Na segunda Comissão/Expedição de Serviço no Ultramar, Angola (1966/1968), era Tenente do Ramo Eléctrico, Radioeléctrico e Electrónico (ERE) do Serviço de Material (SMat). Embarquei no navio Uíge, em 18 de Agosto de 1966, e desembarque em 30 de Agosto; regresso de avião, em 19 de Setembro de 1968. Em termos de “alterações no tempo de serviço”, 100% de 30Ago66 a 18Set68. Desempenhei o cargo de Comandante do Pelotão de Manutenção da Companhia de Reabastecimento e Manutenção de Material de Transmissões (CRMMTm) do BTm361, a partir de 30 de Agosto de 1966.

1. PESSOAL

O Comandante da CRMMTm (1966) era o Capitão do Ramo ERE do SMat, António da Silva Teixeira Robles (oriundo tecnicamente, também, como eu, da Escola Militar de Electromecânica (Paço de Arcos), hoje Centro Militar de Electrónica, sendo substituído no primeiro semestre de 1968 pelo Capitão do Serviço Geral do Exército (SGE), reclassificado na Especialidade “Manutenção e Exploração das “Transmissões”, Jorge Vargas Môgo.

Os outros subalternos da CRMMTm eram os Tenentes do SMat Ramo ERE, oriundos de Radiomontador, Aquiles dos Santos Costa (Cmdt do Pelotão de Reabastecimento) e Amílcar Machado do Amaral Brites (Adjunto do Cmdt Pelotão de Manutenção) e o Tenente do SM, Ramo ERE, oriundo de Electricista, José Faustino da Costa (Chefe da Oficina de Electromecânica).

A substituição do Capitão do SMat Teixeira Robles pelo Capitão do SGE Vargas Môgo, originou da minha parte uma exposição a Sua Excelência o Ministro do Exército, datada de 02 de Março de 1968, que o Comandante do BTm (TCor Eng Ávila de Mello) reteve alguns dias, insistindo para que a retirasse, prevendo que ao ser apreciada provocaria a punição do autor.

No entanto, na sequência da minha insistência fez seguir o documento pelas vias competentes. O Despacho sobre a Exposição foi conhecido no BTm pela Informação N.º l /CTm/68, de 19Mar68, do Comando das Transmissões da Região Militar de Angola (Comandante TCor Eng Viriato Monteiro Reinas), cujo conteúdo se transcreve:

“Sobre o assunto em referência, informo VExcia, do seguinte:

1 – O assunto a que se refere esta exposição foi oportunamente estudado pela Repartição de Gabinete do Ministério do Exército e pela Direcção da Arma de Transmissões de que resultou a confirmação da nomeação do Capitão JORGE VARGAS MOGO para o lugar de Comandante da CRMMTm desta Região Militar.

2 – Em face da alínea 1, não compete a este Comando pronunciar-se sobre o assunto, tanto mais que o Capitão Jorge Vargas Mago se encontra classificado de Exploração e Manutenção das Transmissões o que satisfaz o referido QO.”

Sobre este assunto declara-se ter havido boa relação do Capitão Vargas com o Tenente Pena durante os três meses de trabalho conjunto na CRMMTm. Apenas recordo, como de elevada tristeza para o Capitão Jorge Vargas, duas tomadas de posição do Comando das Transmissões em relação ao Tenente Pena:

  • Ter sido escolhido para apresentar a Exposição do Novo Material de Transmissões, com intervenção oral e explicação de pormenor, durante a visita às Transmissões do Ministro da Defesa Nacional, General Gomes de Araújo, do CEME, General Câmara Pina, do Comandante-Chefe das Forças Armadas de Angola, General da Força Aérea, Almeida Viana e outras Entidades Militares. Junta-se fotografia, onde, para além dos Oficiais presentes, se pode observar algum material (Marconi H-4000, Racal RT-422 e VHF/CSF FH-911);

