Conhecido localmente por posto de sinais ou posto semafórico, está localizado no alto do Pico do Facho (250 m), um dos quatro (com os picos Zimbreiro, das Cruzinhas e da Vigia) que rodeiam a caldeira do vulcão existente no interior do Monte Brasil, em Angra do Heroísmo.


Consiste numa representação relativamente actual, com recurso a um poste cilindrico de madeira suportado por 3 espias, uma verga de madeira próxima do topo e alguns circulos de chapa metálica (actualmente apenas dois, mas já foram mais, certamente quatro, como comprovam algumas fotografias), representando os balões outrora usados, apoiados numa estrutura cónica com escada de acesso em caracol, que se julga ser original. Do conjunto faz ainda parte a antiga casa de abrigo do sinaleiro, de porta e postigo, com uma unica divisão abaulada, e um guincho de carretel único, sem roda dentada nem trinco, que pretende representar o sistema de içar dos balões e flâmula.
O Pico do Facho é dominante sobre a baía, o porto de Angra e a costa este e tem vistas parciais para a baía do Fanal, a oeste, e para o mar a sul. O acesso, quase sempre a subir, faz-se parcialmente por estrada alcatroada que desde o Relvão passa à porta d’Armas do ‘Castelo’, actual Regimento de Guarnição nº 1 (RG 1), e depois por estradões e caminhos de terra.




A impressionante fortaleza de S. João Baptista foi construída entre 1593 e os anos 30 do séc XVII, durante a dominação Filipina, na encosta do istmo que liga a ilha Terceira à península do monte Brasil, mas as suas fortificações e baluartes estendem-se ao longo das margens este e oeste.
Quanto ao posto de sinais, há notícia de que existia já pelo menos desde 1583, embora a designação do pico faça desde logo supôr uma anterior utilização do local para vigia/atalaia e avisos por meio de fogueiras.
“Nestes montes estão dois pequenos pilares de pedra, onde fica um guarda para vigiar os navios que se vêem no mar e para avisar os da ilha. Por cada navio que vê aparecer de oeste, de onde vêm os da Índia espanhola, do Brasil, de Cabo Verde, da Guiné, da Índia portuguesa e de outras partes de sul e oeste, põe uma bandeira no pilar de oeste, e caso os navios que avista são mais de cinco, põe um estandarte grande, que quer dizer uma frota inteira de navios. Faz o mesmo no pilar que fica a leste para todos os navios que vêm de Portugal ou de outras partes de leste ou norte. Por causa da altura dos montes, estes pilares podem ser vistos facilmente por toda a cidade, pelo que não há navio ou vela que possa aproximar-se da ilha sem que se tenha logo conhecimento em toda a cidade e por toda a ilha, porque não se mantém esta vigia apenas nestes montes no canto da ilha, mas igualmente em todos os outros cantos, montes e outeiros da ilha, de onde quer que se possa ver o mar e mal se avista qualquer coisa, imediatamente são avisados o governador e os outros governantes, para se tomarem todos os cuidados que lhes pareçam necessários.” (Itinerário: Viagem do navegante Jan Huygen van Linschoten às Índias Orientais ou Portuguesas, 1579-1592 – obra publicada em 1596).
Mas já antes, em 1589, o padre Gaspar Fructuoso escrevia no livro VI do famoso Saudades da terra – “em cima dele está uma casa de atalaia, com doze mil réis de mantimento com o facho que vigia todo mar. Neste monte estão dois montõis, ou fachos de pedra e cal, à maneira de África, nos quais assina o atalaia as velas que vêm daquela parte, até três, com bandeiras pequenas por esta ordem: no montão e facho do oriente põem somente o número das bandeiras igual ao dos navios que vêm daquela parte até três, e, passando os navios de três, põem uma bandeira grande de campo, e o mesmo sinal faz no montão e facho do ocidente, quando da mesma parte aparecem os navios; e quando são caravelas pequenas, que servem de umas ilhas pera as outras, arvora as bandeiras mais baixas.”

Contudo, mais tarde, o valor puramente militar do posto foi residual, na configuração hoje conhecida, quer porque se tratava apenas de avisos, da iniciativa do sinaleiro, quer porque a sua visibilidade a partir da fortaleza (principal estrutura militar e sede do comando militar) seria reduzida, face à massa do pico das Cruzinhas, apesar de à época o coberto vegetal ser bem mais reduzido. Por outro lado, o mastro de sinais original deveria ser de muito maiores dimensões do que o que depois foi usado e também do que hoje lá se encontra representado (e também a verga deveria estar em posição bem mais baixa em relação ao poste – ver a gravura seguinte, de Lebreton, de 1850).

