, uns na EPTm, outros no BTm2.
Para todos a minha recordação.
Um grande ” ALFA BRAVO” e fico em “ALFA SIERRA”,,,,,,
Muito obrigado pelo seu testemunho, mais valioso ainda por ser uma testemunha directa. E obrigado também pelas suas palavras, continue a acompanhar o blogue e, se possível, a participar.