Autor : Capitão Tm (Eng.) Rui Gomes.
Chefe Equipa de Projeto Sistema de Informação e Comunicações Táctico
Representante Nacional no FMN CIAV Working Group – Engineering

O conceito de Federated Mission Networking (FMN) foi desenvolvido em resposta à diretiva do Comité Militar da NATO (MC) de 7 de julho de 2011, exigindo ao Allied Command Transformation (ACT), em estreita coordenação com o Allied Command Operations (ACO), para desenvolver um conceito genérico e abrangente tendo por base as melhores práticas e lições aprendidas da implementação das Redes de Missão no Afeganistão (Afghanistan Mission Network [AMN]).

O objetivo do conceito de Redes de Missão Federadas é fornecer diretrizes de elevada amplitude para a implementação de capacidades relacionadas com os Sistemas de Informação e Comunicações (SIC) e de âmbito Operacional, federadas em Mission Networks (MN), que permitam a partilha eficaz de informação entre a NATO, as nações da NATO e parceiras, e/ou Entidades não-NATO, participantes em operações. Uma MN federada deverá ter como princípio a confiança e a determinação, permitindo a ação eficaz de Comando e Controlo (C2) em futuras operações da Aliança e/ou de âmbito multinacional através de uma coligação.

Deste modo, a Framework FMN abrange as pessoas, processos e a tecnologia necessária para operar MN federadas, disponibilizando os mecanismos adequados para verificar e validar de forma coletiva a interoperabilidade entre as capacidades dos seus afiliados, permitindo deste modo que os parceiros e afiliados FMN possam partilhar um panorama operacional conjunto e contribuir de forma significativa para o conhecimento situacional, bem como para o planeamento e execução de futuras operações multi-domínio.

Paradigma Tecnológico do Comando e Controlo Conjunto

O Processo FMN Framework segue uma abordagem em Spiral para garantir a continuidade dos resultados e produtos FMN com base em subprocessos persistentes, executados de forma contínua. Deste modo, os produtos e atividades entregues pelo processo da FMN Framework são interdependentes e diretamente vinculados à consecução de um ou mais dos objetivos da estrutura FMN, incluindo todos os serviços anteriormente aprovados como objetivos das respetivas Spirals precedentes.

Desenvolvimento de uma capacidade FMN tendo em conta as várias Spirals

Desenvolvimentos nacionais no âmbito da FMN

No que toca aos compromissos nacionais, a afiliação de Portugal foi aprovada estabelecendo o nível de ambição de Opção B – Mission Network Extension (MNX), o que significa que Portugal necessita de ser provedor de alguns serviços, sobretudo os serviços designados como Core Services, no entanto tem que ser consumidor para todos.

Organização FMN para a Afiliação

Deste modo, foi assumido também o compromisso de Portugal em participar ativamente nos Grupos de Trabalho e sindicatos, contribuir com um Oficial de Ligação no Secretariado da FMN, desenvolver a Capacidade FMN Nacional e implementar operacionalmente nas forças nacionais.

O plano nacional e o alinhamento estratégico materializado nas propostas efetuadas pelo Estado-Maior das Forças Armadas (EMGFA) pressupõem que é o EMGFA a entidade primariamente responsável pela definição e desenvolvimento da FMN Framework a nível nacional, nomeadamente garantir a participação nacional nos diversos grupos de trabalho internacionais da FMN, sendo que o planeamento de capacidades e coordenação operacional, projetos, controlos de configuração e edificação e capacitação de Forças deverá ser responsabilidade dos Ramos.

Este aspeto é relevante, sobretudo tendo em conta que o Exército assumiu um conjunto de Targets perante a União Europeia e com a NATO, prevendo por isso a breve trecho participar em operações conjuntas e combinadas que exigem a implementação de MN federadas com base no conceito FMN, como é o caso do European Union Battle Group 2025/2026 (EUBG-25/26), ou a participação na Força Nacional Destacada (FND) da Roménia, devendo por isso ter em consideração os requisitos mínimos para a implementação de capacidades SIC projetáveis definidos pela NATO, tanto para o nível operacional como para o nível tático.

Standards de Interoperabilidade

Portugal assumiu a participação em vários eventos de Assurance, Verification and Validation (AV&V) para os Core Services, tendo utilizado a série de exercícios CWIX para validar e confirmar as suas capacidades conjuntas, sendo de realçar que em 2023 foi finalizada a validação formal de diversos serviços FMN Spiral 3, sobretudo vários Core Services e Friendly Force Tracking.


