Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Na telegrafia ótica, verificou-se uma grande participação nacional  no sistema  montado pois, como se sabe, foi concebido e desenvolvido por um português, Francisco António Ciera[1] e manteve-se ao  serviço durante mais de meio século.

Em relação à telegrafia elétrica que, a partir de 1855  passou a substituir a telegrafia ótica, tínhamos uma ideia diferente pois, para além do sargento Martins[2] não conhecíamos qualquer outra intervenção portuguesa na nova tecnologia adotada.

Um artigo da revista Códice da Fundação Portuguesa da Comunicações[3], da autoria de Alfredo Anciâes, vem mostrar claramente a existência de  contributos portugueses na telegrafia elétrica.

Este post, baseado nesse artigo, apresenta as três inovações portuguesas, referidas pelo autor do artigo e introduzidas no sistema de telegrafia elétrica  nos finais do século XIX e princípios do século XX:

  • Uma melhoria do sistema de escrita dos telégrafos Morse, e a construção de um telégrafo de campanha da autoria de Maximiliano Augusto Herrmann.
  • Um sistema novo de telegrafia elétrica inventado por Cristiano Bramão.
  • Modificações do telégrafo Hughes e Baudot iniciada por Augusto dos Santos e que viria a agregar outros contributos.

Vejamos em que consistiram estas inovações, aproveitando para referir algumas breves notas sobre os seus autores.

* A melhoria do sistema de escrita e o telégrafo de campanha, da autoria de Maximiliano Augusto Herrmann:[4]

herrmanHerrmann, com a sua intervenção, pretendeu resolver o seguinte problema  de escrita nos recetores  telegráficos de Morse:

“Os recetores Morse que então existiam – da primeira aquisição – eram de ponta seca ou de tinteiro com tira – linhas, uns e outros de fracos resultados práticos. Nos primeiros: os sinais, marcados no papel por um ponteiro de aço, eram de difícil perceção e desapareciam com facilidade. Nos segundos, a tinta secava a miúde nos tira – linhas, ou, quando este estava mal graduado, transbordava e alastrava no papel, tornando impossível a leitura da fita” (Barros, Ferreira, 1943, pág.52).[5]

As modificações introduzidas por Herrmann consistiram em:

“Na parte respeitante ao registo de sinais, Herrmann construiu uma tina ou tinteiro de utilidade inequívoca e documentada. Adaptou-o com uma armadura flexível e regulável com um fino estilete, como se de uma pena ou estilete se tratasse, deixando apenas escorrer a tinta necessária para os registos das mensagens serem legíveis.”[6]

Esta modificação foi dada a conhecer às administrações telegráficas estrangeiras e foi apresentada por Vitorino José Damásio, diretor dos Telégrafos Portugueses[7] na conferência Telegráfica Internacional de Paris em 1865, no ano seguinte à extinção do Corpo Telegráfico.

Herrmann também criou o telégrafo de campanha de 1897, que se mostra na figura.

herrmann 2Para este telégrafo de campanha, Alfredo Anciâes aponta, no artigo citado, as seguintes melhorias:

  • Um sistema de dar corda, com alavanca, dispensando a chave;
  • Um tinteiro regulável em altura  e  com uma fina agulha de saída de tinta;
  • Uma chave de morse muito funcional;
  • Bobinas de fita facilmente destacáveis e com um sistema muito prático de fixação para efeitos de transporte;
  • Uma caixa com tampas articuláveis;
  • Um despertador, uma bússola e outras componentes devidamente alojadas/articuladas dentro de uma caixa portátil.[8]

* O sistema Telegráfico de Cristiano Augusto Bramão:[9]

Bramão apresentou 3 versões de um telégrafo inovador, a última das quais foi “o aparelho tipo 1874”, que se mostra na figura.

bramaoA  inovação de Cristiano Bramão consistiu na  adaptação do aparelho para trabalhar com corrente alterna. As correntes positivas transmitiam os pontos e as negativas os traços, o que permitia aumentar a rapidez de comunicação, tornando o aparelho particularmente apto para estações de elevado tráfego.

O autor do artigo refere ainda a utilização do telégrafo-telefone de Bramão nas comunicações para sul do Tejo:

“As comunicações entre o Norte e o Sul do Tejo do território continental português passam pelo cabo subfluvial… os edifícios de acolhimento do cabo telegráfico foram inaugurados em 1871. Por eles passaram as primeiras transmissões telegráfico-telefónicas.

As primeiras transmissões telegráfico-telefónicas foram realizadas com o telefone/telégrafo (um clássico e inovador) de Cristiano Augusto Bramão. Segundo tudo indica, através da documentação reunida, podemos afirmar que este tipo de aparelho realizou a primeira fonoconferência do mundo com interlocutores situados em simultâneo e, Lisboa e nas seguintes localidades: Bom Sucesso, Barreiro e Setúbal. O sucesso das experiências foi brilhante e a notícia saiu publicada na Revista das Obras Públicas e Minas da época. “[10]

* Melhoramentos introduzidos por inventores portugueses nos telégrafos Hughes e Baudot:[11]

O telégrafo Hughes (conhecido na gíria técnica por “piano”) teria sido adotado em Portugal  em 1885 e o de Baudot  a partir de 1920.