As duas tabelas de sinais conhecidas são de meados do séc XIX a meados do séc XX e referem-se ambas a simples sistemas de avisos semafóricos com origem no posto, ou seja, não fizeram parte de um qualquer sistema telegráfico de comunicações. Embora certamente baseadas em sistemas da época, são adaptações locais, quer no que se refere à simbologia, quer à codificação. A primeira contempla 3 colunas de códigos (uma apenas com flâmula, outra com um balão junto ao mastro, abaixo da verga, e a 3ª com um balão junto ao mastro, acima da verga), num total de 34×3=102 sinais possiveis (não utiliza as posições 68 e 78). A segunda contempla apenas 2 colunas (elimina a 2ª, com o balão abaixo da verga), num total de 36×2=72 sinais possiveis. Em ambas havia 8 posições possiveis, em 4 fiadas, abaixo da verga, num máximo de 2 balões por sinal. Curioso anotar que as posições iam de 1 a 8, para um balão, e que as dezenas eram representadas por 2 balões, mas apenas eram contempladas posições em que o representante da dezenas fosse um algarismo menor que o das unidades. Das 8 posições significativas possíveis, apenas 2 podiam ser ocupadas simultaneamente por balões, para cada sinal.
A segunda tabela, posterior, contempla já avisos sobre aviões e até sobre avistamento de baleias.
Tabela dos sinais de 1847 (com três anúncios) – Instruções: Quando no mastro se içar bandeira ou flâmula, significa que o telégrafo vai principiar a trabalhar e quando a arriar, que acaba o trabalho. Os sinais são representados com balões, indicando estes os numeros que lhe estão ao lado. O mastro com flamula e sem balão denota 1º anuncio, com balão ao meio o 2º, com balão em cima o 3º, e quando neste ponto tiver a flamula indica que os anuncios dizem respeito a acontecimentos dentro do porto de Angra. Dois balões indicam dois numeros, sendo sempre o menor o da esquerda, isto é, mostra as dezenas, e o da direita, que é maior, forma as unidades.
Tabela dos sinais desde 30Jun1938 até meados de 1941 (com dois anúncios) – Instruções: Quando no cimo do mastro se içar a bandeira, significa que os sinais vão principiar e quando se arriar, que os mesmos terminaram. Os sinais são indicados por balões, indicando estes os números que lhes estão ao lado. O mastro com bandeira e sem balão indica o primeiro anúncio. Com o balão por cima da verga, o segundo anúncio. Dois balões indicam dois números, sendo sempre o menor o da esquerda, representando as dezenas, e o da direita, que é maior, as unidades. Quando o navio vier de oeste, o balão descendo junto do mastro indica a aproximação da embarcação e quando este estiver passando por de trás do Monte Brasil chegará até à base, indicando a saída para o prático. A bandeira içada na ponta da verga do lado Leste ou Oeste indica em qualquer desses lados haver nevoeiro que impede verem-se as embarcações.

Tendo começado por ser o local de um Facho, o pico terá servido depois para um posto de sinais, em seguida (por alturas das lutas liberais), terá simultaneamente albergado um posto telegráfico visual, para finalmente voltar a servir apenas como semáforo até à II GM, quando terá sido finalmente desactivado.


No local são ainda bem visíveis restos de estruturas, como por exemplo para retenção de água da chuva para serviço do sinaleiro e, bem mais importante, três entalhes de secção quadrada na rocha (dos 4 necessários), que poderão indiciar uma instalação temporária de um telégrafo de postigos de Ciera, aquando da ocupação da ilha pelas tropas liberais. O seu alinhamento corresponde a uma eventual necessidade de comunicar com a esquadra surta no porto e/ou, mais provavelmente, com o castelinho (Forte de S. Sebastião), do outro lado da baía de Angra, e também com os telégrafos duma linha Angra/Praia. Mas isto é apenas uma conjectura, embora merecedora de futura investigação.

O que é certo é ter existido uma rede telegráfica Angra/Praia que ligava o Pico do Facho do Monte Brasil ao Pico do mesmo nome na vila da Praia (hoje cidade da Praia da Vitória), através de vários pontos situados na ilha, como o Pico do Capitão (Porto Martins), o Farol das Contendas (entre a Baía da Salga e a Baía das Mós), o Pico das Cruzes (São Sebastião) e por vezes a Atalaia (Grota do Vale), pelo que estes entalhes poderão ser desse tempo (lutas liberais).

Na verdade, e no caso da Praia, se em 1805 a “Planta da Bahia da Villa da Praia” ainda assinalava a sudeste do morro conhecido por Pico do Facho (serra de S. Tiago), por cima e junto ao hoje desaparecido forte do Espirito Santo, o local do “Faxo” e respectiva casa, já as três gravuras abaixo, que retratam o ataque à Vila da Praia pela esquadra de D. Miguel, em 11 de Agosto de 1829, mostram claramente, quer a existência de um telégrafo português de postigos de Ciera instalado no cimo desse mesmo morro, quer um outro colocado mais abaixo, na segunda gravura, quer ainda, na ultima gravura, dois telégrafos, certamente parte da rede telegráfica acima referida.