Participação de Portugal no exercício CWIX


Participação de Portugal no exercício V2CN

Está previsto que em 2024 seja realizada a validação formal de um conjunto alargado de Core Services, através da participação de Portugal no exercício Coalition Warrior Interoperability eXploration, eXperimentation, eXamination eXercise (CWIX) 2024, e pela primeira vez num evento de validação de Request for Change (RFC) que será realizado na rede de laboratórios federados Combined Federated Bat-tle Laboratories Network (CFBLNet), sendo fundamental o apoio de planeamento e coordenação efetuado pelos representantes nacionais do FMN Coalition Interoperability Assurance and Validation Working Group (CIAVWG).

Em paralelo, desde 2018 que uma equipa conjunta se desloca a Madrid para participar no exercício espanhol Validación, Verificación y Confirmación National (V2CN) onde são efetuados testes de validação e verificação com as capacidades FMN espanholas, permitindo a instanciação de uma rede de missão de acordo com o cenário aprovado entre os dois países, alinhando estratégias e requisitos operacionais de interoperabilidade.

Todas estas participações, na vertente dos Core Services, foram garantidas com verbas previstas pelo EMGFA para o programa FMN nacional, tendo participado várias equipas conjuntas multidisciplinares compostas por militares do EMGFA e dos Ramos.

Seguidamente são apresentados os serviços que Portugal necessita de implementar, ao longo das várias Spirals, bem como uma indicação temporal da duração possível dos trabalhos de atualização contínua da Baseline Nacional.

Serviços Core e Funcionais previstos em várias Spirals do FMN (incrementando sempre aos serviços já existentes nas Spirals anteriores)

No último ano 2023 verificou-se um elevado desenvolvimento a nível procedimental e técnico, sobretudo no âmbito da participação de Portugal no grupo de trabalho CIAVWG, muito graças à boa vontade, esforço e dedicação dos elementos que constituem este grupo dos vários Ramos, o que permitiu edificar um laboratório FMN na rede de laboratórios federados, nomeadamente através do acesso à rede CFBLNet.

Em novembro de 2023, elementos do CIAVWG, apoiados por outros elementos dos Ramos e do EMGFA, participaram pela primeira vez num Joining Event, tendo implementado, federado e obtido 100% de sucesso nos Test Cases realizados. Foram apenas implementados os Core Services mandatórios para que fosse possível integrar a comunidade FMN nesta rede federada, nomeadamente Text-based Collaboration, Communications, Domain Naming, Distributed Time e Digital Certificates, sendo que neste momento o próximo objetivo será iniciar a implementação de serviços funcionais e de sistemas de C2.

O planeamento, organização e participação nestes eventos de validação exigem em antecipação um elevado empenhamento, sobretudo dos grupos FMN CIAVWG e Change and Implementation Coordination Working Group (CICWG), que culmina no processo de validação formal e execução de testes técnicas da implementação de todos os serviços e produtos, que tem que ser repetido sempre que existe um novo produto que se pretenda inserir na Baseline Nacional ou sempre que inicia o processo de validação de capacidades para uma nova Spiral.

Edificação de capacidades FMN no Exército

No que toca à edificação de capacidades FMN no Exército, o único projeto que realmente contribui para este âmbito de forma significativa é o projeto Tactical Deployable Communications and Information System (TDCIS), conduzido em parceria com a NATO Communications and Information Agency (NCIA), estando previsto o seu início no presente ano de 2024, já com o contrato assinado no primeiro trimestre do presente ano de cerca de 33,2 M€.

Este projeto TDCIS materializa-se no projeto Sistema de Informação e Comunicações – Tático (SIC-T) desenvolvido pelo Exército, embora com alterações significativas na arquitetura inicial do sistema, com vista a incluir devidamente especificações que garantem que todos os módulos entregues ao Exército serão FMN compliant com a Spiral 3, e posteriores.

Seguidamente serão apresentadas algumas arquiteturas de alto nível que serão implementadas nos novos módulos SIC-T e que estão devidamente alinhadas com os normativos FMN.

De uma forma geral, o projeto TDCIS continua adequado aos requisitos operacionais definidos para o projeto SIC-T, no entanto a implementação do novo projeto e operacionalização do mesmo exigirá seguramente diversas atualizações, quer seja ao nível procedimental e técnico das operações CSI a nível nacional, quer seja ao nível da doutrina do Exército, que ocorrerão seguramente a seu tempo logo que oportuno.