Tenente Pena, apresentando novos equipamentos (Marconi H-4000, Racal RT-422 e VHF CSF/FH-911) aos Ministro da Defesa Nacional; general CEME; general da Força Aérea Almeida Viana, Comandante-Chefe da RMA e outros oficiais, nomeadamente capitão Almeida Viana, Chefe do Destacamento do STM da RMA

  • Solicitação ao Comandante da CRMMTm para preparar um louvor tendo em vista o fim da comissão de serviço, embora o Tenente Pena tivesse sido louvado aquando da substituição do Coronel Mário Leitão. Naquela altura, nas Transmissões mais de um louvor por comissão era raro, mas havia forte empenho do Comando, em especial do TCor Eng Viriato Monteiro Reinas, para que esse segundo louvor se concretizasse, o que acabou por acontecer.

O BTm361 e o Comando das Transmissões do QG da Região Militar de Angola eram comandados e chefiados pelo TCor, depois Coronel Eng Mário Leitão, sendo substituído pelos TCor Eng Reinas e TCor Eng Ávila de Melo. O 2.º Comandante era o Major Eng Fernandes Basto, substituído pelo Major Eng Marques Esgalhado.

No BTm361 (futuro Agrupamento de Transmissões) e no Comando das Transmissões da Região Militar de Angola, para além dos já referidos, os Oficiais de que melhor me recordo são os seguintes:

  • Capitão/Major Eng Silva Ramos, incansável na organização do Sistema de Tm da RMA, resolvendo com permanente dedicação as múltiplas questões colocadas pelo muito exigente, e de inovação diária, Comandante, TCor/Coronel Mário Leitão, em todas as áreas de actividade. Nada lhe passava ao lado e julgo que foi condecorado com a “Medalha de Prata de Serviços Distintos, com Palma”;

  • Capitão de Infantaria, também muito empenhado, de que não recordo o nome e que prestava serviço no CmdTm da RMA;

  • Capitães de Engenharia (Engenheiros Civis), Almeida Viana (Chefe da Delegação do STM), Araújo Geraldes e José Maria Marques; Capitão de Engenharia (Engenheiro Electrotécnico) Saraiva Mendes. Para além das referências sobre a acção do Cap/Major Silva Ramos, recordo a constante preocupação com o Sistema de Transmissões Permanentes e com outras envolventes das Transmissões, nomeadamente de Campanha, por parte do Capitão Almeida Viana, durante a sua permanência na RMA (não terminou a comissão normal por ter sido nomeado para frequentar o curso de EM). Sobre os outros Cap Eng nada recordo como actividade relevante no âmbito do Sistema Geral das Transmissões da RMA, embora todos cumprissem, por forma meritória, inúmeras actividades promovidas pelo TCor/Coronel Mário Leitão nos aspectos Operacionais e Sociais das Transmissões.

Neste âmbito (aspectos de Pessoal das Transmissões de Campanha) considera-se oportuno enquadrar o que se passou comigo, Tenente do Ramo ERE do SMat, em termos da missão inicial, que se manteve durante a permanência do TCor/Coronel Mário Leitão, em Angola.

No dia da apresentação no BTm361 (30Ago66), farda branca, o Comandante, TCor Mário Leitão, mostrando-se informado sobre os conhecimentos e as práticas do Tenente Pena, na presença do 2.º Cmdt, Major Eng Fernandes Basto, Cmdt da CRMMTm, Capitão Teixeira Robles, Comandante da Delegação do STM, Capitão Eng Almeida Viana e outros oficiais, determinou que o Cmdt do PelMan/CRMMTm (Tenente Pena) a partir daquele momento assumisse a responsabilidade pela Manutenção de todos os Sistemas de Transmissões da Região Militar de Angola, ou seja, das Transmissões de Campanha e das Transmissões Permanentes.

Despedida do Comandante Coronel Mário Leitão (1967)

Nessa mesma ocasião entregou-me um bilhete de avião (carreira civil normal) para ir resolver a falta de ligação em VHF (Feixes Hertzianos) com Ambriz e Ambrizete. Não conhecia o equipamento do STM, julgo denominar-se ATE-800, tendo estudado o manual durante a viagem. Ao chegar junto do equipamento enfrentei com a maior humildade a sabedoria e experiência do meu colega dos Pupilos do Exercito, mas ainda Sargento Radiomontador, que colocado na Delegação do STM tinha esse tipo de material a seu cargo.