Em 27MAR1833, o Cor Eng José Carlos de Figueiredo, cmdt da Fortaleza de S. João Baptista, reportava ao perfeito Francisco Refoios os diversos melhoramentos defensivos que fizera em toda a ilha, nomeadamente “construído huma casa nova abobedada em cada Thelegrafo da Salga e da Praia“, pelo que, pelo menos por essa altura, a rede de telégrafos ainda estaria operacional.
Falta apenas dizer que, apesar de ser uma representação não totalmente fiel, o posto de sinais do Monte Brasil é a única estrutura representativa permanente deste tipo conhecida em Portugal. Só por isso já merece o nosso louvor!
Muito interessante. Só lamento a fraca qualidade das imagens das tabelas.
Também eu 🙂 Mas as tabelas que estão afixadas no local, estão protegidas por um plástico já muito degradado e fosco… Mas dá para ler o essencial.
Excelente post, que me faz lembrar que nos anos de 1989/91 visitei várias vezes o RIAH e nunca ninguém me falou destes vestígios históricos.
Jorge Sales Golias
Neste post o autor realçou o mérito da iniciativa de preservar, em permanência, a memória do posto de sinais do Pico do Facho, o que constitui um caso único a nível nacional em relação à telegrafia ótica.
A utilização deste posto ótico de acordo com as tabelas de 1847 e 1938 que se apresentam, servia apenas para a transmissão de mensagens relativamnte ao tráfego marítimo. Não trocava mensagens com outras estações, como sucede numa rede de telegrafia ótica.
Penso que nos Açores deveria ter existido uma rede deste tipo. Numa das últimas fotografias do post é posta a interrogação de se ter sido montado um telégrafo de persianas naquele local (os buracos de secção quadrada seriam o encastramento dos prumos do telégrafo de Ciera). A interrogação é pertinente visto que estes telégrafios foram usados, no Continente, pelo Corpo Telegráfico entre 1810 e 1855, embora tivessem possibilidades muito superiores.
No entanto a hipótese de a introdução do telégrafo de Ciera ali deixa algumas interrogações. Em primeiro lugar por não conhecer qualquer dicumento que assinale a presença do telégrafo de Ciera nos Açores e em segundo por não se perceber porque é que estando instalado um telégrafo de Ciera se opta por construir o telégrafo de balões.
Confesso que tenho esperança que este post, ao assinalar o pioneirismo açoreano na preservação do posto ótico do Pico do Facho, tenha o efeito de espoletar o interesse pela investigação do desenvolvimento da rede de telegrafia ótica nos Açores.
Artigo muitíssimo interessante!
Tenho algumas fotografias que julgo de melhor qualidade que as apresentadas e que terei muito gosto em ceder, se tiverem algum préstimo e me for fornecido um endereço de correio electrónico para o respectivo envio.
Penso que deveria ser rectificada a posição do posto óptico no croquis em madeira, dado que o local assinalado não corresponde ao local exacto. Com efeito, o local do posto óptico é, aproximadamente a 1/3, no caminho do meio, dos 3 caminhos que cujos pontos de “chegada” e “partida” estão unidos, à falta de melhor explicação.
Sei isto porque vivi lá durante alguns anos e porque, enquanto radioamador, aquele é um ponto qualificado do programa Summits-on-the-Air, de onde fiz, no verão passado, comunicações em onda curta, usando morse, com diversos pontos do mundo.
Parabéns pelo artigo e bem haja,
Pedro Carvalho
Muito obrigado pelo seu comentário.
Penso que o artº já está suficientemente documentado, mas se quiser ter a amabilidade, pode enviar para o endereço que está indicado em “Boas vindas” e também no final da banda lateral.
Quanto ao croquis de madeira, é o que se encontra no local (Monte Brasil), julgo que da responsabilidade dos serviços florestais. E o Pico encontra-se bem assinalado, pois trata-se do pico em si, à semelhança dos outros 2 que também estão assinalados (só falta o da Vigia), e não do local onde se encontra o posto semafórico. Aliás, o caminho a que se refere, e onde aquele se situa, está assinalado no croquis como “Trilho do Pico do Facho”, não por acaso, certamente.
Mas obrigado pelo seu interesse e pelas sugestões. Quando escrevi o post, fi-lo pelo seu interesse histórico, mas também para homenagear o único testemunho permanente deste importante meio de comunicação do passado existente em Portugal, e ainda na secreta esperança de que algum Terceirense pegasse na minha modesta investigação e procurasse mais informação nos arquivos regionais.
Muito bom trabalho.