Testemunho Pessoal do Sargento-Mor Tm Carlos Narra


ENQUADRAMENTO

A 4 de outubro de 1992, após dois anos de negociações em Roma, a Frelimo e a Renamo assinam um acordo de paz, o qual previa a projeção de uma operação de paz, a Onumoz, para supervisionar o cumprimento do acordo e apoiar o cessar fogo, a desmobilização das forças beligerantes e levar a cabo eleições nacionais.

No final de 1992 o Conselho de Segurança da ONU emite a Resolução 797, de 16 de dezembro, estabelece o mandato da Operação das Nações Unidas em Moçambique, Operação ONUMOZ.

Portugal, pretendendo afirmar a sua presença, organiza a sua integração nas três das comissões criadas no Acordo Geral de Paz, a Comissão Conjunta para a Formação das Forças Armadas e de Defesa de Moçambique (CCFADM), a Comissão do Cessar-Fogo (CCF) e a Comissão de Reintegração (CORE) e põe à disposição das Nações Unidas a primeira unidade constituída do Exército para servir as Forças de Manutenção de Paz.

Portugal pretendia estar presente com um contingente preparado fundamentalmente para contribuir para os aspetos políticos e técnicos da Missão, mais do que atuar ao nível operacional-militar. Das duas hipóteses inicialmente consideradas “levantamento” alternativo de uma Unidade de Engenharia ou de Transmissões, opção de uma Unidade de Transmissões acabou por vingar, ficando o planeamento e organização da proposta de enquadramento da força portuguesa a enviar para Moçambique a cargo do Diretor do Depósito Geral de Material de Transmissões.

Ficava assim definido o Batalhão de Transmissões n.º 4 do Exército, composto pelo Comando, por três Companhias de Transmissões e por uma Companhia de Comando e Serviços; um contingente comandado sucessivamente pelo tenente-coronel José Manuel Pinto de Castro e pelo tenente-coronel Miguel Rosas Leitão.

O APRONTAMENTO

Em Janeiro de 1993, foram reunidos os graduados, sobretudo sargentos no RTm, onde se iniciou o processo de preparação para a missão.

Inicialmente foram ministradas algumas aulas de aperfeiçoamento da língua inglesa, sobretudo na utilização de terminologia de carater técnico. A par desta “formação” iniciou-se o processo de vacinação e obtenção de passaportes para os militares indigitados. Neste período, foram também reforçados os conhecimentos sobre a montagem e operação dos equipamentos a utilizar, nomeadamente os de cifra “Cherex” e de micro-ondas “FM 200” embora estes os FM 200, estivessem, na sua maioria instalados em cabines T 100. Em março de 1993, uma equipa de comando efetuou um reconhecimento ao terreno, permitindo, no regresso, fixar os últimos pormenores na definição da unidade. A 31 de março de 1993 é emitido o despacho conjunto, orientador da missão portuguesa, dos Ministérios da Defesa, das Finanças e dos Negócios Estrangeiros, com a hierarquia delimitada, as tarefas a realizar no terreno identificadas e os homens escolhidos, inclusive os que iriam integrar o denominado 1º Escalão, cuja missão era instalar os primeiros meios de comunicações de forma a interligar via rádio, o Comando da Força com os comandos das Regiões Militares então delineadas – Região do Sul em Maputo, do Centro na Beira e do Norte em Nampula, bem como estabelecer ligação pela mesma via com o RTm (Lisboa).

Quanto aos recursos materiais, a cargo do DGMT, procedeu-se em Linda a Velha, á entrega do fardamento e equipamento individual, á preparação para expedição dos meios técnicos e militares necessários, bem como do abastecimento alimentar e de combustível que colmatasse a necessidade prevista nos estudos preparativos, de modo a cobrir um período de dois meses de autossuficiência.

A 15 de Abril de 1993, um cargueiro parte para Moçambique com o material do batalhão, exceto o material que iria seguir com o 1º Escalão, composto por, 3 Viaturas UMM Cournil, 1 viatura Unimog 1300, 3 grupos geradores em atrelados, equipamentos Rádio E/R 301 e respetivos acessórios necessários á sua instalação e operação e ainda equipamentos comunicação via satélite “Imarsat”, acondicionados em contentor e caixotes de madeira.

A 21 de abril embarca o 1ºescalão composto por 31 militares comandados pelo Major Moura Pequeno e a 13 de maio o resto do contingente.

Face á escassez de tempo para preparar as praças e a exigência técnica da missão, obrigou a um reforço do número de sargentos como forma de compensar o insuficiente conhecimento das praças no manuseamento e operação de determinados equipamentos. Essa aprendizagem e aperfeiçoamento, foi efetuada em contexto de trabalho já em território moçambicano.

Assim, dos cerca de 300 homens do Batalhão de Transmissões n.º 4, catorze eram oficiais, noventa eram sargentos e os restantes praças de diferentes especialidades e serviços.

O contingente português instituiu três acantonamentos, na Matola, no Dondo e em Nampula, e instalou onze centros de comunicação por todo o território moçambicano.

O objetivo era garantir as comunicações no interior da ONUMOZ distribuída por Moçambique, entre o comandante da força multinacional, os quartéis-generais, os cinco batalhões de infantaria e as várias unidades de apoio, que conseguiu assegurar a partir do final do mês de maio de 1993.

Preparação e Inicio do embarque do material do 1º escalão em Figo Maduro

A DESPEDIDA NO AEROPORTO DO 1.º ESCALÃO DO BTm4

Depois de duas tentativas de partida falhadas, a apreensão dos familiares pelo que possa acontecer ao ente querido destacado pela primeira vez no estrangeiro sobrepõem-se a tudo.

Para a maioria dos familiares que cá ficam, é difícil ver passar o filho, o pai, o marido pela porta de embarque, rumo a um destino desconhecido, com a dúvida do que possa vir acontecer durante a missão, portanto foi num ambiente marcado pela emoção na sala de embarque em Figo Maduro, com muitas lágrimas, misturadas com sorrisos impacientes, que os 31 militares preparados e informados sobre as condições que iriam encontrar, mostrando boa disposição e algum ânimo procuraram consolar a tristeza e apreensão de pais, mulheres, filhos e outros familiares e amigos.

No adeus, as conversas deram origem a abraços, os últimos beijos e sussurros com palavras de amor, carinho procurando criar algum consolo e serenidade para os que cá ficavam.

A Partida rumo a Moçambique aconteceu por volta das 23:30. Á entrada do aparelho os militares tiveram ainda oportunidade para um último aceno. Para os familiares, o último aceno foi através das grades que delimitam o acesso à área de embarque.

Os 31 militares do 1.º Escalão no Aeroporto de Nampula

Desembarque no aeroporto de Nampula do material destinado a Nampula e Beira

Imagem da notícia no dia seguinte ao embarque

Síntese Biográfica do Autor


Sargento-Mor de Transmissões, incorporado em 1984, concluiu o CFS em 1986. Ao longo da carreira prestou serviço na CTM/BMI, EPT, BTm 4, DGMT, CME e RTm, tendo desempenhado diversos cargos dos quais se destacam: Componente Operacional, Adjunto de Companhia, Chefe da Seção Planeamento e obras, Sargento de logística, PEFEx elaboração referenciais Curso Formação Praças de Transmissões, Formador em diversas áreas ligadas às Transmissões e Informática, Gestor de rede local e Adjunto do Comandante do RTm (Porto).

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