O «Prémio Revista Militar» é destinado a galardoar, anualmente os trabalhos publicados. A Revista n.º 2675 relativa a Dezembro de 2024 publicou o nome dos autores vencedores dos trabalhos apresentados em 2022 e 2023. O júri, constituído por delegados designados pelos três Ramos das Forças Armadas e pelo Comando da GNR, considerou que nos dois trabalhos vencedores “sobressaem a profundidade da análise, devidamente fundamentada e alicerçada em fontes e autores de referência dos temas, assim como a sua importância e oportunidade”.

Atualmente o Major-General Paulo Viegas Nunes exerce as funções de Chefe do Gabinete do Chefe o Estado-Maior General das Forças Armadas. O título do seu trabalho é: Confrontos no Ciberespaço e o seu impacto na Segurança e Defesa Nacional – A alteração do paradigma estratégico internacional.

Neste artigo, transcreve-se o Índice do artigo e a Introdução. O texto completo está disponível neste site em Divulgação – Apresentações e “Papers” – Ano 2023.

Índice:

  • Introdução
  • Impacto militar do Ciberespaço
  • Utilização operacional do Ciberespaço pelas Forças Armadas
  • Ciberespaço: um domínio estratégico para Portugal
  • Enquadramento estratégico nacional do Ciberespaço
  • Segurança e Defesa do Ciberespaço: situação atual
  • Políticas de Defesa no Ciberespaço: perspetivas de evolução
  • Conclusões

Introdução

“A revolução tecnológica impulsionou a utilização da internet à escala planetária, aumentando a importância do funcionamento em rede, melhorando a estrutura de enquadramento e as condições de desenvolvimento das modernas sociedades.

A densidade e profundidade das interligações daí decorrentes, reforçada pela adoção das comunicações de 5.ª Geração (5G), por sistemas de apoio à decisão suportados por ambientes de realidade virtual, pela supercomputação (quântica) e pela Inteligência Artificial (IA), alteraram os padrões de utilização do ciberespaço e são hoje uma realidade, influenciando cada vez mais os decisores humanos, disponibilizando recomendações, influenciando o presente e o futuro das organizações e dos Estados.

O World Economic Forum (WEF), num relatório recente, estima que, em 2025, 85 milhões de empregos sofrerão o impacto de uma alteração na divisão do trabalho entre seres humanos e máquinas. Uma parte significativa dos novos empregos terá uma relação direta com a área tecnológica e será criada em áreas ainda não existentes ou que já se encontram em transformação ao nível dos seus requisitos de competências.

Neste novo mundo”, complexo e interdependente, assistimos à adoção de modelos organizacionais híbridos onde a presença no mundo físico se estende para o ciberespaço, para uma interação virtual, onde a informação e o conhecimento se afirmam como os ativos mais críticos e valiosos.”

A recente situação pandémica mundial, demonstrando que nenhuma instituição ou indivíduo pode enfrentar de forma isolada os desafios globais, tornou claro o enorme aumento da importância da internet e do ciberespaço na garantia da resiliência dos Estados, provando que as mudanças impostas pela transformação digital são inevitáveis, por vezes mesmo irreversíveis, em praticamente todas as áreas de atividade e domínios da sociedade.

Assistimos assim ao aprofundamento da vivência em rede, em que as interações do mundo real se transferem e dependem, cada vez mais, da disponibilidade e do acesso seguro ao ciberespaço. No entanto, importa assinalar que estes processos não são isentos de riscos, nomeadamente, porque subsistem ainda grandes diferenças ao nível da literacia e da transição digital, reforçando a importância da proteção da informação, dentro e fora das organizações. Explorando estas assimetrias funcionais e estruturais, atores mal-intencionados podem lançar ataques, através do ciberespaço e a partir dele, tanto no domínio social, político, económico como militar.

Ao serviço da consecução dos objetivos estratégicos de atores Estado e não-Estado, o ciberespaço passou também a ser utilizado como vetor de projeção de poder à escala global, apresentando, cada vez mais, um forte e inegável impacto, nomeadamente, enquanto espaço global comum, não limitado pela esfera pública ou privada, interna ou externa, civil ou militar.

In Revista Militar N.º 2653/2654 – Fevereiro/Março de 2023, pp 177 – 191.