Uma das alterações mais significativas está relacionada com os diferentes domínios de segurança que serão implementados nos novos módulos, nomeadamente as seguintes Colored Clouds (CC):

  • UNCLASSIFIED (xU) – poderá interligar com a Rede de Dados do Exército, ou qualquer outra rede de âmbito não classificado;
  • RESTRICTED (xR) – Domínio que será utilizado em todas as operação que necessitem de implementar serviços de Tactical Edge Communications.Neste domínio serão integrados os Rádios Táticos de Combate dos módulos e dos utilizadores móveis, bem como os sistemas de C2 de nível tático, tais como o Battlefield Management System, o sistema Dismounted Soldier System – C2, ou quaisquer outro de interesse, tais como Android Team Awareness Kit (ATAK), Windows Team Awareness Kit (WinTAK), etc;
  • SECRET (xS) – Neste domínio serão implementados todos os serviços de acordo com as especificações FMN e será a rede de missão utilizada primariamente para federação com outros afiliados FMN e/ou outras capacidades FMN nacionais desenvolvidas pelo EMGFA e pelos Ramos.

Todos os novos módulos SIC-T implementam a capacidade Protected Core Networking (PCN), de acordo com o STANAG 5637, nomeadamente as interfaces PCN-1 e PCN-2, bem como as funcionalidades de E-Node e P-Function, existindo, portanto, um domínio adicional para este efeito designado por BLACK, no qual se ligam todos os sistemas de transmissão pretendidos (e.g. mini- Line of Sight (LOS), LOS, Satellite Communications (SATCOM), Mobile 4G/5G, High-Capacity Data Radio (HCDR), meios filares, entre outros).

Arquitetura Genérica dos novos Módulos SIC-T (alterações em alguns dos submódulos existentes consoante a tipologia de módulo SIC-T)

No que toca à capacidade de garantir interoperabilidade com outras forças, os módulos Access Node (NA), Battalion Communications Center (BCC) e Company Communications Center (CCC) são aqueles em que está prevista a capacidade para implementação de serviços e a possibilidade de se federarem com outros parceiros afiliados FMN.

Foi definido que os módulos de tipologia BCC deveriam ter essa capacidade pronta, tendo em conta as ambições e os compromissos internacionais em que o Exército participa.

Foi também solicitado que o módulo CCC tivesse essa capacidade como Enabled, na eventualidade de ser necessário efetuar esta integração utilizando um módulo desta tipologia, bastando que seja reforçado para o efeito com equipamentos/sistemas adicionais no domínio xS, que por norma não faz parte do módulo CCC, no entanto poderá ser facilmente adicionado nos novos módulos.

Deste modo, foi previsto o desenvolvimento de um ponto de interoperabilidade, a ser disponibilizado pelos módulos, designado por Interconnection to Nations, cujo conceito de implementação é de acordo com a figura seguinte:

Arquitetura do serviço Interconnection to Nations dos novos módulos SIC-T

Deste modo, o serviço de Interconnection to Nations depende dos seguintes elementos (pelo menos):

  • Do Core Network Module (CNM):
  • A interface Network Interface Point (NIP) que interliga os Mission Partners de forma física e lógica;
  • Funções de roteamento para federar ao nível da camada de rede;
  • Funções de Session Border Control (SBC) para federar serviços colaborativos de comunicações (Audio&Video).
  • Do Information Service Module (ISM):
  • O Active Directory (AD) para sincronização de diretórios e para permitir federação e estabelecimento de relações de confiança entre domínios;
  • Software de Email para federar o serviço de Informal Messaging;
  • Domain Name Server (DNS) para permitir efetuar DNS hosting e Resolver para a federação. Neste caso, este DNS Server a operar no domínio xS deverá permitir a implementação de Root DNS.

O projeto TDCIS prevê também a aquisição de um NATO SECRET (NS) Kit, que não sendo um domínio presente em todos os módulos SIC-T, poderá facilmente utilizar a sua infraestrutura de transporte para aceder à informação existente na NATO Secret Wide Area Network (NSWAN).

Por fim, em termos conceptuais, a interligação entre qualquer tipo de módulo SIC-T será realizada de forma substancialmente diferente daquela a que normalmente os seus administradores e operadores estão habituados aos dias de hoje.

