
Oficial Adjunto do Departamento de Desenvolvimento Aplicacional
e Business Intelligence da DCSI
Atualmemte é Major e o seu cargo Oficial de Segurança dos SICs na CIS Support Unit Lisbon (NCIA)
Com o advento da internet provavelmente poucos anteviam um desenvolvimento tão vertiginoso das potencialidades e oportunidades que emergiram com a digitalização da informação. Numa sociedade cada vez mais globalizada, cooperante, sedenta de inovação e otimização na utilização dos recursos, assistimos nestas últimas três décadas a uma democratização do acesso a diversas plataformas e tecnologias.
A transformação digital passou a integrar o léxico das organizações e instituições, constituindo-se simultaneamente num fator e numa oportunidade de transformação das organizações. Mudanças que constatamos na forma como os produtos e serviços são disponibilizados, mas também como as organizações se reinventam e promovem a otimização dos seus processos.
A nível nacional é uma realidade o desenvolvimento de esforços no âmbito do desenvolvimento digital da sociedade e da economia. Na edição de 2022, do índice de Digitalidade da Economia e Sociedade, Portugal ocupava a 15.ª posição entre os 27 Estados. Membros da União Europeia, tendo subido uma posição em relação a 2021 [1].
O Estado como entidade pública e promotora de mudança tem vindo a promover a disponibilização de serviços públicos digitais aos cidadãos e empresas, assim como permitir um acesso rápido, oportuno e eficaz a formulários online com dados pré-preenchidos. Emerge a título de exemplo, a relação do cidadão com a Autoridade Tributária (AT), do qual o exemplo mais visível é o processo de regularização do IRS.
Com a transformação digital surgem novos conceitos interrelacionáveis, mas que por vezes são utilizados de forma difusa, como desmaterializar e digitalizar.
Qual o seu significado e diferenças?
Digitalização e desmaterialização
A digitalização e a desmaterialização interrelacionam-se, mas apresentam significados diferentes.
A digitalização, segundo o dicionário português online traduz-se no “ato ou efeito de digitalizar, de tornar “digital”, “mudança para formato digital” ou “conversão (de texto, imagem, etc.) para formato digital, de forma que se possa processar por computador” [2].
A mesma fonte, enuncia que desmaterializar assenta no “ato ou efeito de desmaterializar(-se), de tirar ou perder a forma material” ou “passagem para meio ou formato eletrónico ou digital (tornando dispensável um suporte material)” [3].
Estes conceitos possuem diferentes significados e abordagens. A digitalização assenta na transformação de dados físicos em dados digitais, sem alteração de procedimentos e funcionamento. Esta abordagem é muito frequente em organizações e instituições que possuem ficheiros físicos, impressos em papel e pretendem materializá-los em suporte digital.
A sua importância ganha relevância quando concorre para redução ou supressão da necessidade de lidar com quantidades significativas de papéis, promovendo pesquisa e acesso à informação mais célere e eficaz. A digitalização concorre por via da realização de procedimentos em formato digital, para promover o armazenamento de informações sobre utilizadores, possibilitando a análise destes de dados para tratamento estatístico e identificação de padrões, podendo ser disponibilizada para apoio à tomada de decisão.
A desmaterialização pretende ir para além da simples transformação dos dados físicos em dados digitais. Desmaterializar passa por analisar procedimentos, procurando identificar abordagens mais eficazes, mais céleres e mais adequadas na realização das tarefas, atividades ou processos, promovendo bastas vezes uma rutura com os procedimentos instituídos. O objetivo passa por patrocinar uma mudança de paradigma, procurando soluções escaláveis e adequadas, promovendo um emprego mais eficiente dos recursos sem se dissociar da evolução tecnológica.
A desmaterialização é indissociável da digitalização, mas não se cinge à mesma. Enquanto em algumas áreas os processos de digitalização são suficientes, outras envolvem mudanças mais profundas sendo necessário desmaterializar, modificar e implementar procedimentos.
A digitalização normalmente é adequada aos seguintes padrões organizacionais:
- Incapacidade para organizar e gerir grandes volumes de informação dados;
- Organização da informação inadequada;
- Inexistência de ferramentas tecnológicas adequadas (exemplo a existência de e-mail).
A desmaterialização é adequada e deverá ocorrer quando se identifica a:
- Necessidade de adaptação a novos modelos de negócios (exemplo: e-commerce);
- Automatização de procedimentos (exemplo: chatbot);
- Otimização de recursos humanos e gestão de tempo;
- Identificação de novos fluxos de trabalhos.
Vantagens e fundamentos da desmaterialização?