Mas a bagagem teórica de professor de Paço de Arcos e o respeito pessoal e técnico por parte do meu Bom Amigo, desses tempos e ainda de hoje, Major TecnManTm (SitReforma) Janeiro de Carvalho, comecei pela fonte de alimentação, como ordenavam os procedimentos gerais e, como estava aí a avaria, decorridos dez minutos estava a falar, Bom e Claro, com o Comandante, TCor Mário Leitão. Este episódio dos meus primeiros dias de Angola provocou-me envolvimento generalizado, de tal modo absorvente, que jamais houve tempo para a família e para um mínimo de lazer durante os dois anos da comissão de serviço.

No âmbito da Manutenção a instrução era permanente, envolvendo Sargentos do QP e de Complemento e Praças (algumas do recrutamento local, que se revelavam muito interessadas e tinham uma certa aptidão para Material Telefónico e de Electromecânica). Para além do material do STM, que obrigava a permanente adaptação dos Sargentos Radiomontadores à sua manutenção, receberam-se diversos tipos de material de Transmissões de Campanha, havendo constante preocupação de dotar o Pelotão de Manutenção de Equipas especializadas em cada um dos tipos de material.

Os Sargentos eram todos competentes e envolvidos; recordo como de Excelência o Henriques (VHF/CSF-911) que depois foi técnico altamente prestigiado na IBM, o Baptista (STORNO) que depois era técnico exemplar da SIEMENS, sempre a valorizar a sua passagem pela vida militar (Paço de Arcos e Angola), o Manuel Simão Antunes do QP (RACAL, TR-28 e RT- 422), que passou à Reserva/Reforma em Capitão TecnManTm e outros.

Sobre o assumir da Instrução de todo o material e da sua Manutenção (Transmissões de Campanha e Permanentes), salienta-se que após troca de impressões com Oficiais Engenheiros, com excepção do Comandante, sobre a conveniência em cada um tomar à sua conta, em termos de estudar o equipamento e ajudar na sua manutenção a Equipa encarregada de o manter, todos se disponibilizaram. Fez-se uma Relação que se apresentou ao Comandante (TCor Mário Leitão) que aprovou, mas pareceu-me não ter gostado da ideia. Mas na prática só se obteve ajuda, por vezes simbólica em termos de nos acompanhar em momentos críticos, por parte do 2.º Comandante, Major Eng Fernandes Basto (STORNO) e do Chefe da Delegação do STM, Capitão Eng Almeida Viana (MARCONI HS-31, Emissor de 3,5 Kw, instalado no Centro Emissor).

Ainda em termos de tarefas excepcionais e imprevisíveis cometidas pelo Comandante, TCor/Coronel Mário Leitão, destaco que um dia me chamou, dando-me a ler um ofício da Administração da Fábrica de Cervejas CUCA, onde se convidavam as Unidades de Luanda para um campeonato de “Futebol de Cinco” (hoje Futsal), tendo perguntado se era para preparar um Sistema de Transmissões para dar conhecimento dos jogos (Relatar) para a Província. Nada disso, o Tenente Pena ia constituir e preparar uma Equipa das Transmissões.

Esta tarefa, na altura ainda sem conhecer o Programa PERT, foi executada ao milímetro, havendo constante acção sobre a Equipa (aliás resolvemos participar com duas, A e B, para melhor se treinar). O Comandante assistiu a todos os jogos, sempre fardado de n.º l e bastão, acompanhado do cão favorito do Batalhão. Também assistiram Oficiais, Sargentos e Praças, havendo sempre Casa Cheia.