As implementações atuais, a doutrina e os procedimentos estão ainda longe de estarem devidamente alinhadas com as normas FMN, que são na verdade aquelas que o Exército deverá implementar a breve trecho nas suas FND em que participe em operações de âmbito FMN, i.e. União Europeia e NATO. Seguidamente é apresentado um esquema com as ligações previstas entre dois módulos SIC-T no âmbito do projeto, utilizando sempre a PCN como meio de transporte para interligação das diversas CC, cada uma delas correspondendo a um determinado tipo de domínio de segurança.

Deste modo, também será necessário de futuro que a interligação com as redes administrativas de carácter Não Classificado (e.g. Rede de Dados do Exército) seja realizada de forma adequada com base nos standards FMN e na arquitetura revista dos módulos SIC-T, com vista a treinar procedimentos, configurações, técnicas e aprofundar conhecimento e experiência, procurando treinar em casa os cenário que se podem encontrar em ambiente internacional.

Possibilidades de interligação entre dois módulos SIC-T, de acordo com a implementação da PCN e dos normativos FMN

Conclusões

Nesta fase, prevê-se que na melhor das hipóteses a entrega dos primeiros módulos SIC-T possa ser realizada em final de 2025, início de 2026, sendo que o presente ano de 2024 será um ano relevante, na medida em que será realizado o Low Level Design dos módulos de comunicações, juntamente com a empresa vencedora do concurso internacional e com a NCIA, contando com a participação intensiva do Grupo e Equipa de Projeto SIC-T nestes trabalhos técnicos.

Como tal, na melhor das hipóteses, a partir de 2025 o Exército poderá iniciar os processos necessários para a validação formal dos seus novos módulos, no âmbito da participação nos diversos Grupos de Trabalho FMN em que está envolvido, com vista a acelerar a inclusão das novas capacidades e sistemas na Baseline FMN Nacional, a partir da FMN Spiral 4 e posteriores.

Para o efeito, a modernização das infraestruturas que irão acomodar os módulos SIC-T, bem como a construção de espaços laboratoriais com acesso à rede CFBLNet, nomeadamente no Regimento de Transmissões, permitirão disponibilizar formação e treino adequado aos administradores de sistemas e operadores dos módulos, sendo por isto esta atividade de caracter absolutamente fundamental, pois só assim o Exército garantirá que os seus militares de Transmissões podem ser devidamente preparados para os complexos desafios futuros.

Sendo o Exército um dos principais Ramos interessados em investir nas capacidades FMN, tendo em conta a natureza das suas operações e por ser até à data o único Ramo a investir em capacidades FMN projetáveis, urge que seja merecida a atenção necessária em torno da edificação destas capacidades.

Por outro lado, devem ser feitos esforços no Exército no sentido de se acompanhar a evolução tecnológica que a Framework FMN impõe ao seus Afiliados, permitindo ainda canais flexíveis e ágeis para que o conhecimento adquirido até agora sobre o conceito FMN seja disseminado internamente na instituição, através da criação de estruturas e de processos robustos e adequados, a fim de permitir que os representantes do Exército nos grupos de trabalho FMN tenham condições para cumprir as suas missões e apoiar na melhoria dos sistemas nacionais, colaborando para que Portugal e o Exército cumpram formalmente com os compromissos internacionais, bem como para que os futuros administradores e operadores desta capacidade sejam devidamente enquadrados, treinados e preparados para os futuros desafios que possam surgir nos próximos tempos.

O Exército, por ser o principal Ramo das Forças Armadas a investir em capacidades FMN projetáveis, deve priorizar o desenvolvimento dessas competências. É fundamental acompanhar a evolução tecnológica imposta pela Framework FMN e disseminar internamente o conhecimento adquirido, por meio de estruturas e processos adequados. Assim, os representantes do Exército poderão cumprir suas missões, apoiar a melhoria dos sistemas nacionais, alinhar-se aos compromissos internacionais e preparar futuros administradores e operadores para novos desafios.

FONTE: Texto publicado em “A Mensagem 2024” – Boletim informativo do Regimento de Transmissões. Porto

Síntese Biográfica do Autor


Ex-Oficial da Arma de Transmissões e mestre em Engenharia Eletrotécnica Militar (2017), atuou como chefe de equipa no Projeto SIC-T, comandante de companhia no Centro de Transmissões do Exército e colaborou em vários grupos de trabalho da NATO e C3B, incluindo FMN e CIAVWG. Liderou exercícios internacionais como CWIX e V2CN representando Portugal. Após solicitar abate ao quadro permanente em novembro de 2025, tornou-se Head of Verification, Validation and Testing (VV&T) na EID S.A., onde também lidera iniciativas tecnológicas no fórum de inovação e investigação da empresa.

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