HughesAntónio dos Santos[12] foi o autor do livro “Telégrafo Hughes Duplo” que visava a transformação do telégrafo do modo simples para o modo duplo. [13] No modo duplo o telégrafo podia “enviar duas mensagens no mesmo espaço de tempo e no mesmo circuito de fios.”

Este projeto para o telégrafo Hughes acabou por não ir para a frente, o que não aconteceu com a criação de um regulador fiável, que o projeto contemplava e era aplicável tanto para o telégrafo Hughes como para o Baudot.

Este regulador viria a surgir com a designação de DMO o que significa Doignon, Mendonça e Oliveira. Pretendia ser uma homenagem ao construtor e aos dois principais autores do projeto,[14] ambos inspetores dos Correios e Telégrafos.[15] A construção deste regulador de tensão foi inicialmente feita nas Oficinas Gerais dos CTT e numa fase posterior também na casa Doignon.

“O regulador destinava-se a colmatar os problemas provocados pela variação de tensão da energia elétrica (funcionando, grosso modo, como uma embraiagem) … com consequências gravosas na transmissão e receção de mensagens.

A aplicação portuguesa dos reguladores dos telégrafos Hughes e Baudot tornou-se um invento de interesse para todo o mundo.


[1] Este ano de 2013 verifica-se o bicentenário da sua morte. Ver Biografia pág 25 e seguintes do livro da CHT  Bicentenário do Corpo Telegráfico

[2] Autor de vários aperfeiçoamento na área da telegrafia elétrica, como coadjuvante dedicado de Bon de Sousa, destinados a facilitar a ligação das estações telegráficas militares com as civis, no período noturno, em que estas se encontravam encerradas. Ver PAÇO, Afonso do, Comunicações Militares de Relação, 1938

[3] Revista Códice  nº2 do ano 2005

[4] Herrmann não é um desconhecido para a CHT.  Ver Transmissões Militares da Guerra Peninsular ao 25 de Abril, pág.20, onde se refere que as primeiras experiências de telegrafia elétrica no Exército foram realizadas em 1866, em Tancos, com telégrafos construídos pela casa Herrmann.

Maximiliano Augusto Herrmann (1838-1913) nasceu em Lisboa. Frequentou o Instituto Industrial de Lisboa. Ingressou na Companhia de Caminhos de Ferro de Norte e Leste, chegando a Inspetor. Criou em Lisboa uma oficina e instrumentos de precisão. Teve um papel importante na construção de aparelhos telegráficos

[5] Revista  Códice citada, pág.85.

[6] Idem, Idem

[7] Depois de extinto o Corpo Telegráfico em 1864

[8] Revista Códice citada. Pág. 86.

[9] Cristiano Augusto Bramão (1840-1881), natural de Elvas. É considerado por Fernanda Rollo, História das Telecomunicações em Portugal, pág 107,como  “uma das maiores figuras no campo das telecomunicações em Portugal”. Alistou-se aos 15 anos no 2º Regimento de Artilharia e em 1859 foi transferido para o Corpo Telegráfico onde prestou serviço como telegrafista. Depois da extinção do Corpo Telegráfico em 1864, passou a pertencer aos Telégrafos do Reino, ao serviço dos quais veio a chefiar as estações de Setúbal, Coimbra, Elvas e Estação principal de Lisboa.
bramao 2Além das invenções que descrevemos  no campo da telegrafia, inventou o telefone de mesa Bramão, juntando numa única peça microfone e auscultador, muito antes de outros.

[10] Ver Códice citada pág. 89

[11] Nem do telégrafo Hughes nem do telégrafo Baudot se conhece notícia de que tenham tido utilização nas redes militares.

[12] Na pág 95 da Códice refere que “foi aluno e colaborador da Casa Pia de Lisboa no alvor do século XX. Posteriormente ingressou nos Correios e Telégrafos onde foi 3º oficial”.

[13] Alfredo Anciães refere que se trata de um “manuscrito profusamente decorado e primorosamente organizado”

[14] Augusto Anciães defende que António dos Santos deveria ser referido porque concebera em linhas muito gerais o projeto

[15] Francisco Mendonça e Cassiano Maria de Oliveira

1 comentário em “Inventores portugueses na Telegrafia eléctrica

  1. Ao caríssimo MGen Pedroso Lima. O seu artigo divulga e acrescenta algo. Com um ou outro pequeno lapso de citação que não desvirtua o essencial da informação e documentação: endereço-lhe os meus parabéns pelo contributo para a ciência e técnica em Portugal, sem cairmos numa visão ampliada de patriotismo, lusitanismo ou portuguesismo, em respeito pelas fontes exteriores que nos enformaram, vindas de outros países, outros autores. As minhas saudações – Alfredo Anciães.

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