A desmaterialização assenta na inovação tecnológica como elemento agregador e diferencial para a evolução, baseando-se em vários fundamentos:
- Eficiência: procura a melhoria de processos;
- Foco nos utilizadores: aprimorar a experiência e satisfação dos utilizadores;
- Inovação: necessidade de investir em formação e atualização contínua;
- Valor agrega vantagem ao produto/serviço.
Inicialmente, o processo pode ser moroso, exigir a interligação e integração de recursos humanos diferenciados, e, revestir complexidade na definição de fluxos e alteração de procedimentos. Contudo, após essa fase os benefícios alcançados poderão traduzir-se em:
- Melhoria de eficácia e eficiência organizativa;
- Redução de necessidades relativas a expansão de infraestruturas físicas;
- Maior agilidade nos processos;
- Redução de custos;
- Decisões mais informadas e céleres;
- Dados estatísticos e acesso a informação de forma mais adequada;
- Simplicidade de procedimentos para utilizadores;
- Disponibilidade e acessibilidade da informação;
- Mecanismos de integridade e autenticidade.
Oportunidades da desmaterialização
Através da inovação, digitalização e desmaterialização de processos, determinadas áreas e temáticas surgem com maior relevância, levando por exemplo à adoção de políticas de responsabilidade ambiental, cujo objetivo é diminuir custos e recursos materiais. Acresce à escala ecológica, a adoção de processos que se traduzem numa libertação de recursos humanos para outras áreas de ação, promovendo aumento da produtividade, pela via da automatização de tarefas, reduzindo ou eliminando a necessidade de execução de tarefas manuais, mas igualmente pela introdução de procedimentos de validação que concorram para a eliminação de incoerências e/ou informação duplicada.
As introduções de fluxos no tratamento processual vêm concorrer para uma partilha de informação mais célere, providenciando em tempo útil informação em apoio à tomada de decisão. Fomentando assim o acesso à informação e a tramitação de processos sem atrasos, ou omissões.
A desmaterialização poderá igualmente fomentar a diminuição de necessidade de espaço físicos para arquivo (ressalvando-se a retenção física por imperativos legais).
A desmaterialização vai mais além, na medida que permite identificar novas formas de desenvolver tarefas colaborativas, facilidade de acesso à informação e a facilidade de partilha desta. O acesso a novas tecnologias e plataformas permite implementar procedimentos e obter informação de forma eficaz, rápida, descentralizada e adaptada às necessidades e descentralizada, com recurso a aplicações web, app’s acedíveis a partir de uma diversidade de dispositivos móveis (laptops, tablets, smartphones, …), facilitando o acesso à informação por parte do decisor.
A centralização da informação e o acesso descentralizado à mesma, possibilita que o acesso possa ocorrer a partir de qualquer localização, potenciando a mobilidade de colaboradores e decisores. No contexto da segurança, a desmaterialização permite igualmente introduzir melhorias significativas, por via da introdução de procedimentos de segregação de acesso, logging e auditing. Estes procedimentos incrementam o controlo e rastreabilidade no acesso à informação. Desta forma questões de autenticidade, integridade e confidencialidade é assegurada.
Os resultados da desmaterialização têm o foco no desenvolvimento de soluções digitais para cada nova situação ou oportunidade, na capacitação dos colaboradores de conhecimento e ferramentas, na existência criação de mecanismos automáticos fiáveis e fidedignos, bem como na possibilitação de uma organização adquirir uma maior agilidade organizacional.

Desmaterialização
( Fonte: https://www.filedoc.com/recursos/avancar-para-a-desmaterializacao/ )
No Exército e através da capacidade de sustentação, manutenção evolutiva e desenvolvimento aplicacional da DCSI, constituem-se exemplos de que concorrem para a título de exemplos de desmaterialização de processos:
- Desenvolvimento do módulo planeamento e gestão das férias do Portal do Pessoal;
- Desenvolvimento de vários módulos para o Portal da Formação (exemplo: Desenho da Formação e Certificados de Condução Militar);
- A aplicação SIGE – Sistema Integrado de Gestão Estratégica;
- Desenvolvimento de uma aplicação (android) para Unidade Militar de Medicina Veterinária – UMMV que veio desmaterializar a implementação do registo da Fichas Clínica Veterinária, garantindo acesso aos registos com segurança e mobilidade;
- a nova versão da plataforma de Registo de Acidentes, e de igual modo como o desenvolvido Sistema de Registo de Situação de Viaturas (SITVIAT).
Referências:
- [1] https://www.dgae.gov.pt/servicos/politica-empresarial/competitividade/digitalizacao.aspx ;
- [2] Porto Editora – digitalização no Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha];
- [3] Porto Editora – desmaterialização no Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha];