Para além das Transmissões terem ficado em primeiro lugar, receberam mais duas taças por terem vencido os prémios Melhor Assistência e Melhor Disciplina dos Jogadores. Nesta missão, que considero a mais bem conseguida da minha longa carreira militar, fui acompanhado pelo Sargento Oliveira que agora encontro nos “Almoços Anuais de Angola” e por outros Sargentos e Praças que também vou encontrando nos Almoços Anuais.

2. TRANSMISSÕES DE CAMPANHA

2.1 Material

AN/GRC-9 (muitas avarias, estava a ser substituído), APELCO VHF 501 (E/R de características não militares) AN/PRC-10 (avarias frequentes, mas de muita utilização), AVP-1 (versão portuguesa do rádio francês TR-PP-11B ou THC-766) (muitas avarias, mas de larga utilização). Pequenos emissores/receptores “handheld” de características não militares, NATIONAL e SHARP.

Em Outubro de 1967 foram recebidos 50 quipamentos RACAL TR-28. Na mesma altura foram recebidos MARCONI H-4000 e RACAL RT-422. Nas Transmissões de Campanha utilizava-se grande variedade de material telefónico e de electromecânica (Grupos de Carga e Rectificadores).

Para melhor informação desta área elaborei o “Relatório sobre o Pelotão de Manutenção e considerações que se julgam oportunas“, em 10 de Agosto de 1968 (arquivo na CHT, vinte e duas páginas).


2.2 Organização Territorial

O Pelotão de Manutenção fazia parte da CRMMTm, que se integrava no BTm361, depois Agrupamento de Transmissões.

Havia Comando das Transmissões, sendo durante algum tempo ocupado o cargo de Comandante das Transmissões e de Comandante da Unidade pelo mesmo Oficial, mas na parte final da Comissão (1968) por dois Oficiais.

A CRMMTm (PelMan) dispunha de Oficinas Avançadas em S. Salvador, Negage, Tete, Santa Eulália e Luso.

A interligação com o STM era perfeita, havendo do Quadro Orgânico da Delegação do STM dois Sargentos deslocados em permanência, um na Oficina Avançada do Luso e o outro em Cabinda.

2.3 Emprego Táctico

O Sistema de Reabastecimento e Manutenção do material de Transmissões de Campanha afectava a actividade operacional das Unidades Utilizadoras por forma marcante, pelo que não havia paragens quando se realizavam Operações de maior abrangência.

A preocupação em manter todo o Sistema de Transmissões da Região Militar de Angola em perfeito funcionamento era generalizada aos Oficiais, Sargentos e Praças da CRMMTm, havia dinâmica, esforço e alta motivação para tudo fazer bem e a tempo. Todos os militares eram competentes, mas onde se notava mais experiência era nos Sargentos.

Ao longo da Comissão, quando se apresentavam equipamentos para observar, de um modo geral o PelMan colaborava, ou mesmo assumia, a verificação da operacionalidade e a performance do material. Este tipo de tarefas foi objecto da “Informação sobre a manutenção dos 50 equipamentos RACAL TR-28 e 10 equipamentos RACAL RT-422, recebidos em Outubro de 1967 na RMA“, de 21 de Agosto de 1968.

3. TRANSMISSÕES PERMANENTES

3.1 Material

O Centro Emissor e o Centro Receptor exigiam constantes cuidados de manutenção, não se admitindo falhas na ligação em fonia.

O Emissor principal era Marconi ”Independent Side Banda” HS-31 (3,5 Kw), e estavam emissores Marconi HS-113 (1 Kw) em Luanda e no Luso, material tecnicamente de vanguarda pelo seu amplificador de banda larga.

O material de VHF também era muito importante, algum já mencionado.

3.2 Apoio Logístico do STM

O Apoio Logístico foi referido quando se falou no assunto nas Transmissões de Campanha, havendo necessidade de permanente pressão sobre Lisboa, mas a dedicação do pessoal ultrapassava as fases mais difíceis, notando-se boa interligação entre os Oficiais e Sargentos responsáveis pelo Reabastecimento e pela Manutenção

Paço de Arcos, 03 de Dezembro de 2006

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